The lost kingdoms

   - Pai, podes-me ajudar a procurar as minhas fichas de matemática do ano passado?
   O meu pai olhou-me, um tanto atarantado, e fechou a torneira, interrompendo a zelosa lavagem do velho Ford Cortina.
   - Podias começar a procurar sozinho, que eu depois já te ajudo. Tenho de aproveitar o Domingo para lavar o Audi, porque durante a semana ando sempre a caminho do Centro de Emprego.
   O Audi era o carro que nós tínhamos antes. Concordei com ele e entrei em casa. O meu irmão mais novo estava sentado num sofá com um pedaço oval de madeira na mão, e com um ar mortalmente aborrecido.
   - O que é que estás a a fazer? - tive de perguntar.
   - A mãe deu-me esta consola e disse-me para jogar um pouco de Playstation enquanto o almoço não está pronto - e depois, como se se lembrasse de repente, levantou a voz e perguntou - Mãe, o que é hoje o almoço? Não é sopa outra vez, pois não?
   - Não - gritou a nossa mãe da cozinha - é frango à lagareiro, mas para entrada estou a preparar tomate recheado com molho de sapateira, e palitos de peito de peru fritos com pedaços de amêndoa incrustados.
   Era sopa. Nem perdi tempo a confirmar na cozinha. Fui até ao quarto e comecei a procurar as fichas, precisava delas para fazer uma revisões antes que as férias grandes acabassem. O meu irmão rondava-me, curioso.
   - O que é que procuras?
   - As fichas de matemática, sabes, é um caderno de formato A4 de cor verde claro.
   - Eu ajudo-te! - ofereceu-se, e começou a procurar também.
   A mãe apareceu à porta.
   - Daqui a quinze minutos, o almoço está pronto, por isso é melhor lavarem as mãos! Estão à procura de quê?
   - Do meu cartão do clube de ténis! - respondi.
   - Ah, muito bem! - aprovou, e voltou à cozinha.
   O meu irmão sorria, mas o seu sorriso logo esmoreceu nos lábios.
   - Achas que voltaremos a ter televisão e computador...um dia?
   - Não sei...talvez as coisas melhorem. A mãe, pelo menos, espera sempre pelo melhor.
   - Não percebo qual é o problema deles, estão sempre a inventar coisas, parece que vivemos num teatro.
   - É apenas um pouco de fantasia patológica. Na cabeça deles, nós seremos sempre crianças que não aguentam a verdade. Pode ser apenas uma questão de tempo, mas se isto continuar por muito tempo, tenho de marcar uma consulta de Psicologia para os dois, porque senão, damos todos em doidos.





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