o caracol

   A esplanada no Verão. É deliciosa e horrível a esplanada no Verão. A praia do outro lado da rua e toda a gente na rua, na esplanada, à nossa volta, quase em cima de nós. Duas senhoras conversam na mesa ao lado, brasileiras, balzaquianas em fim de concessão, rechonchudas, devem ter acabado de sair da praia porque se nota o contorno do biquini molhado sobre os vestidos leves. Bebem chope. Falam de dietas. Ah,eu confio no dendém, quando se tem dendém não se engorda, eu não dispenso o dendém, cozinho tudo com ele. Desinteresso-me da conversa, o dendém parece tão sugestivo como o dengue, ou uma erva pisada na terra-de-ninguém. Na mesa do outro lado, desfiam-se relações. O que é feito do Timóteo, do Saraiva, da Ercília? O mais velho parece ser emigrante, esteve fora, e actualiza os contactos afectivos. O seu interlocutor é jovem, talvez filho ou sobrinho, mas não sabe de nada nem de ninguém. Qual Timóteo? O Timóteo Bandeira, aquele que tinha a mercearia na aldeia, aonde chegaste a ir com os teus pais...Não sei, não me diz nada, sabe que eu não páro muito por lá... E assim por diante. O Saraiva, nada, a Ercília, quem? Bebo o resto da cerveja, e vou ficando, e espero. Espero durante horas. Os banhistas desarvoram, vão tomar banho, mudar de roupa. A tarde cai e regressam algum deles, atraídos, como limalhas para um íman,para os bares mais animados, onde há música ao vivo e noite de karaoke. No bar da esplanada onde estou, não há nada disso. Há cerveja e há gelado, e tosta mista ou pampilho para iludir a fome ou ensopar a bebida. Cai a noite e eu ainda ali. Peço mais uma loirinha, a segunda do dia. Bebo devagar, para fazer render, mas acabo forçosamente por esvaziar o copo fino. O empregado deixa-me estar, concede-me o recato porque o movimento também não aperta. O tempo escorre devagar, mas esvazia-se à mesma como a cerveja no copo. Chega-se à meia-noite, arrumam-se as cadeiras sobre as mesas da esplanada, o mesmo empregado pede-me licença, e eu levanto-me e fico de pé a um canto da esplanada. Vejo-os passar as correntes pelo meio do esqueleto das mesas e cadeiras e fechar os cadeados para que não as roubem. Sento-me um pouco no corrimão de madeira da esplanada, mas saio dali quando começam a varrer com energia para desincrustar a areia das juntas do chão de madeira. Apagam-se as luzes do bar. Atravesso a rua até à marginal. Admiro as águas escuras da lagoa e, recortado pelo luar, o perfil de esfinge mutilada do promontório arenoso do Gronho. Também se consegue ver as estrelas sobre tudo isso, sobre mim próprio. Escolho uma, mais brilhante, que talvez seja um planeta, mas escolho-a à mesma, elejo-a como a minha boa estrela, e pergunto-lhe discretamente: "Para onde é que eu vou agora?".



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