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A mostrar mensagens de Setembro, 2012

Animais

«O senhor tigre encostou-se à porta da sua loja, rindo baixinho quando passou a senhora zebra com as suas monótonas vestes listradas. O tigre achou toda a aldeia muito animada nessa manhã, hipopótamos velhos conversavam no tanque do chafariz, as corujas ensinavam álgebra a pombos apatetados, e as éguas relinchavam coscuvilhices às portas do mercado. Foi então que todos deixaram de falar por momentos quando apareceu um homem que descia a rua a cantarolar...». ... «... um homem que descia a rua a cantarolar» ... “Não, não posso escrever isto” - pensou o tigre – “Isto não é nenhuma fábula!”

Die katze

Foi-nos cedido o gato de Schrödinger para cuidarmos dele, porque tinhamos mais experiência com animais do que os cientistas, falando, claro está, das relações habituais que se tem com os animais de companhia e não daquele tipo de experiência ou relação que se desenrola entre um investigador e as suas cobaias. Adiante. O gato de Schrödinger, apesar da sua fama e dos debates e cálculos que já causou entre os físicos, não se comportou até agora de modo distinto dos outros gatos que temos cá em casa (e sim, sabemos o que estão a pensar, nós temos de elaborar um relatório semanal detalhado sobre o seu comportamento, porque os cientistas não passam sem isso, é o seu sonífero habitual sem o qual se converteriam em ínsones zombies). Posso dizer-vos o que também transmiti no primeiro desses relatórios - o dito gato come e dorme como os outros animais, gosta de se roçar nas nossas pernas, mesmo enquanto caminhamos, de pequenos brinquedos com os quais se entretém no chão, e gosta de fazer o gost…

O embarque

Enquanto a longa fila de pessoas parecia ter-se imobilizado de novo, passou em revista todas as condições estipuladas para o embarque. A passagem no bolso do seu casaco, a pequena e leve pasta. Não tinha mais bagagens, e aquela pasta deveria estar muito abaixo do peso máximo permitido para a bagagem pessoal.
   - O senhor, por favor! - disseram-lhe por fim.
   Encarou o segurança. Já tinha uma idadezita jeitosa, e ostentava longas barbas brancas como se fosse um profeta ou um dos guitarristas dos ZZ TOP. Entregou-lhe a pasta e o sobretudo, as chaves, o relógio e a fina aliança, e cruzou o arco electrónico, fazendo soar um alarme sonoro e luminoso.
   - Recue por favor! pediu-lhe o segurança - com a sua pasta está tudo em conformidade, mas o senhor traz algo consigo que o detector não tolera.
   - Não vejo o que possa ser - confessou, despindo o casaco - o isqueiro não é de certeza, porque atirei-o pela janela do carro no dia em que deixei de fumar. Talvez seja algum clipe...possuo …

versos alejandrinos

A obscuridade das águas
Ouço ressoar a água que cai no meu sonho. As palavras caem como a água eu caio. Desenho nos meus olhos a forma dos meus olhos, nado nas minhas águas, digo-me os meus silêncios. Toda a noite espero que a minha linguagem logre configurar-me.  E penso no vento que vem até mim, permanece em mim. Toda a noite caminhei debaixo da chuva desconhecida. A mim deram-me um silêncio pleno de formas e visões (dizes). E corres desolada como o único pássaro ao vento.
Alejandra Pizarnik (1936-1972)
Poesia completa AQUI

War Games

A mulher de camisa de dormir e longos cabelos castanhos escovados - muito bem escovados, diga-se - emitiu um pequeno guincho quando viu o homem mascarado entrar pela janela da cozinha.
   - Quem é você?
   - Um ladrão, como pode ver...
   - Saia, senão ligo para a polícia!
   - Não vale a pena, cortei os cabos todos, do telefone, da net, tudo. E não pense em gritar porque venho armado!
   - Não quero saber, vou gritar à mesma - anunciou.
   Ensaiou um grito que mal saiu da garganta porque, em dois saltos, o homem mascarado estava junto a ela, agarrando-a e fechando-lhe a boca com a  mão, e continuando a agarrá-la com força, deitou-a em cima da mesa da cozinha, e amordaçou-a com um pano que trazia na algibeira, e logo a obrigou a rodar o corpo, e atou-lhe as mãos atrás das costas enquanto ela se debatia energicamente. Curvando-se ao lado da mesa, conseguiu erguer o corpo dobrado por cima do seu ombro; e, segurando-a pelas pernas, carregou-a até ao sofá da sala contígua, onde a deito…

odisseia

- Qual é o caminho para Ítaca? - perguntaram as crianças ao velho aedo sentado sob a oliveira no largo da aldeia.
   Ele levantou a cabeça para as sombras que dançavam no alto.
   - O caminho para Ítaca está em todo o lado, e tudo nos leva até ela. Os gansos que migram no céu, o zunir duma mosca, o doce murmúrio das fontes nestas horas de calor, o calor áspero da areia na palma das nossas mãos. Ulisses não compreendeu isso, não compreendeu que Ítaca estava dentro dele, e que poderia encontrá-la se se sentasse na sombra de um árvore como esta. Quando ele parasse de procurar, o universo e os deuses iriam afeiçoar-se a ele, e os que ele amava viriam ao seu encontro, o seu velho pai, o filho leal, a industriosa Penélope.
   - Ulisses era estúpido? - perguntou uma delas, muito admirada.
   - Não, Ulisses, simplesmente, não era cego como eu, e os horizontes longínquos chamavam-no, o dorso das montanhas, as planícies ensolaradas e os abismos do mar- moradas de seres monstruosos e mágicos,…

aspirações

- O que é que queres ser quando fores grande?   A criança encolheu os ombros. Podia responder de forma afirmativa e categórica com um dos sonhos que o animavam:
astronauta pintor navegador solitário caçador de miragens Ícaro de foguetes coleccionador de sonhos construtor de balouços
   Mas não. Respondeu, indelicadamente, com outra interrogação:   - O que é que me deixam ser quando for grande?

A casa

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- Como é que era a casa – perguntou a mulher-polícia, de bloco e caneta na mão. A senhora de vestido puído e com nódoas enrolava nervosamente entre os dedos uma ponta do seu avental. - A minha casa tinha as paredes de fora pintadas de laranja, portas de madeira escura e aros com a cantaria em mármore de Cantanhede. Sei que o mármore era de lá, porque fui lá com o meu falecido esposo apreçar e comprar, num tempo em que ainda se podia confiar nas pessoas e se celebravam contratos com um simples aperto de mão. - E pode dizer-me mais coisas? - No relvado da frente, tinha canteiros com glicínias e sempre-noivas, e uma velha oliveira que um raio fendeu ao meio durante um temporal, e que nos dias de vento rangia como se fosse soçobrar de vez à queda daquele raio. Mas aguentou-se sempre, como nós, as pessoas, que somos feridas e cortadas de mil e uma maneiras e nos mantemos inteiras apesar de ninguém acreditar que isso é possível. - Muito bem, acho que recolhemos dados suficientes. Se virmos por a…

Enfétichado

O toque de aviso sobre o aro da porta fez levantar o ancião da cadeira por trás do balcão. Espreguiçou-se e mirou a sua loja. Uma jovem ruiva e de pele muito branca estava encostada ao mostruário de cintos.
    -Temos a maior gama que pode encontrar em artigos de couro e cabedal. Cintos, carteiras, bolsas, tudo - publicitou com voz arrastada, e as suas palavras desfaleciam no ar, dessemantizadas, tantas tinham sido as vezes que as repetira até aí.
    - Eu gosto de tudo! - afirmou a mulher com uma voz sensual.
    E, de facto, parecia gostar. Acariciava os artigos, cheirava-os, afundava a cara nas carteiras de cabedal, ou encostava os artigos à face, ao de leve, como se fossem pétalas escuras.
    O lojista ajustou as calças de alças sobre a barriga proeminente e deu a volta ao balcão. Agora ficara interessado. Estudou cobiçosamente a cliente, as nádegas firmes sob a ganga apertada, a t'shirt curta que lhe deixava ao ventre a descoberto, a pele sardenta.
    - O cabedal transt…

Enfétichado 2

- Não te vás embora durante a noite, isso faz-me sentir desconfortável - queixou-se ela, com a cabeça apoiada no seu peito, com o emaranhado dos lençóis e almofadas a envolvê-los como as paredes dum ninho.
     - Preciso sempre ir antes de amanhecer...tenho as minhas razões.
     Ela exalou um suspiro de amuo.
     - É muito triste acordar sozinha na cama de manhã. Parece que nos envergonhamos dalguma coisa, ou que somos criminosos e estamos a esconder-nos de alguém...sabes...isso faz-me sentir assim...uma puta...tiveste o que querias e vais-te embora sem te dares ao trabalho de me dares um pouco de carinho, e conversar.
     - Estás a ser muito dramática. Sabes que, enquanto é noite, eu estou incondicionalmente contigo, mas preciso de me ir embora depois. Não vejo qual é o problema...
     Ela assentiu, fingindo-se convencida dos argumentos, mas intimamente resolvida a manter o amante consigo pela manhã fora, talvez pelo tempo suficiente para tomarem o pequeno-almoço juntos e pa…

Estatística

Sessenta por cento das pessoas gira a colher de café na chávena em sentido inverso ao dos ponteiros do relógio, trinta por cento  não o faz porque, simplesmente, não adoça o café; os outros dez por cento são pessoas sonhadoras e melancólicas que se imaginam a viver nas antípodas.

participação

«Decorreu este Domingo, pelas 12.30, o baptismo de João Nubélio Cerezo Etcétera, primeiro filho de Maria Ermelinda Nubélio Cerezo. A cerimónia, oficiada pelo reverendo pe. Miguel Martins, teve a participação fraterna de toda a comunidade cristã, e teve o seu momento alto quando a criança foi levada pela mãe à pia baptismal, altura em que ela foi acompanhada por um séquito de sete mancebos da nossa paróquia, na incerteza de qual deles seria o pai biológico do pequeno João».


O escritor

Começou a ler e a escrever quando as crianças da sua idade ainda brincavam com bonecos de peluche, gatinhavam pelo chão e chuchavam no dedo. Aos seis anos, já vencia qualquer concurso de soletração criado para crianças com o dobro da sua idade, e escrevia com desenvoltura e rigor. Aos dez, começou a refinar a sua caligrafia. Ensaiou vários tipos de letra e acabou por dar preferência à caligrafia dos documentos novecentistas portugueses, que aprendeu a imitar na perfeição. As letras elegantes e criadas individualmente como pequenos desenhos, as palavras com uma ligeira inclinação, espaçadas com regularidade e ligadas por vezes por um discreto traço que as unia, os círculos cheios da pontuação, as belas iniciais capituladas na abertura dos capítulos que as assemelhavam a símbolos da heráldica. Foi aí, quando se decidiu pela caligrafia com que mais se identificava, que começou a escrever a sério, sempre em folhas sem linhas, onde a elegância e a ordem das frases tornava irrelevante a …

Alzheimer, ou a reminiscência

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Na mitologia grega, depois de morrerem, os mortos cruzavam o rio Letes, onde se esqueciam de tudo.
   Aos que isso acontecera em vida, porque um génio ou um deus lhes apagara a memória, ou porque se haviam alimentado da flor de lótus durante demasiado tempo, os guias do mundo inferior conduziam-nos ao rio Mnemósine, onde todas as recordações regressavam aos seus espíritos vazios antes de atingirem as planícies eternas.

a dúvida

Na obscuridade do quarto, ele despiu as roupas dela com gestos langorosos, semeando beijos no seu corpo magro e ossudo. Em seguida, tirou-lhe a cabeleira postiça. que ocultava a calvície da sua cabeça, e que ela preferia ao lenço apertado que usara após as primeiras sessões. Ela interrompeu os seus beijos e carícias, levantou-se da cama e acendeu o candeeiro de tecto.
     - Ainda gostas de mim assim? - perguntou, com voz firme.

O tubo da comida

A "avozinha", como lhe chamavam, era uma pessoa muito querida no quartel. Deixavam-na passar pelos portões com moldura de arame farpado, e cruzava o pátio de areia sob o olhar tranquilo dos guardas armados nas torres de vigia. Quando entrava no bunker, ela e a soldadesca trocavam saudações, sorrisos, elogios. A avozinha abria um cestinho e tirava de lá uma pequena garrafa com licor de medronho que fazia as delícias dos guerreiros, e que acompanhava com um saco de papel com biscoitos que cozera no forno a lenha - biscoitos de amêndoa e gengibre, ou de limão e canela. Seguiam-se uns minutos de efusão e alegria entre eles, que a avozinha contemplava encantada como se admirasse as brincadeiras dos seus netos no parque. Depois, chamavam-na, e ela mergulhava num meandro de corredores escuros, seguindo os passos dum ordenança. As celas que se estendiam pelas duas margens do seu caminho, não cheiravam a amêndoa ou canela, mas a urina e a desespero. E a expressão dos rostos mudos …

Empreendorismo

Para sobreviver à crise e ao irrisório poder de compra da maior parte da vizinhança, encerrou a sua loja de produtos gourmet, e abriu no mesmo espaço uma loja de pechinchas, que abrangia outras valências: trinchas das baratas, compinchas em molhos de quatro ou oito (todos com os braços sobre os ombros dos outros), e, para compor o ramalhete, vendia também caguinchas, embrulhados dentro de sacos de plástico para o caso de se borrarem a caminho da casa do cliente.

Estrela apagada

Nos anos áureos dos filmes policiais americanos de série B (quem não se recorda de Bogart, Cagney, ou Edward G. Robinson?), um dos figurantes e actores secundários mais requisitados pelos produtores de cinema era Mark Nicolleto, um actor de origem italiana que entrou em diferentes películas, nas quais debitava uma ou duas falas, no máximo, e onde morria, sempre. Era esse o seu principal talento, morrer em cena, de uma forma espasmódica e muito convincente, varado pelas balas duma metralhadora de tambor, ou atingido no meio dos olhos pelo chumbo em brasa duma bala solitária. Por vezes, a cena da sua morte obedecia a uma coreografia mais complexa do que a morte do personagem principal do filme. Nicolleto foi filmado a morrer em telhados de casa; dependurado da porta dum carro em fuga, ou sacudido por rajadas de metralhadora no interior da porta giratória da entrada dum Banco - e a sua queda ou agonia subsequente era digna de ser vista e revista pelos apreciadores do género. A morte d…

Instantâneo

Jorge Livramento, tirou as férias para fugir da erosão de todos os dias na cidade enorme. Alugou uma pequena casa na Cotovia, e passou os dias a observar e filmar as aves da Serra da Arrábida. Depois duma manhã consagrada a observar a águia de Bonelli na serra do Risco, voltou à Cotovia pela N379, parando algumas vezes na berma da estrada para observar as aves.
    Num dado passo, deu consigo num troço estreito de estrada com um carro à sua frente que rolava aos ziguezagues. Podia parar um pouco, mas não levara suprimentos e tinha fome, pelo que aguentou a conduzir na peugada do outro. O condutor estava sozinho, mas não parava de falar, a gesticular teatralmente e, por vezes, levantando as mãos do volante para modelar alguma frase que as suas palavras não se sentiam capazes de rematar. Era notório que estava a falar ao telemóvel, de uma forma agitada, as rodas do carro beijavam o cascalho da berma, ele dava um safanão ao volante e o carro ia para meio da estrada, onde um novo safa…

puxa dor

Os puxadores das portas são concebidos, projectados e fabricados para tomarem contacto com a nossa mão; podem ser de maçanetas redondas ou ovais ou munidos duma muleta horizontal que por vezes se adapta à anatomia da mão humana e que faz corresponder as suas saliências e concavidades às concavidades e saliências da palma da nossa mão, da mesma forma que a grossura dessa muleta é fixada de forma a poder ser envolvida pelo arco quebrado das falanges dos dedos humanos. Podíamos estender esta constatação aos fechos das janelas, que compreendem desde fechos sumários que apenas solicitam a pressão do polegar no trinco, ou fechos mais elaborados e ornamentais como os dos cremones, que exigem mais das nossas mãos, porque accionam varetas que prendem ou desprendem a janela da cantaria que a emoldura.
   As portas e janelas são então, concebidas para serem manuseadas por nós - braço, mãos, dedos - e nós manuseamos os fechos, fechaduras e puxadores como um prolongamento e uma efectivação da n…

Hera uma vez...a aflição

O seu corpo exibia uma cicatriz, sinuosa e interminável como um rifte. Começava na face, junto ao sobrolho da vista direita, estendia-se pela nuca, e descia pelo resto do corpo, ombros, peito, costas novamente, e quadris. Desta cicatriz, ramificavam-se outras, que envolviam os seus membros num movimento em espiral até aos pés e mãos onde terminavam por não terem mais por onde prosseguir. Essa longa cicatriz, que não era uma linha sempre uniforme e contínua, mas pontilhada a espaços, fora causada pelo crescimento envolvente duma hera, que lançou nela as suas guias como se conquistasse um trecho de muro ou o coto duma árvore cortada. Foi aquela hera quase a entrar pela sua vista, que a acordou, e não o beijo do príncipe encantado.