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A mostrar mensagens de Agosto, 2012

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ESTRATIGRAFIA

1 - Escavaram o solo da cidade para construir um túnel viário e descobriram ruínas antigas, em camadas - Neolítico, romanos, Idade Média.
 2 - Ergueram um ponte sobre a avenida principal da cidade, e tropeçaram com as nossas próprias ruínas, em camadas, contempladas do futuro.
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CLONES

1 - Um novel mito urbano narra que os Aliens andam pelo meio da cidade a recolher as pastilhas deitadas fora, para experiências com ADN.
2 - Diz-se que os Aliens infiltraram nas cidades simulacros nossos. São reconhecíveis, porque estão sempre a cuspir as pastilhas mastigadas.

The lost kingdoms

- Pai, podes-me ajudar a procurar as minhas fichas de matemática do ano passado?
   O meu pai olhou-me, um tanto atarantado, e fechou a torneira, interrompendo a zelosa lavagem do velho Ford Cortina.
   - Podias começar a procurar sozinho, que eu depois já te ajudo. Tenho de aproveitar o Domingo para lavar o Audi, porque durante a semana ando sempre a caminho do Centro de Emprego.
   O Audi era o carro que nós tínhamos antes. Concordei com ele e entrei em casa. O meu irmão mais novo estava sentado num sofá com um pedaço oval de madeira na mão, e com um ar mortalmente aborrecido.
   - O que é que estás a a fazer? - tive de perguntar.
   - A mãe deu-me esta consola e disse-me para jogar um pouco de Playstation enquanto o almoço não está pronto - e depois, como se se lembrasse de repente, levantou a voz e perguntou - Mãe, o que é hoje o almoço? Não é sopa outra vez, pois não?
   - Não - gritou a nossa mãe da cozinha - é frango à lagareiro, mas para entrada estou a preparar tomate rech…

Um estranho

Há um estranho a viver na minha casa, um estranho com manias e hábitos estranhos. Aparece quase sempre a meio da noite, arrasta os pés pela cozinha, abrindo as portas dos armários e remexendo em talheres, ouço-o depois no salão (e eu sempre deitada com a cabeça debaixo das mantas, a olhar para cima, para o rectângulo de luz da porta do quarto que se projecta na parede da cabeceira). No salão, em meio ao silêncio da noite profunda, consigo ouvi-lo perfeitamente. Consigo mesmo ouvir os seus pés a farfalhar no tapete, e ele de novo a remexer em gavetas, e também na minha carteira que larguei em cima do sofá - sei-o pelo tilintar das moedas - e de novo à volta das gavetas, tira-as para o chão para as vasculhar melhor, e remexe minuciosamente o seu conteúdo como se escolhesse arroz. Anda nisto uma ou duas horas, e eu no quarto, vigilante e sem sono algum. Ele nunca desiste e quando pára de mexer nas coisas, é porque já encontrou alguma coisa que lhe interessasse. Ouço-o então sentar-se ao …

Demasiada informação

Noite de amadores num bar de cidade de província. Após uma deprimente imitação de Zeca Afonso, sobe ao palco um jovem imberbe que o apresentador anuncia como uma vigorosa promessa do Stand-up Comedy.
   Aplausos. E todos aguardam no escuro, a amolar as facas debaixo das mesas. O jovem no palco está nervoso, transpira por todo o lado, espia a sua cábula num papelinho, e apalpa o terreno.
   - Já alguém ouviu falar de Enkidu?
   Ninguém ouvira, ou ninguém se acusava.
   - Enkidu era na lenda uma criatura da floresta. Vivia com os animais, pascia com eles e bebia leite das tetas da gazela.
   Primeira gargalhada, e o jovem anima-se.
   «Enkidu nem parecia um homem, tinha pêlos compridos por todo o corpo como o Chewbacca da Guerra das Estrelas, ou como a minha noiva antes de ir à depilação.
   Nova gargalhada, e ele fica mais ambicioso. Acertar na mulher dá sempre resultado, mas a sua ambição cega-o.
  «Enkidu era amigo dos animais, e destruía as armadilhas dos caçadores, e alertava os…

Faça Fácil: Como Transformar um Romance num Conto

Você acabou de escrever um romance e agora, relendo-o, apercebe-se de que ele está mal escrito ou de que não funciona como romance, e que o mais acertado será convertê-lo num conto. Como não sabe como fazê-lo, pesquisou na Web, e encontrou esta nossa página, que possui todas as respostas às suas dúvidas.

   Um romance é um gigante, e tem todos os atributos de um gigante, dimensões, força, poder, dimensões gigantescas dos órgãos e membros. Um conto, por sua vez, tem tudo isso mas de uma forma mais condensada mas não menos forte e poderosa, como o vírus que vence a criatura em que está alojado, ou a pedra mais pequena na funda de David, que é aquela que irá derrubar Golias.Tendo isto em mente, fica mais fácil converter um romance num conto. Comece por abreviar e cortar. Condense cada capítulo num parágrafo de forma a que este mantenha a sua virtude narrativa, mas, para o fazer, tem de cortar, seccionar, amputar. Esqueça a multidão de personagens porque o que você quer não é uma reuni…

Falta de autonomia

As coisas aconteceram muito rapidamente e de forma muito parecida. Talvez ela tivesse, sem que o soubesse, alguma marca deixada pelo Anjo da Morte, porque era nisso que todos pareciam pensar quando a viam. O primeiro a não resistir à tentação foi o professor reformado que lhe dava explicações de matemática. Matou-a brutalmente com uma pancada na cabeça com uma barra de ferro enquanto ela esgrimia com os algoritmos. O segundo atropelou-a com o seu jipe TT depois de a seguir durante horas enquanto ela fazia a sua longa caminhada vespertina. Em seguida, e sem me demorar nos autores das atrocidades, posso adiantar que ela foi esfaqueada, estrangulada, envenenada com doses maciças de Fast Food, alvejada à queima-roupa com uma carabina, e afogada na banheira da sua casa. O que importa aqui realçar, é que ela era a principal responsável pelo que lhe estava a suceder, por não procurar ajuda profissional de psicólogos, recorrer a grupos de apoio ou pedir ajuda aos amigos para superar o seu…

A Desgraça desce a rua

A Desgraça desce a rua, é estranha e burlesca e por isso inspira o sorrisinho, o riso destelhado a céu aberto, a gargalhada liberta como uma ave a alçar voo. Tem feridas a Desgraça, chagas e sangue, tumores a levantar-lhe a pele dos membros e da cara, fetos mortos presos ao longo manto que ela arrasta pelo chão. Riem-se os que a vêem passar, apontam o dedo, apontam o que os faz rir, de alegria ou de trémulo medo. Não são minhas as desgraças, repete a Desgraça. Suficientemente baixo para que não a ouçam.

trabalhos

- Sara?! Lembras-te de mim, Sara?!
     Sara lembrava-se. Como não? Daniel e ela haviam namorado durante cinco anos até Sara acabar com o namoro. Agora, Daniel estava plantado no portão do seu jardim, visivelmente nervoso. Sara ainda sentia carinho por ele, na verdade, decidira sabotar a relação com ele porque Daniel tinha algo de sinistro, de perceptívelmente maligno, que a assustava, e nisso ele saía à mãe, que todos reputavam de invejosa e bruxa, capaz de lançar maus-olhados a quem não caísse nas suas graças.
     - O que é pretendes daqui, Daniel? Ficou cá alguma das tuas coisas?
     - Não, claro que não, levei tudo o que aqui tinha de meu.Vinha só pedir-te uma peça de roupa tua, para guardar como recordação do nosso namoro. Pode ser uma coisa inocente, uma t'shirt ou uma meia.
     Sara ficou silenciosa por um momento. Todas as palavras dele soavam a falso como um falsete de cantor sem talento.
     - Está bem, vou buscar! - disse, e desapareceu no interior da casa para…

Crónica

Todos os dias me tenho mortificado com os noticiários da televisão. Todos os dias, olho para o ecrã e sofro com aquilo. Crise, miséria, assassinatos, catástrofes naturais, e actos desumanos de pseudo-humanos.  
   Ontem não! Tirei o dia e desde que acordei só ouvi música - Jazz, Soul, R&B, e mais Jazz.
   Ao entardecer, entrou-me um corvo em casa pela janela trazendo no bico o jornal da tarde. Um jornal com tudo dentro - crise, miséria, assassinatos...

Babilónia

Dois ou três pregadores, padres e pastores evangélicos, uma trintena de férreos guardiões da moral e dos bons costumes, e uma multidão de professores reaccionários e moralistas de todo o género, decidiram entre si empurrar Lisboa para o Tejo. Dividiram-se em grupos, e ao toque duma trombeta apocalíptica, concertaram esforços e empurraram para a água a grande cidade com os seus habitantes, edifícios, ruas, estátuas e caixotes de lixo. O esforço hercúleo valeu a pena, porque quando a cidade conseguiu sair de novo do estuário, vinha mais lavada e resplandecente, e as pessoas, encharcadas dos pés à cabeça, pareciam uma aparição homérica de nereidas e tritões de sangue divino.
   Pior ficou o Tejo e o mar que o abraça, tingidos de negro como uma maré de petróleo derramado.
   Pior ficaram esses moralistas e religiosos que haviam empurrado Lisboa para o mar, surpreendidos que ficaram por a ver regressar, interrompendo as orgias desenfreadas que levavam a cabo em descampados com os salvad…

Luísa

Luísa acordou sobressaltada. Havia dormitado no banco sob a latada. Levantou-se dum salto e abriu o ferrolho do pequeno portão dos fundos do quintal para espreitar a rua. Um amolador havia-se instalado do outro lado da rua e cruzou o seu olhar com o dela, um olhar sujo e sardónico, logo cerceado pela passagem de duas freiras que subiam a rua na direcção do Mosteiro. Luísa voltou a aferrolhar o pequeno portão, e refugiou-se no interior da casa. Verteu alguma da água dum cântaro para uma vasilha, e refrescou os braços e a cara, enxugando-se com um pano de linho. Uma libélula rubra penetrou pela janela aberta, e Luísa ficou a contemplá-la passivamente, e só saiu do seu torpor quando ela pousou na mesa ao lado da sua menina. Enxotou-a com a toalha, repetidamente, e só descansou quando a viu voejar de regresso ao quintal. Correu as cortinas e examinou a sua menina, ainda que de alguma forma soubesse que não precisava de o fazer. O seu esqueleto estava deitado no berço baixo, com a cave…

o caracol

A esplanada no Verão. É deliciosa e horrível a esplanada no Verão. A praia do outro lado da rua e toda a gente na rua, na esplanada, à nossa volta, quase em cima de nós. Duas senhoras conversam na mesa ao lado, brasileiras, balzaquianas em fim de concessão, rechonchudas, devem ter acabado de sair da praia porque se nota o contorno do biquini molhado sobre os vestidos leves. Bebem chope. Falam de dietas. Ah,eu confio no dendém, quando se tem dendém não se engorda, eu não dispenso o dendém, cozinho tudo com ele. Desinteresso-me da conversa, o dendém parece tão sugestivo como o dengue, ou uma erva pisada na terra-de-ninguém. Na mesa do outro lado, desfiam-se relações. O que é feito do Timóteo, do Saraiva, da Ercília? O mais velho parece ser emigrante, esteve fora, e actualiza os contactos afectivos. O seu interlocutor é jovem, talvez filho ou sobrinho, mas não sabe de nada nem de ninguém. Qual Timóteo? O Timóteo Bandeira, aquele que tinha a mercearia na aldeia, aonde chegaste a ir com…

mono-Logos

   O nosso peito está cheio de palavras, sabiam disso? É verdade, está sempre cheio até cima! Por isso, a culpa não é minha, porque eu sou como todos os outros, mas eles acham que eu é que falo demais e chamam-me de Mói-Almas mal eu solto duas palavras seguidas, e gritam-me esse nome se começo a contar alguma história, e ai de mim se insisto, porque negligenciam a benesse das alcunhas e dão-me dois ou três pontapés (que mal me acertam porque eu corro em volta como uma avestruz com uma leoa no encalço. Eu sou muito esperto, eles é que não sabem disso). Mói-Almas! Como é que eles se foram lembrar dum nome desses?! É certo que estou sempre a falar, e começo sempre muito de repente como se as palavras arrebentassem a represa e caíssem em catadupa sobre as suas vidas sonolentas, mas não faço por mal, e até tenho alguns colegas que gostam de as ouvir e abanam ritmadamente a cabeça, ou babam-se gentilmente como sinal de aprovação ao que eu vou narrando. Mas eles não, não gostam do que eu co…

um acidente

O casal muito jovem e muito enamorado passeava pelas ruas a ver as montras muito jovens e o seu reflexo muito enamorado espelhado nas vidraças, quando foi colhido por um camião carregado, carregado e muito, carregado de bricabraques e fidelidades dúbias, e uma gravidez precoce, empregos de miséria para pagar o aluguer do quarto e o pediatra do puto, a frustração de não se continuar a estudar e de terem de ser serventes de pedreiro e empregada de hiper, carregados de novos projectos arrancados à pedreira da vida com golpes das mãos nuas e ensanguentadas para logo falirem em seguida graças a uma criança mais e uma casa maior, à chulice dos sogros e amantes, a hipotecas e empréstimos. Aquele atropelamento meteu tudo, acusações e brigas, chapadas e prantos, uma ordem de restrição, um demorado processo de divórcio, e as crianças vigiadas de perto pela assistente social. Os dois saíram bastante maltratados do acidente, crivados de feridas e dívidas que não conseguiam enfrentar com o se…

Os saltos do cavalo no xadrez

Imagem
(O cavalo no tabuleiro de xadrez pode, com duas ou mais jogadas, regressar à casa donde partiu).



Moses saltou da cama quando ouviu os cães ladrar. Era quase meia-noite, constatou-o pelo mostrador do ruidoso relógio de parede enquanto vestia as calças de alças sobre as ceroulas e enfiava os pés nas botas de cano alto arrumadas aos pés da cama. Andava gente lá fora, agora tinha a certeza, podia ouvir o ranger da madeira nos degraus do alpendre. Pensou em empunhar o rifle encostado a um canto da sala, mas desistiu quando ouviu bater à porta. Tranquilizou-se um pouco, não deveria ser necessário mas colocou por prevenção o rifle em pé atrás da porta antes de fazer correr a tranca de madeira que fechava a porta por dentro. Entreabriu-a e espreitou. No alpendre não havia nada de ameaçador, apenas uma mulher baixa, com os ombros enrolados numa mantilha, e em volta, pousados no chão, os volumes recortados na obscuridade de sacos e uma pequena mala. Reconheceu-a, era Harriet, a pequena Harriet…