Luísa

    Luísa acordou sobressaltada. Havia dormitado no banco sob a latada. Levantou-se dum salto e abriu o ferrolho do pequeno portão dos fundos do quintal para espreitar a rua. Um amolador havia-se instalado do outro lado da rua e cruzou o seu olhar com o dela, um olhar sujo e sardónico, logo cerceado pela passagem de duas freiras que subiam a rua na direcção do Mosteiro. Luísa voltou a aferrolhar o pequeno portão, e refugiou-se no interior da casa. Verteu alguma da água dum cântaro para uma vasilha, e refrescou os braços e a cara, enxugando-se com um pano de linho. Uma libélula rubra penetrou pela janela aberta, e Luísa ficou a contemplá-la passivamente, e só saiu do seu torpor quando ela pousou na mesa ao lado da sua menina. Enxotou-a com a toalha, repetidamente, e só descansou quando a viu voejar de regresso ao quintal. Correu as cortinas e examinou a sua menina, ainda que de alguma forma soubesse que não precisava de o fazer. O seu esqueleto estava deitado no berço baixo, com a caveira delgada disposta de lado sobre a almofada vermelha com borlas douradas. Acariciou-lhe o crânio, a curva da omoplata, os ossinhos finos das mãos, dessas mãos que ainda recordava macias e quentes, encostadas à sua pele enquanto lhe dava de mamar. Ajoelhou-se ao lado do berço, e admirou os tesouros que guardava no gavetão de pinho pousado no chão ao lado do berço. Retirou dela, uma a uma, as roupas daquele enxoval para as admirar com uma ternura quase fervorosa. Túnicas de diferentes cores e tamanhos, algumas simples e austeras, outras com pregas e decoradas com as iniciais monogramadas dum nome, quase sempre sobre a manga. Sob aquelas roupas todas, estavam os bens da sua filha que mais admirava - as pulseirinhas de prata e medalhinhas de santos que haviam acompanhado aquelas roupas do enxoval, algumas tinham vindo embrulhadas em lenços de seda onde um escudo bordado identificava a quem havia pertencido a pequena jóia, com o fito de se deixar um sinal ou uma pista que, num incerto amanhã, pudesse guiar aquele ser de regresso aos pais contritos.
    Luísa de Jesus voltou a arrumar as túnicas no gavetão, compôs as roupas que trazia vestidas e atou o lenço sobre os cabelos, preparando-se para sair; mas antes, compôs sobre o aparador a molheira em que costumava dar o leite aos bebés e o pequeno frasco arrolhado, de vidro castanho, que encerrava o pó venenoso. Satisfeita por verificar os detalhes, saiu para a rua ao mesmo tempo que os sinos do Mosteiro faziam soar o Angelus pela segunda vez naquele dia. A Madre Superiora esperava-a para lhe confiar uma das crianças enjeitadas que haviam deixado à guarda do convento, e a graça e o dote de seiscentos réis que lhe seria entregue para a criar e educar com todo o amor de que só uma mãe é capaz.


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