um acidente

     O casal muito jovem e muito enamorado passeava pelas ruas a ver as montras muito jovens e o seu reflexo muito enamorado espelhado nas vidraças, quando foi colhido por um camião carregado, carregado e muito, carregado de bricabraques e fidelidades dúbias, e uma gravidez precoce, empregos de miséria para pagar o aluguer do quarto e o pediatra do puto, a frustração de não se continuar a estudar e de terem de ser serventes de pedreiro e empregada de hiper, carregados de novos projectos arrancados à pedreira da vida com golpes das mãos nuas e ensanguentadas para logo falirem em seguida graças a uma criança mais e uma casa maior, à chulice dos sogros e amantes, a hipotecas e empréstimos. Aquele atropelamento meteu tudo, acusações e brigas, chapadas e prantos, uma ordem de restrição, um demorado processo de divórcio, e as crianças vigiadas de perto pela assistente social. Os dois saíram bastante maltratados do acidente, crivados de feridas e dívidas que não conseguiam enfrentar com o seu desânimo fatalista de pessoas de meia-idade. Chamada ao local do atropelamento para tomar conta da ocorrência, os polícias interrogavam-se: "Onde é que tinha ficado o amor?".

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