INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

trabalhos

     - Sara?! Lembras-te de mim, Sara?!
     Sara lembrava-se. Como não? Daniel e ela haviam namorado durante cinco anos até Sara acabar com o namoro. Agora, Daniel estava plantado no portão do seu jardim, visivelmente nervoso. Sara ainda sentia carinho por ele, na verdade, decidira sabotar a relação com ele porque Daniel tinha algo de sinistro, de perceptívelmente maligno, que a assustava, e nisso ele saía à mãe, que todos reputavam de invejosa e bruxa, capaz de lançar maus-olhados a quem não caísse nas suas graças.
     - O que é pretendes daqui, Daniel? Ficou cá alguma das tuas coisas?
     - Não, claro que não, levei tudo o que aqui tinha de meu.Vinha só pedir-te uma peça de roupa tua, para guardar como recordação do nosso namoro. Pode ser uma coisa inocente, uma t'shirt ou uma meia.
     Sara ficou silenciosa por um momento. Todas as palavras dele soavam a falso como um falsete de cantor sem talento.
     - Está bem, vou buscar! - disse, e desapareceu no interior da casa para regressar com uma sweater no braço, que lhe entregou.
     Uns dias depois tocaram de novo à campainha, e Sara foi espreitar. Era de novo Daniel, parecia tão nervoso como antes. Sara arrastou-se até ao portão, andava muito adoentada por aqueles dias, uma fraqueza nos membros, suores frios e perturbações digestivas. Na véspera, tivera um febrão intenso que desapareceu tão repentinamente como aparecera.
     - Sara! Como tens passado?
     - Mal, muito mal, Daniel, deve ser dos miasmas quentes de Agosto. O que queres desta vez?
     Daniel não conseguiu disfarçar um fugaz sorriso de satisfação.
     - Vinha pedir-te mais uma recordação tua, uma coisa mais pessoal, como uma daquelas mechas de cabelo que a tua mãe guardava numa caixa de madeira.
     - Vou buscar - declarou secamente, e foi, com muita lentidão, ao interior da casa para lhe trazer uma mecha de cabelos castanhos atada com uma fitinha rosa.
     Mal recebeu a recordação, Daniel saiu dali a correr, impaciente por fazer alguma coisa.
     Na vez seguinte que Daniel ali voltou, tocou à campainha, mas Sara já não foi ter com ele ao portão. Foi o pai dela quem o foi abrir e conduziu Daniel até à sala, onde Sara estava deitada no sofá, com as pernas tapadas por um cobertor, e tendo ao seu lado, numa pequena mesinha, um copo de água e diversas embalagens intactas de medicamentos.
     Sara fez um gesto ao pai para os deixar a sós. Mal o sentiu abandonar a sala, Daniel pediu sem demoras.
     - Precisava apenas de mais uma recordação tua, umazinha só!
     Sara fez um gesto largo para as suas roupas pousadas no braço do sofá.
     - Escolhe uma! - arfou com dificuldade.
     Daniel optou por uma camisola dela, que enrolou e segurou entre as suas mãos, pressionando-a com força.
     - Sara...posso perguntar-te uma coisa?
     - Claro, Daniel, tens a minha vida nas tuas mãos...
     - Porque é que me deste todas estas...recordações? A sweater, a mecha de cabelos, esta camisola...Ainda não consegui perceber!
     - Ainda que o desejasse muito, eu nunca reuni coragem para me matar, Daniel...


Geena

                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma ...