A casa



- Como é que era a casa – perguntou a mulher-polícia, de bloco e caneta na mão.
A senhora de vestido puído e com nódoas enrolava nervosamente entre os dedos uma ponta do seu avental.
- A minha casa tinha as paredes de fora pintadas de laranja, portas de madeira escura e aros com a cantaria em mármore de Cantanhede. Sei que o mármore era de lá, porque fui lá com o meu falecido esposo apreçar e comprar, num tempo em que ainda se podia confiar nas pessoas e se celebravam contratos com um simples aperto de mão.
- E pode dizer-me mais coisas?
- No relvado da frente, tinha canteiros com glicínias e sempre-noivas, e uma velha oliveira que um raio fendeu ao meio durante um temporal, e que nos dias de vento rangia como se fosse soçobrar de vez à queda daquele raio. Mas aguentou-se sempre, como nós, as pessoas, que somos feridas e cortadas de mil e uma maneiras e nos mantemos inteiras apesar de ninguém acreditar que isso é possível.
- Muito bem, acho que recolhemos dados suficientes. Se virmos por aí a sua casa, a senhora será notificada de imediato. Tenha um bom dia, minha senhora!
            A senhora agradeceu e ficou parada no mesmo lugar a torcer, e retorcer a ponta surrada do avental. Diante dela, um ermo confrangedor no lugar onde estivera antes a sua casa.
A mulher-polícia alcançou o carro e sentou-se no lugar do pendura com um longo suspiro.
- E então? Como é que correu? - Perguntou o colega.
- Mais uma velha maluca, e chateiam-nos por causa duma coisa destas. A mulher deve pensar que me vou dar ao trabalho de lançar um alerta por causa da casinha de subúrbio dela, ou que vou inquirir as pessoas na rua quando ainda temos entre mãos o furto daqueles três arranha-céus.



(para o João)

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