INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Animais


«O senhor tigre encostou-se à porta da sua loja, rindo baixinho quando passou a senhora zebra com as suas monótonas vestes listradas. O tigre achou toda a aldeia muito animada nessa manhã, hipopótamos velhos conversavam no tanque do chafariz, as corujas ensinavam álgebra a pombos apatetados, e as éguas relinchavam coscuvilhices às portas do mercado. Foi então que todos deixaram de falar por momentos quando apareceu um homem que descia a rua a cantarolar...».
...
«... um homem que descia a rua a cantarolar»
...
Não, não posso escrever isto” - pensou o tigre – “Isto não é nenhuma fábula!”

Die katze


Foi-nos cedido o gato de Schrödinger para cuidarmos dele, porque tinhamos mais experiência com animais do que os cientistas, falando, claro está, das relações habituais que se tem com os animais de companhia e não daquele tipo de experiência ou relação que se desenrola entre um investigador e as suas cobaias. Adiante. O gato de Schrödinger, apesar da sua fama e dos debates e cálculos que já causou entre os físicos, não se comportou até agora de modo distinto dos outros gatos que temos cá em casa (e sim, sabemos o que estão a pensar, nós temos de elaborar um relatório semanal detalhado sobre o seu comportamento, porque os cientistas não passam sem isso, é o seu sonífero habitual sem o qual se converteriam em ínsones zombies). Posso dizer-vos o que também transmiti no primeiro desses relatórios - o dito gato come e dorme como os outros animais, gosta de se roçar nas nossas pernas, mesmo enquanto caminhamos, de pequenos brinquedos com os quais se entretém no chão, e gosta de fazer o gosto às suas pequenas garras, arranhando as cobertas dos sofás, os tapetes e, muito particularmente, os cortinados compridos das janelas do salão. No geral, é um gato-ninguém, um exemplar banalíssimo dos felinos dessa raça. Tem as suas necessidades orgânicas, tem a sua necessidade de afecto e atenção, e também exibe alguns comportamentos irritantes, como qualquer gato, aliás (quando sente fome, por exemplo, salta para cima da mesa de jantar para nos lembrar que já são horas de o alimentar), comportamentos que vamos moldando com oportunas repreensões e pequenos e humanos correctivos. No aspecto social, também não é distinto, interage com os outros gatos, e desenvolve a sua actividade sexual com as gatas de casa e da vizinhança. Como os outros gatos, habituamos o gato de Schrödinger a urinar numa caixa de areia própria que mantemos no alpendre das traseiras mas, apesar disso, ainda não conseguimos demovê-lo de, esporadicamente, marcar o seu território com urina. E é apenas aí que o gato de Schrödinger se distingue dos outros gatos, porque a sua urina tem um cheiro completamente diferente nas alturas em que está morto.



O embarque

   Enquanto a longa fila de pessoas parecia ter-se imobilizado de novo, passou em revista todas as condições estipuladas para o embarque. A passagem no bolso do seu casaco, a pequena e leve pasta. Não tinha mais bagagens, e aquela pasta deveria estar muito abaixo do peso máximo permitido para a bagagem pessoal.
   - O senhor, por favor! - disseram-lhe por fim.
   Encarou o segurança. Já tinha uma idadezita jeitosa, e ostentava longas barbas brancas como se fosse um profeta ou um dos guitarristas dos ZZ TOP. Entregou-lhe a pasta e o sobretudo, as chaves, o relógio e a fina aliança, e cruzou o arco electrónico, fazendo soar um alarme sonoro e luminoso.
   - Recue por favor! pediu-lhe o segurança - com a sua pasta está tudo em conformidade, mas o senhor traz algo consigo que o detector não tolera.
   - Não vejo o que possa ser - confessou, despindo o casaco - o isqueiro não é de certeza, porque atirei-o pela janela do carro no dia em que deixei de fumar. Talvez seja algum clipe...possuo o tique de mordiscar os clipes enquanto estou a mexer em papéis, e posso ter deixado algum no bolso.
   - Ninguém falou em objectos metálicos -lembrou o homem - não é para isso que serve este detector. O senhor traz consigo algum pequeno animal de estimação? Um hamster, uma joaninha, ou um gafanhoto?
   - Não, céus, porque é que eu iria trazer insectos comigo?
   - Não sei, mas o aparelho detectou a presença dum ser biológico vivo. E não podemos permitir isso!
  - Mas é evidente que a máquina está correcta. Eu não trago nenhum clandestino comigo, mas eu estou vivo, está a ver? Eu sou o ser biológico que ela assinala, e fica explicada a confusão.
   - Mas estamos longe duma solução. O senhor não pode embarcar assim...não podemos permitir isso - repetiu o velho Caronte.


versos alejandrinos


A obscuridade das águas

Ouço ressoar a água que cai no meu sonho.
As palavras caem como a água eu caio. Desenho
nos meus olhos a forma dos meus olhos, nado nas minhas
águas, digo-me os meus silêncios. Toda a noite
espero que a minha linguagem logre configurar-me.  E
penso no vento que vem até mim, permanece
em mim. Toda a noite caminhei debaixo da chuva
desconhecida. A mim deram-me um silêncio
pleno de formas e visões (dizes). E corres desolada
como o único pássaro ao vento.

Alejandra Pizarnik
(1936-1972)

Poesia completa AQUI

War Games

   A mulher de camisa de dormir e longos cabelos castanhos escovados - muito bem escovados, diga-se - emitiu um pequeno guincho quando viu o homem mascarado entrar pela janela da cozinha.
   - Quem é você?
   - Um ladrão, como pode ver...
   - Saia, senão ligo para a polícia!
   - Não vale a pena, cortei os cabos todos, do telefone, da net, tudo. E não pense em gritar porque venho armado!
   - Não quero saber, vou gritar à mesma - anunciou.
   Ensaiou um grito que mal saiu da garganta porque, em dois saltos, o homem mascarado estava junto a ela, agarrando-a e fechando-lhe a boca com a  mão, e continuando a agarrá-la com força, deitou-a em cima da mesa da cozinha, e amordaçou-a com um pano que trazia na algibeira, e logo a obrigou a rodar o corpo, e atou-lhe as mãos atrás das costas enquanto ela se debatia energicamente. Curvando-se ao lado da mesa, conseguiu erguer o corpo dobrado por cima do seu ombro; e, segurando-a pelas pernas, carregou-a até ao sofá da sala contígua, onde a deitou com cuidado no conforto almofadado, compensando essa delicadeza quase maternal com dois violentos tabefes com a mão aberta nas suas faces. Apesar de tudo, os olhos dela sorriam, brilhavam e sorriam, e sorriam as maçãs do seu rosto, sorria ao seu modo o seu corpo, onde alastrava um tépido tremor como uma onda de desejo.
   - Se a senhora prometer que não grita, eu tiro-lhe a mordaça!
   Ela assentiu com a cabeça, e ele tirou-lha, mas subiu-a de forma que lhe vendasse os olhos.
   - Para quê isso, marido?
   Ele beijou-a, mordiscando-lhe o lábio.
   - Não sou teu marido, e não te conheço. Eu sou um ladrão e um assassino, lembras-te? E se voltas a falar-me assim, vou ter de te castigar.
   - Sim, castiga-me, malvado. Tens de me castigar, porque agora vou insultar-te, vou-te rebaixar e espezinhar até te sentires pior do que um cão...
   Enquanto ela desfiava todos os insultos de que se lembrava, ele amarrava com força uma segunda corda aos seus pulsos, prendendo-a ao sofá. O discurso dela foi interrompido por um som abafado vindo da cozinha.
   - Ouviste? - inquiriu ela- veio da cozinha...Deixaste a janela aberta?
   - Deixei, e acho que é outro ladrão, um tipo mesmo bera que recebeu uma sugestão anónima sobre uma casa cheia de riquezas que podiam ser dele se matasse a patroa. Preciso ir, senhora!
   - Essa brincadeira não tem piada. Solta-me, Júlio!
   «Ouviste, Júlio?
   «Júlio!?».
   A única resposta que teve do marido, foi o som da porta da entrada a fechar-se com uma sinistra discrição.


odisseia

   - Qual é o caminho para Ítaca? - perguntaram as crianças ao velho aedo sentado sob a oliveira no largo da aldeia.
   Ele levantou a cabeça para as sombras que dançavam no alto.
   - O caminho para Ítaca está em todo o lado, e tudo nos leva até ela. Os gansos que migram no céu, o zunir duma mosca, o doce murmúrio das fontes nestas horas de calor, o calor áspero da areia na palma das nossas mãos. Ulisses não compreendeu isso, não compreendeu que Ítaca estava dentro dele, e que poderia encontrá-la se se sentasse na sombra de um árvore como esta. Quando ele parasse de procurar, o universo e os deuses iriam afeiçoar-se a ele, e os que ele amava viriam ao seu encontro, o seu velho pai, o filho leal, a industriosa Penélope.
   - Ulisses era estúpido? - perguntou uma delas, muito admirada.
   - Não, Ulisses, simplesmente, não era cego como eu, e os horizontes longínquos chamavam-no, o dorso das montanhas, as planícies ensolaradas e os abismos do mar- moradas de seres monstruosos e mágicos, cuja derrota melindrava os deuses arrogantes e vingativos. Quanto mais tempo a nave de Ulisses sulcava os mares, mais Ítaca se afastava, ocultando-se nos esconsos dum labirinto mágico enredado por esses deuses.
   - Mas também, se não fosse assim, não terias nada para contar, velho sábio...
   - E isso que importa? As minhas palavras não brilham como a forja dos Cíclopes, e as minhas histórias não transformam pessoas em animais. Quando olham cá para baixo, os deuses vêem apenas um cego a descansar sob uma oliveira, e ignoram que dentro de mim ressoa ainda o bronze das espadas dos Dárdanos, da mesma forma que consigo ouvir distintamente o mar a beijar a quilha do navio de Ulisses no porto de Ítaca.

aspirações

  - O que é que queres ser quando fores grande?
  A criança encolheu os ombros. Podia responder de forma afirmativa e categórica com um dos sonhos que o animavam:

astronauta
pintor
navegador solitário
caçador de miragens
Ícaro de foguetes
coleccionador de sonhos
construtor de balouços

   Mas não. Respondeu, indelicadamente, com outra interrogação:
  - O que é que me deixam ser quando for grande?

A casa



- Como é que era a casa – perguntou a mulher-polícia, de bloco e caneta na mão.
A senhora de vestido puído e com nódoas enrolava nervosamente entre os dedos uma ponta do seu avental.
- A minha casa tinha as paredes de fora pintadas de laranja, portas de madeira escura e aros com a cantaria em mármore de Cantanhede. Sei que o mármore era de lá, porque fui lá com o meu falecido esposo apreçar e comprar, num tempo em que ainda se podia confiar nas pessoas e se celebravam contratos com um simples aperto de mão.
- E pode dizer-me mais coisas?
- No relvado da frente, tinha canteiros com glicínias e sempre-noivas, e uma velha oliveira que um raio fendeu ao meio durante um temporal, e que nos dias de vento rangia como se fosse soçobrar de vez à queda daquele raio. Mas aguentou-se sempre, como nós, as pessoas, que somos feridas e cortadas de mil e uma maneiras e nos mantemos inteiras apesar de ninguém acreditar que isso é possível.
- Muito bem, acho que recolhemos dados suficientes. Se virmos por aí a sua casa, a senhora será notificada de imediato. Tenha um bom dia, minha senhora!
            A senhora agradeceu e ficou parada no mesmo lugar a torcer, e retorcer a ponta surrada do avental. Diante dela, um ermo confrangedor no lugar onde estivera antes a sua casa.
A mulher-polícia alcançou o carro e sentou-se no lugar do pendura com um longo suspiro.
- E então? Como é que correu? - Perguntou o colega.
- Mais uma velha maluca, e chateiam-nos por causa duma coisa destas. A mulher deve pensar que me vou dar ao trabalho de lançar um alerta por causa da casinha de subúrbio dela, ou que vou inquirir as pessoas na rua quando ainda temos entre mãos o furto daqueles três arranha-céus.



(para o João)

Enfétichado

    O toque de aviso sobre o aro da porta fez levantar o ancião da cadeira por trás do balcão. Espreguiçou-se e mirou a sua loja. Uma jovem ruiva e de pele muito branca estava encostada ao mostruário de cintos.
    -Temos a maior gama que pode encontrar em artigos de couro e cabedal. Cintos, carteiras, bolsas, tudo - publicitou com voz arrastada, e as suas palavras desfaleciam no ar, dessemantizadas, tantas tinham sido as vezes que as repetira até aí.
    - Eu gosto de tudo! - afirmou a mulher com uma voz sensual.
    E, de facto, parecia gostar. Acariciava os artigos, cheirava-os, afundava a cara nas carteiras de cabedal, ou encostava os artigos à face, ao de leve, como se fossem pétalas escuras.
    O lojista ajustou as calças de alças sobre a barriga proeminente e deu a volta ao balcão. Agora ficara interessado. Estudou cobiçosamente a cliente, as nádegas firmes sob a ganga apertada, a t'shirt curta que lhe deixava ao ventre a descoberto, a pele sardenta.
    - O cabedal transtorna-me toda - confessou ela - excita-me, dá-me vontade de morder e rasgar. Quando estou rodeada de cabedal, sou capaz de tudo.
    - Então, veio ao sítio certo para ficar excitada. Tenho muitos mais artigos de cabedal armazenados lá atrás na sub-loja, se quiser, posso fechar a loja por um bocado e mostrar-lhos. Faço qualquer coisa por uma boa cliente!
   Ela sorriu, e deu uma palmada brincalhona na barriga do velho.
   - Você não é nenhum atleta, mas estou curiosa de ver como se comporta nessa idade. Feche lá a porta.
   O velho fechou a porta com as mãos trémulas, desligou as luzes do interior da loja para obstar a curiosidade dos transeuntes, e conduziu a ruiva à divisão adjacente, atrevendo-se a afagar-lhe desajeitadamente um dos seios à passagem.
   - Já o avisei que o cabedal me transtorna por completo...
   Os avisos não incomodavam o lojista, tinha as cabeças noutra coisa.
    - Você era capaz de me fazer um bico? Eu adoraria se você pudesse...
    - Primeiro, dispa-se - ordenou ela, enquanto abria as caixas de artigos arrumadas nas prateleiras, e esvaziava a eito o seu conteúdo no chão - Agora! - ordenou novamente, com voz alterada.
    O homem obedeceu, despindo a roupa à sua frente, mas ela deteve-o quando ia despir as cuecas.
    - Ainda não. Agora, fique quieto!
    E, para espanto dele, ela depôs aos seus pés um molhe de cintos de cabedal, que mais pareciam um novelo de serpentes enroladas umas nas outras. Pegando num de cada vez, ela rodeava o seu corpo e fechava a fivela. Começou com um pelos artelhos, outro à altura do joelho, outro cinto sobre o peito que lhe cingia os braços ao longo do corpo, e um outro que a custo circunscrevia os braços e a barriga.
    - Meu Deus, estou a ficar tão excitada! Acho que não vou aguentar mais...
    - Não aguente, não se deve reprimir, faça-o já.
    Ela soltou um prolongado gemido que mais parecia um uivo, e  fazendo voltear no ar um cinto, começou a bater com ele no velho, imprimindo sobre a sua pele a marca violácea da fivela ornamental da águia da Harley-Davidson.




Enfétichado 2

     - Não te vás embora durante a noite, isso faz-me sentir desconfortável - queixou-se ela, com a cabeça apoiada no seu peito, com o emaranhado dos lençóis e almofadas a envolvê-los como as paredes dum ninho.
     - Preciso sempre ir antes de amanhecer...tenho as minhas razões.
     Ela exalou um suspiro de amuo.
     - É muito triste acordar sozinha na cama de manhã. Parece que nos envergonhamos dalguma coisa, ou que somos criminosos e estamos a esconder-nos de alguém...sabes...isso faz-me sentir assim...uma puta...tiveste o que querias e vais-te embora sem te dares ao trabalho de me dares um pouco de carinho, e conversar.
     - Estás a ser muito dramática. Sabes que, enquanto é noite, eu estou incondicionalmente contigo, mas preciso de me ir embora depois. Não vejo qual é o problema...
     Ela assentiu, fingindo-se convencida dos argumentos, mas intimamente resolvida a manter o amante consigo pela manhã fora, talvez pelo tempo suficiente para tomarem o pequeno-almoço juntos e passar o dia como um casal comum.
     Na vez seguinte que ele ancorou na sua cama, ela experimentou o expediente da bebida. Uma bela garrafa de Merlot e duas taças na mesa-de-cabeceira, que tomaram com uma sensual cumplicidade antes e depois do acto. Ela julgava que o vinho amaciaria o seu sentido de alerta, mas ele não se esqueceu de colocar o alarme, e lá se escapuliu ele como de costume a altas horas da noite, deixando-a na ilha deserta do seu colchão.
     Ela começou a ficar danada com aquela situação. Ainda tentou às boas, pedindo-lhe mais duas vezes para ficar com ela, sem resultado, e depois, passou à acção. Ele não lhe deixava outra alternativa.
    Ministrou-lhe às ocultas um soporífero e, quando ele acordou, estava algemado à cabeceira da cama. Entrou em pânico, gemendo e suplicando que ela o soltasse.
     - Boa noite, amor! Ou antes - Bom dia, amor! Já é quase dia e aqui estamos nós ainda - ela falava de forma contínua para não o ouvir - além das algemas, trouxe outros acessórios do Sex-Shop - uma chibatazinha muito querida, umas pulseiras de tecido que picam, e que podemos prender à volta do pescoço ou no teu coiso, uma trela de dominadora... Espera! Podemos começar por uma massagem sensual para criar ambiente. Vou buscar aquele meu creme...
     - Espera - gritou ele quando ela cessou a verborreia - tira-me as algemas! Rápido!
     Mas ela já não ouvia nem estava no quarto. Na casa-de-banho, remexeu no armário sobre o lavatório e encontrou o creme que procurava. No vidro da janelinha pequena, já transluzia o dia.
     Quando voltou ao quarto, já não encontrou o amante. Estavam lá as algemas, e um monte de cinzas que conformava, grosso modo, a silhueta do seu corpo deitado.
     Ela exclamou:
     - Ué! Bastava teres-me dito que não gostavas dessas coisas!


Estatística

    Sessenta por cento das pessoas gira a colher de café na chávena em sentido inverso ao dos ponteiros do relógio, trinta por cento  não o faz porque, simplesmente, não adoça o café; os outros dez por cento são pessoas sonhadoras e melancólicas que se imaginam a viver nas antípodas.

participação

     «Decorreu este Domingo, pelas 12.30, o baptismo de João Nubélio Cerezo Etcétera, primeiro filho de Maria Ermelinda Nubélio Cerezo. A cerimónia, oficiada pelo reverendo pe. Miguel Martins, teve a participação fraterna de toda a comunidade cristã, e teve o seu momento alto quando a criança foi levada pela mãe à pia baptismal, altura em que ela foi acompanhada por um séquito de sete mancebos da nossa paróquia, na incerteza de qual deles seria o pai biológico do pequeno João».


O escritor


Começou a ler e a escrever quando as crianças da sua idade ainda brincavam com bonecos de peluche, gatinhavam pelo chão e chuchavam no dedo.
Aos seis anos, já vencia qualquer concurso de soletração criado para crianças com o dobro da sua idade, e escrevia com desenvoltura e rigor.
Aos dez, começou a refinar a sua caligrafia. Ensaiou vários tipos de letra e acabou por dar preferência à caligrafia dos documentos novecentistas portugueses, que aprendeu a imitar na perfeição. As letras elegantes e criadas individualmente como pequenos desenhos, as palavras com uma ligeira inclinação, espaçadas com regularidade e ligadas por vezes por um discreto traço que as unia, os círculos cheios da pontuação, as belas iniciais capituladas na abertura dos capítulos que as assemelhavam a símbolos da heráldica.
Foi aí, quando se decidiu pela caligrafia com que mais se identificava, que começou a escrever a sério, sempre em folhas sem linhas, onde a elegância e a ordem das frases tornava irrelevante a ausência das linhas normativas. Escreveu um número impressionante de textos. Ensaios, poesia, romance, livros de viagens, tratados científicos, livros manuscritos de todo o género.
O corpus da sua obra é já inestimável. Devemos a ele podermos ler em irrepreensível caligrafia novecentista a transcrição meticulosa de tantas e tão boas obras, de Tostoi e Joyce a Camus, Darwin, Eça ou Alejo Carpentier. E a sua obra ainda não está acabada porque continua a escrever, manuscrevendo integralmente as obras que sentiu paixão por ler.

Alzheimer, ou a reminiscência


   Na mitologia grega, depois de morrerem, os mortos cruzavam o rio Letes, onde se esqueciam de tudo.
   Aos que isso acontecera em vida, porque um génio ou um deus lhes apagara a memória, ou porque se haviam alimentado da flor de lótus durante demasiado tempo, os guias do mundo inferior conduziam-nos ao rio Mnemósine, onde todas as recordações regressavam aos seus espíritos vazios antes de atingirem as planícies eternas.

a dúvida

     Na obscuridade do quarto, ele despiu as roupas dela com gestos langorosos, semeando beijos no seu corpo magro e ossudo. Em seguida, tirou-lhe a cabeleira postiça. que ocultava a calvície da sua cabeça, e que ela preferia ao lenço apertado que usara após as primeiras sessões. Ela interrompeu os seus beijos e carícias, levantou-se da cama e acendeu o candeeiro de tecto.
     - Ainda gostas de mim assim? - perguntou, com voz firme.

O tubo da comida

   A "avozinha", como lhe chamavam, era uma pessoa muito querida no quartel. Deixavam-na passar pelos portões com moldura de arame farpado, e cruzava o pátio de areia sob o olhar tranquilo dos guardas armados nas torres de vigia. Quando entrava no bunker, ela e a soldadesca trocavam saudações, sorrisos, elogios. A avozinha abria um cestinho e tirava de lá uma pequena garrafa com licor de medronho que fazia as delícias dos guerreiros, e que acompanhava com um saco de papel com biscoitos que cozera no forno a lenha - biscoitos de amêndoa e gengibre, ou de limão e canela. Seguiam-se uns minutos de efusão e alegria entre eles, que a avozinha contemplava encantada como se admirasse as brincadeiras dos seus netos no parque. Depois, chamavam-na, e ela mergulhava num meandro de corredores escuros, seguindo os passos dum ordenança. As celas que se estendiam pelas duas margens do seu caminho, não cheiravam a amêndoa ou canela, mas a urina e a desespero. E a expressão dos rostos mudos que a miravam das janelinhas diminutas das portas era notoriamente distinta daquela dos guardas agraciados com as guloseimas que lhes trouxera. No fim daquele percurso, abria-se diante deles uma porta blindada, e um oficial de óculos recebia a avozinha, cumprimentava-a com deferência e abria uma segunda porta que dava para uma divisão intensamente iluminada. Na divisão apenas existia um armário metálico branco como os dos hospitais, e uma cama no centro, com um prisioneiro deitado, já anestesiado.
   A avozinha depunha a sua bolsa ao lado da cama e abria-a, tirando os apetrechos de que necessitava. Então, trauteando uma canção em surdina, afagava as têmporas e o peito do homem adormecido, e com uma agulha e linha, cozia-lhe os lábios com uma extremada doçura.

Empreendorismo

   Para sobreviver à crise e ao irrisório poder de compra da maior parte da vizinhança, encerrou a sua loja de produtos gourmet, e abriu no mesmo espaço uma loja de pechinchas, que abrangia outras valências: trinchas das baratas, compinchas em molhos de quatro ou oito (todos com os braços sobre os ombros dos outros), e, para compor o ramalhete, vendia também caguinchas, embrulhados dentro de sacos de plástico para o caso de se borrarem a caminho da casa do cliente.

Estrela apagada

   Nos anos áureos dos filmes policiais americanos de série B (quem não se recorda de Bogart, Cagney, ou Edward G. Robinson?), um dos figurantes e actores secundários mais requisitados pelos produtores de cinema era Mark Nicolleto, um actor de origem italiana que entrou em diferentes películas, nas quais debitava uma ou duas falas, no máximo, e onde morria, sempre. Era esse o seu principal talento, morrer em cena, de uma forma espasmódica e muito convincente, varado pelas balas duma metralhadora de tambor, ou atingido no meio dos olhos pelo chumbo em brasa duma bala solitária. Por vezes, a cena da sua morte obedecia a uma coreografia mais complexa do que a morte do personagem principal do filme. Nicolleto foi filmado a morrer em telhados de casa; dependurado da porta dum carro em fuga, ou sacudido por rajadas de metralhadora no interior da porta giratória da entrada dum Banco - e a sua queda ou agonia subsequente era digna de ser vista e revista pelos apreciadores do género. A morte de Mark Nicolleto era um apontamento precioso para todos os realizadores que trabalharam com ele, um pequeno filme dentro da grande película. Apesar dessa relativa prosperidade como actor, Mark Nicolleto nunca teve uma séria oportunidade para singrar na carreira, e permaneceu um actor modesto e sem ostentação, que comparecia para ser morto novamente sempre que o convidavam. E uma prova disso, é que nunca trocou por nenhuma mansão a sua acanhada moradia na Glendon Avenue de Los Angeles, o talhão número cento e dezoito do cemitério Brothers Westwood Village Memorial Park.

Instantâneo

    Jorge Livramento, tirou as férias para fugir da erosão de todos os dias na cidade enorme. Alugou uma pequena casa na Cotovia, e passou os dias a observar e filmar as aves da Serra da Arrábida. Depois duma manhã consagrada a observar a águia de Bonelli na serra do Risco, voltou à Cotovia pela N379, parando algumas vezes na berma da estrada para observar as aves.
    Num dado passo, deu consigo num troço estreito de estrada com um carro à sua frente que rolava aos ziguezagues. Podia parar um pouco, mas não levara suprimentos e tinha fome, pelo que aguentou a conduzir na peugada do outro. O condutor estava sozinho, mas não parava de falar, a gesticular teatralmente e, por vezes, levantando as mãos do volante para modelar alguma frase que as suas palavras não se sentiam capazes de rematar. Era notório que estava a falar ao telemóvel, de uma forma agitada, as rodas do carro beijavam o cascalho da berma, ele dava um safanão ao volante e o carro ia para meio da estrada, onde um novo safanão o trazia para a berma - e isto de forma continuada. Nem por um instante pensou em buzinar, não na Serra, onde, se os homens fossem sensatos, nem carros deveria haver (muito menos uma abjecta cimenteira, devorando-a e contaminando-a como um cancro no centro do coração).
   Esperou apenas, com uma paciência que não estava no seu zén-ite
   «Vá lá! Acaba com o telefonema! Só vem para a Serra quem gosta de solidão» - murmurou consigo, como se o fulano o pudesse ouvir.
   Não o ouviu, estava a falar ao telefone. E o carro aos ésses, com as falésias a desenrolarem-se no flanco esquerdo do alcatrão..
   «Acho que bebeste, amigo, mas não te levo a mal. Tem dias que a vida não se aguenta se estiver enxuta e crua. Mas encosta, pá! Estica as pernas, fuma um cigarro e manda o mundo à merda. Vá lá, encosta!».
    Não encostou, oscilavam ele e o carro para a direita e para a esquerda como um pêndulo instável, e ele sempre a falar e a gesticular. E então a coisa complicou-se. O carro contorna uma curva à direita, onde aparece do nada um ciclista na outra faixa que o condutor procura evitar em desespero descrevendo um ésse com o carro. Evita-o, mas perde o domínio da viatura, que sai em voo plano sobre a falésia abrupta.
    «Lá em baixo, não tens rede!» - avisou-o ainda, de forma amigável.

puxa dor

   Os puxadores das portas são concebidos, projectados e fabricados para tomarem contacto com a nossa mão; podem ser de maçanetas redondas ou ovais ou munidos duma muleta horizontal que por vezes se adapta à anatomia da mão humana e que faz corresponder as suas saliências e concavidades às concavidades e saliências da palma da nossa mão, da mesma forma que a grossura dessa muleta é fixada de forma a poder ser envolvida pelo arco quebrado das falanges dos dedos humanos. Podíamos estender esta constatação aos fechos das janelas, que compreendem desde fechos sumários que apenas solicitam a pressão do polegar no trinco, ou fechos mais elaborados e ornamentais como os dos cremones, que exigem mais das nossas mãos, porque accionam varetas que prendem ou desprendem a janela da cantaria que a emoldura.
   As portas e janelas são então, concebidas para serem manuseadas por nós - braço, mãos, dedos - e nós manuseamos os fechos, fechaduras e puxadores como um prolongamento e uma efectivação da nossa vontade. Mas todos estes pormenores e características sobre as portas e janelas carecem de importância se vivemos lado a lado com janelas que não queremos abertas e portas que não se deixam abrir.

Hera uma vez...a aflição

    O seu corpo exibia uma cicatriz, sinuosa e interminável como um rifte. Começava na face, junto ao sobrolho da vista direita, estendia-se pela nuca, e descia pelo resto do corpo, ombros, peito, costas novamente, e quadris. Desta cicatriz, ramificavam-se outras, que envolviam os seus membros num movimento em espiral até aos pés e mãos onde terminavam por não terem mais por onde prosseguir. Essa longa cicatriz, que não era uma linha sempre uniforme e contínua, mas pontilhada a espaços, fora causada pelo crescimento envolvente duma hera, que lançou nela as suas guias como se conquistasse um trecho de muro ou o coto duma árvore cortada. Foi aquela hera quase a entrar pela sua vista, que a acordou, e não o beijo do príncipe encantado.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...