Um estranho

     Há um estranho a viver na minha casa, um estranho com manias e hábitos estranhos. Aparece quase sempre a meio da noite, arrasta os pés pela cozinha, abrindo as portas dos armários e remexendo em talheres, ouço-o depois no salão (e eu sempre deitada com a cabeça debaixo das mantas, a olhar para cima, para o rectângulo de luz da porta do quarto que se projecta na parede da cabeceira). No salão, em meio ao silêncio da noite profunda, consigo ouvi-lo perfeitamente. Consigo mesmo ouvir os seus pés a farfalhar no tapete, e ele de novo a remexer em gavetas, e também na minha carteira que larguei em cima do sofá - sei-o pelo tilintar das moedas - e de novo à volta das gavetas, tira-as para o chão para as vasculhar melhor, e remexe minuciosamente o seu conteúdo como se escolhesse arroz. Anda nisto uma ou duas horas, e eu no quarto, vigilante e sem sono algum. Ele nunca desiste e quando pára de mexer nas coisas, é porque já encontrou alguma coisa que lhe interessasse. Ouço-o então sentar-se ao piano, o cansaço do seu peso morto no banco de cabedal do piano. A tampa do teclado produz um som cavo ao ser levantada. Não o consigo ouvir mas sinto que ele acaricia as teclas ao de leve como se tivesse diante de si a nívea pele duma mulher intocável. Sofre por não poder tocar o piano, sofre por não poder ou não querer cruzar a porta do quarto e sentir no seu o meu corpo nu sob as mantas. E eu sofro com ele, durante os minutos ou as horas que se arrastam até ao nascer do Sol. Por fim, fecha a tampa do teclado e sai de casa da mesma forma como entrou, como um estranho ou um ladrão. Mas eu continuo sem conseguir dormir. Tenho primeiro de ir à sala descobrir o que é que ele levou de casa e arrumar as gavetas e, no fim disso, abrir um pouco as janelas para dissipar o cheiro do álcool e do suor e verificar se ele não deixou pela casa alguma seringa esquecida. Eu sei que me casei com ele, mas fico cansada das suas manias e hábitos estranhos.


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