Babilónia

   Dois ou três pregadores, padres e pastores evangélicos, uma trintena de férreos guardiões da moral e dos bons costumes, e uma multidão de professores reaccionários e moralistas de todo o género, decidiram entre si empurrar Lisboa para o Tejo. Dividiram-se em grupos, e ao toque duma trombeta apocalíptica, concertaram esforços e empurraram para a água a grande cidade com os seus habitantes, edifícios, ruas, estátuas e caixotes de lixo. O esforço hercúleo valeu a pena, porque quando a cidade conseguiu sair de novo do estuário, vinha mais lavada e resplandecente, e as pessoas, encharcadas dos pés à cabeça, pareciam uma aparição homérica de nereidas e tritões de sangue divino.
   Pior ficou o Tejo e o mar que o abraça, tingidos de negro como uma maré de petróleo derramado.
   Pior ficaram esses moralistas e religiosos que haviam empurrado Lisboa para o mar, surpreendidos que ficaram por a ver regressar, interrompendo as orgias desenfreadas que levavam a cabo em descampados com os salvados da cidade desalojada, com as prostitutas e prostitutos dos seus jardins e ruas pretéritas, com as bebidas sem dono e os narcóticos que ninguém reclamara.
   (Não adiantou de muito dispararem contra aqueles que regressavam).

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