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ESTRATIGRAFIA

1 - Escavaram o solo da cidade para construir um túnel viário e descobriram ruínas antigas, em camadas - Neolítico, romanos, Idade Média.

 2 - Ergueram um ponte sobre a avenida principal da cidade, e tropeçaram com as nossas próprias ruínas, em camadas, contempladas do futuro.

*

CLONES

1 - Um novel mito urbano narra que os Aliens andam pelo meio da cidade a recolher as pastilhas deitadas fora, para experiências com ADN.

2 - Diz-se que os Aliens infiltraram nas cidades simulacros nossos. São reconhecíveis, porque estão sempre a cuspir as pastilhas mastigadas.

The lost kingdoms

   - Pai, podes-me ajudar a procurar as minhas fichas de matemática do ano passado?
   O meu pai olhou-me, um tanto atarantado, e fechou a torneira, interrompendo a zelosa lavagem do velho Ford Cortina.
   - Podias começar a procurar sozinho, que eu depois já te ajudo. Tenho de aproveitar o Domingo para lavar o Audi, porque durante a semana ando sempre a caminho do Centro de Emprego.
   O Audi era o carro que nós tínhamos antes. Concordei com ele e entrei em casa. O meu irmão mais novo estava sentado num sofá com um pedaço oval de madeira na mão, e com um ar mortalmente aborrecido.
   - O que é que estás a a fazer? - tive de perguntar.
   - A mãe deu-me esta consola e disse-me para jogar um pouco de Playstation enquanto o almoço não está pronto - e depois, como se se lembrasse de repente, levantou a voz e perguntou - Mãe, o que é hoje o almoço? Não é sopa outra vez, pois não?
   - Não - gritou a nossa mãe da cozinha - é frango à lagareiro, mas para entrada estou a preparar tomate recheado com molho de sapateira, e palitos de peito de peru fritos com pedaços de amêndoa incrustados.
   Era sopa. Nem perdi tempo a confirmar na cozinha. Fui até ao quarto e comecei a procurar as fichas, precisava delas para fazer uma revisões antes que as férias grandes acabassem. O meu irmão rondava-me, curioso.
   - O que é que procuras?
   - As fichas de matemática, sabes, é um caderno de formato A4 de cor verde claro.
   - Eu ajudo-te! - ofereceu-se, e começou a procurar também.
   A mãe apareceu à porta.
   - Daqui a quinze minutos, o almoço está pronto, por isso é melhor lavarem as mãos! Estão à procura de quê?
   - Do meu cartão do clube de ténis! - respondi.
   - Ah, muito bem! - aprovou, e voltou à cozinha.
   O meu irmão sorria, mas o seu sorriso logo esmoreceu nos lábios.
   - Achas que voltaremos a ter televisão e computador...um dia?
   - Não sei...talvez as coisas melhorem. A mãe, pelo menos, espera sempre pelo melhor.
   - Não percebo qual é o problema deles, estão sempre a inventar coisas, parece que vivemos num teatro.
   - É apenas um pouco de fantasia patológica. Na cabeça deles, nós seremos sempre crianças que não aguentam a verdade. Pode ser apenas uma questão de tempo, mas se isto continuar por muito tempo, tenho de marcar uma consulta de Psicologia para os dois, porque senão, damos todos em doidos.





Um estranho

     Há um estranho a viver na minha casa, um estranho com manias e hábitos estranhos. Aparece quase sempre a meio da noite, arrasta os pés pela cozinha, abrindo as portas dos armários e remexendo em talheres, ouço-o depois no salão (e eu sempre deitada com a cabeça debaixo das mantas, a olhar para cima, para o rectângulo de luz da porta do quarto que se projecta na parede da cabeceira). No salão, em meio ao silêncio da noite profunda, consigo ouvi-lo perfeitamente. Consigo mesmo ouvir os seus pés a farfalhar no tapete, e ele de novo a remexer em gavetas, e também na minha carteira que larguei em cima do sofá - sei-o pelo tilintar das moedas - e de novo à volta das gavetas, tira-as para o chão para as vasculhar melhor, e remexe minuciosamente o seu conteúdo como se escolhesse arroz. Anda nisto uma ou duas horas, e eu no quarto, vigilante e sem sono algum. Ele nunca desiste e quando pára de mexer nas coisas, é porque já encontrou alguma coisa que lhe interessasse. Ouço-o então sentar-se ao piano, o cansaço do seu peso morto no banco de cabedal do piano. A tampa do teclado produz um som cavo ao ser levantada. Não o consigo ouvir mas sinto que ele acaricia as teclas ao de leve como se tivesse diante de si a nívea pele duma mulher intocável. Sofre por não poder tocar o piano, sofre por não poder ou não querer cruzar a porta do quarto e sentir no seu o meu corpo nu sob as mantas. E eu sofro com ele, durante os minutos ou as horas que se arrastam até ao nascer do Sol. Por fim, fecha a tampa do teclado e sai de casa da mesma forma como entrou, como um estranho ou um ladrão. Mas eu continuo sem conseguir dormir. Tenho primeiro de ir à sala descobrir o que é que ele levou de casa e arrumar as gavetas e, no fim disso, abrir um pouco as janelas para dissipar o cheiro do álcool e do suor e verificar se ele não deixou pela casa alguma seringa esquecida. Eu sei que me casei com ele, mas fico cansada das suas manias e hábitos estranhos.


Demasiada informação

   Noite de amadores num bar de cidade de província. Após uma deprimente imitação de Zeca Afonso, sobe ao palco um jovem imberbe que o apresentador anuncia como uma vigorosa promessa do Stand-up Comedy.
   Aplausos. E todos aguardam no escuro, a amolar as facas debaixo das mesas. O jovem no palco está nervoso, transpira por todo o lado, espia a sua cábula num papelinho, e apalpa o terreno.
   - Já alguém ouviu falar de Enkidu?
   Ninguém ouvira, ou ninguém se acusava.
   - Enkidu era na lenda uma criatura da floresta. Vivia com os animais, pascia com eles e bebia leite das tetas da gazela.
   Primeira gargalhada, e o jovem anima-se.
   «Enkidu nem parecia um homem, tinha pêlos compridos por todo o corpo como o Chewbacca da Guerra das Estrelas, ou como a minha noiva antes de ir à depilação.
   Nova gargalhada, e ele fica mais ambicioso. Acertar na mulher dá sempre resultado, mas a sua ambição cega-o.
  «Enkidu era amigo dos animais, e destruía as armadilhas dos caçadores, e alertava os animais quando algum homem se aproximava.
   Silêncio.
   «Então, os caçadores pensaram numa maneira de prejudicarem Enkidu, e puseram junto ao rio uma prostituta toda nua com instruções para o seduzir. Veio o inocente Enkidu para beber água no rio como os outros animais, e viu a mulher nua. Cobriu-a com o seu corpo, e mantiveram relações durante seis dias e sete noites.
   Parou para tomar fôlego. A sala estava mergulhada num silêncio de velório, do seu velório.
   «Acontece que, quando Enkidu se afastou da mulher e procurou os seus amigos animais, estes já não o reconheceram, ele abrira os olhos e tinha o cheiro de gente. A mulher ensinara-o a comunicar como os humanos e os animais já não entendiam a sua linguagem.
   O silêncio ameaçava esmagá-lo, e reagiu depressa, por instinto. Sabia que havia sempre outros trunfos que poderia usar. Piadas com raças, homossexual, sogra, ou qualquer piada de cariz sexual.
   «Escusado será dizer que se costuma dizer que Enkidu cobriu a mulher com o seu corpo como se se tivesse deitado em cima dela, quando todos deveriam dizer que a cobriu por trás, que é como fazem os animais.
   Pálidos sorrisos, a atmosfera aligeirou-se um pouco, ele estava empatado com o público. Passou ao ataque.
   «E Enkidu acabou por se casar com a prostituta, e acabou por encontrar o único animal na vida que não sentia rejeição por ele - a sua sogra!».
   A sala rebentou num forte aplauso, que subiu de intensidade quando o jovem fez uma larga vénia, aproveitando para abandonar o palco.
   O apresentador interpelou-o à saída do palco para lhe dar os parabéns pelo número, e ele retorquiu logo:
   - Eu tinha dito ao senhor que era capaz de fazer humor inteligente!



Faça Fácil: Como Transformar um Romance num Conto

   Você acabou de escrever um romance e agora, relendo-o, apercebe-se de que ele está mal escrito ou de que não funciona como romance, e que o mais acertado será convertê-lo num conto. Como não sabe como fazê-lo, pesquisou na Web, e encontrou esta nossa página, que possui todas as respostas às suas dúvidas.

   Um romance é um gigante, e tem todos os atributos de um gigante, dimensões, força, poder, dimensões gigantescas dos órgãos e membros. Um conto, por sua vez, tem tudo isso mas de uma forma mais condensada mas não menos forte e poderosa, como o vírus que vence a criatura em que está alojado, ou a pedra mais pequena na funda de David, que é aquela que irá derrubar Golias.Tendo isto em mente, fica mais fácil converter um romance num conto. Comece por abreviar e cortar. Condense cada capítulo num parágrafo de forma a que este mantenha a sua virtude narrativa, mas, para o fazer, tem de cortar, seccionar, amputar. Esqueça a multidão de personagens porque o que você quer não é uma reunião da confraria, e a esmiuçada caracterização de cada um deles; e atire para trás das costas as descrições paisagísticas, as digressões narrativas inspiradas em Agustina, os diálogos de dez páginas ou o enredo tão enredado como uma panelona de esparguete.

   Cortou, dispensou, condensou. Agora, o que é que você tem? Um conto com tantos parágrafos como capítulos tinha o seu romance. Se o seu romance não tinha muitos capítulos, isso também não é grave porque o conto também não precisa de muitos parágrafos para contar uma história. Agora que se chegou ao fim, eis a grande questão: Você consegue ler como um conto essa sucessão de parágrafos-resumo? Se você conseguir, você e nós estamos de parabéns. Mas o mais provável é que isso não se consiga ler como um conto, de uma forma fluente e escorreita. Se for esse o caso, o seu trabalho não terá sido em vão, porque você possui todos os tópicos necessários para escrever um romance, o que você conseguirá sem dificuldades com a ajuda do nosso Manual Web:

   Faça Fácil: Como Transformar um Conto num Romance


Falta de autonomia


   As coisas aconteceram muito rapidamente e de forma muito parecida. Talvez ela tivesse, sem que o soubesse, alguma marca deixada pelo Anjo da Morte, porque era nisso que todos pareciam pensar quando a viam. O primeiro a não resistir à tentação foi o professor reformado que lhe dava explicações de matemática. Matou-a brutalmente com uma pancada na cabeça com uma barra de ferro enquanto ela esgrimia com os algoritmos. O segundo atropelou-a com o seu jipe TT depois de a seguir durante horas enquanto ela fazia a sua longa caminhada vespertina. Em seguida, e sem me demorar nos autores das atrocidades, posso adiantar que ela foi esfaqueada, estrangulada, envenenada com doses maciças de Fast Food, alvejada à queima-roupa com uma carabina, e afogada na banheira da sua casa. O que importa aqui realçar, é que ela era a principal responsável pelo que lhe estava a suceder, por não procurar ajuda profissional de psicólogos, recorrer a grupos de apoio ou pedir ajuda aos amigos para superar o seu problema. Era uma vítima em série e, simplesmente, não sabia como parar.

A Desgraça desce a rua


    A Desgraça desce a rua, é estranha e burlesca e por isso inspira o sorrisinho, o riso destelhado a céu aberto, a gargalhada liberta como uma ave a alçar voo. Tem feridas a Desgraça, chagas e sangue, tumores a levantar-lhe a pele dos membros e da cara, fetos mortos presos ao longo manto que ela arrasta pelo chão. Riem-se os que a vêem passar, apontam o dedo, apontam o que os faz rir, de alegria ou de trémulo medo. Não são minhas as desgraças, repete a Desgraça. Suficientemente baixo para que não a ouçam.

trabalhos

     - Sara?! Lembras-te de mim, Sara?!
     Sara lembrava-se. Como não? Daniel e ela haviam namorado durante cinco anos até Sara acabar com o namoro. Agora, Daniel estava plantado no portão do seu jardim, visivelmente nervoso. Sara ainda sentia carinho por ele, na verdade, decidira sabotar a relação com ele porque Daniel tinha algo de sinistro, de perceptívelmente maligno, que a assustava, e nisso ele saía à mãe, que todos reputavam de invejosa e bruxa, capaz de lançar maus-olhados a quem não caísse nas suas graças.
     - O que é pretendes daqui, Daniel? Ficou cá alguma das tuas coisas?
     - Não, claro que não, levei tudo o que aqui tinha de meu.Vinha só pedir-te uma peça de roupa tua, para guardar como recordação do nosso namoro. Pode ser uma coisa inocente, uma t'shirt ou uma meia.
     Sara ficou silenciosa por um momento. Todas as palavras dele soavam a falso como um falsete de cantor sem talento.
     - Está bem, vou buscar! - disse, e desapareceu no interior da casa para regressar com uma sweater no braço, que lhe entregou.
     Uns dias depois tocaram de novo à campainha, e Sara foi espreitar. Era de novo Daniel, parecia tão nervoso como antes. Sara arrastou-se até ao portão, andava muito adoentada por aqueles dias, uma fraqueza nos membros, suores frios e perturbações digestivas. Na véspera, tivera um febrão intenso que desapareceu tão repentinamente como aparecera.
     - Sara! Como tens passado?
     - Mal, muito mal, Daniel, deve ser dos miasmas quentes de Agosto. O que queres desta vez?
     Daniel não conseguiu disfarçar um fugaz sorriso de satisfação.
     - Vinha pedir-te mais uma recordação tua, uma coisa mais pessoal, como uma daquelas mechas de cabelo que a tua mãe guardava numa caixa de madeira.
     - Vou buscar - declarou secamente, e foi, com muita lentidão, ao interior da casa para lhe trazer uma mecha de cabelos castanhos atada com uma fitinha rosa.
     Mal recebeu a recordação, Daniel saiu dali a correr, impaciente por fazer alguma coisa.
     Na vez seguinte que Daniel ali voltou, tocou à campainha, mas Sara já não foi ter com ele ao portão. Foi o pai dela quem o foi abrir e conduziu Daniel até à sala, onde Sara estava deitada no sofá, com as pernas tapadas por um cobertor, e tendo ao seu lado, numa pequena mesinha, um copo de água e diversas embalagens intactas de medicamentos.
     Sara fez um gesto ao pai para os deixar a sós. Mal o sentiu abandonar a sala, Daniel pediu sem demoras.
     - Precisava apenas de mais uma recordação tua, umazinha só!
     Sara fez um gesto largo para as suas roupas pousadas no braço do sofá.
     - Escolhe uma! - arfou com dificuldade.
     Daniel optou por uma camisola dela, que enrolou e segurou entre as suas mãos, pressionando-a com força.
     - Sara...posso perguntar-te uma coisa?
     - Claro, Daniel, tens a minha vida nas tuas mãos...
     - Porque é que me deste todas estas...recordações? A sweater, a mecha de cabelos, esta camisola...Ainda não consegui perceber!
     - Ainda que o desejasse muito, eu nunca reuni coragem para me matar, Daniel...


Crónica

   Todos os dias me tenho mortificado com os noticiários da televisão. Todos os dias, olho para o ecrã e sofro com aquilo. Crise, miséria, assassinatos, catástrofes naturais, e actos desumanos de pseudo-humanos.  
   Ontem não! Tirei o dia e desde que acordei só ouvi música - Jazz, Soul, R&B, e mais Jazz.
   Ao entardecer, entrou-me um corvo em casa pela janela trazendo no bico o jornal da tarde. Um jornal com tudo dentro - crise, miséria, assassinatos...

Babilónia

   Dois ou três pregadores, padres e pastores evangélicos, uma trintena de férreos guardiões da moral e dos bons costumes, e uma multidão de professores reaccionários e moralistas de todo o género, decidiram entre si empurrar Lisboa para o Tejo. Dividiram-se em grupos, e ao toque duma trombeta apocalíptica, concertaram esforços e empurraram para a água a grande cidade com os seus habitantes, edifícios, ruas, estátuas e caixotes de lixo. O esforço hercúleo valeu a pena, porque quando a cidade conseguiu sair de novo do estuário, vinha mais lavada e resplandecente, e as pessoas, encharcadas dos pés à cabeça, pareciam uma aparição homérica de nereidas e tritões de sangue divino.
   Pior ficou o Tejo e o mar que o abraça, tingidos de negro como uma maré de petróleo derramado.
   Pior ficaram esses moralistas e religiosos que haviam empurrado Lisboa para o mar, surpreendidos que ficaram por a ver regressar, interrompendo as orgias desenfreadas que levavam a cabo em descampados com os salvados da cidade desalojada, com as prostitutas e prostitutos dos seus jardins e ruas pretéritas, com as bebidas sem dono e os narcóticos que ninguém reclamara.
   (Não adiantou de muito dispararem contra aqueles que regressavam).

Luísa

    Luísa acordou sobressaltada. Havia dormitado no banco sob a latada. Levantou-se dum salto e abriu o ferrolho do pequeno portão dos fundos do quintal para espreitar a rua. Um amolador havia-se instalado do outro lado da rua e cruzou o seu olhar com o dela, um olhar sujo e sardónico, logo cerceado pela passagem de duas freiras que subiam a rua na direcção do Mosteiro. Luísa voltou a aferrolhar o pequeno portão, e refugiou-se no interior da casa. Verteu alguma da água dum cântaro para uma vasilha, e refrescou os braços e a cara, enxugando-se com um pano de linho. Uma libélula rubra penetrou pela janela aberta, e Luísa ficou a contemplá-la passivamente, e só saiu do seu torpor quando ela pousou na mesa ao lado da sua menina. Enxotou-a com a toalha, repetidamente, e só descansou quando a viu voejar de regresso ao quintal. Correu as cortinas e examinou a sua menina, ainda que de alguma forma soubesse que não precisava de o fazer. O seu esqueleto estava deitado no berço baixo, com a caveira delgada disposta de lado sobre a almofada vermelha com borlas douradas. Acariciou-lhe o crânio, a curva da omoplata, os ossinhos finos das mãos, dessas mãos que ainda recordava macias e quentes, encostadas à sua pele enquanto lhe dava de mamar. Ajoelhou-se ao lado do berço, e admirou os tesouros que guardava no gavetão de pinho pousado no chão ao lado do berço. Retirou dela, uma a uma, as roupas daquele enxoval para as admirar com uma ternura quase fervorosa. Túnicas de diferentes cores e tamanhos, algumas simples e austeras, outras com pregas e decoradas com as iniciais monogramadas dum nome, quase sempre sobre a manga. Sob aquelas roupas todas, estavam os bens da sua filha que mais admirava - as pulseirinhas de prata e medalhinhas de santos que haviam acompanhado aquelas roupas do enxoval, algumas tinham vindo embrulhadas em lenços de seda onde um escudo bordado identificava a quem havia pertencido a pequena jóia, com o fito de se deixar um sinal ou uma pista que, num incerto amanhã, pudesse guiar aquele ser de regresso aos pais contritos.
    Luísa de Jesus voltou a arrumar as túnicas no gavetão, compôs as roupas que trazia vestidas e atou o lenço sobre os cabelos, preparando-se para sair; mas antes, compôs sobre o aparador a molheira em que costumava dar o leite aos bebés e o pequeno frasco arrolhado, de vidro castanho, que encerrava o pó venenoso. Satisfeita por verificar os detalhes, saiu para a rua ao mesmo tempo que os sinos do Mosteiro faziam soar o Angelus pela segunda vez naquele dia. A Madre Superiora esperava-a para lhe confiar uma das crianças enjeitadas que haviam deixado à guarda do convento, e a graça e o dote de seiscentos réis que lhe seria entregue para a criar e educar com todo o amor de que só uma mãe é capaz.


o caracol

   A esplanada no Verão. É deliciosa e horrível a esplanada no Verão. A praia do outro lado da rua e toda a gente na rua, na esplanada, à nossa volta, quase em cima de nós. Duas senhoras conversam na mesa ao lado, brasileiras, balzaquianas em fim de concessão, rechonchudas, devem ter acabado de sair da praia porque se nota o contorno do biquini molhado sobre os vestidos leves. Bebem chope. Falam de dietas. Ah,eu confio no dendém, quando se tem dendém não se engorda, eu não dispenso o dendém, cozinho tudo com ele. Desinteresso-me da conversa, o dendém parece tão sugestivo como o dengue, ou uma erva pisada na terra-de-ninguém. Na mesa do outro lado, desfiam-se relações. O que é feito do Timóteo, do Saraiva, da Ercília? O mais velho parece ser emigrante, esteve fora, e actualiza os contactos afectivos. O seu interlocutor é jovem, talvez filho ou sobrinho, mas não sabe de nada nem de ninguém. Qual Timóteo? O Timóteo Bandeira, aquele que tinha a mercearia na aldeia, aonde chegaste a ir com os teus pais...Não sei, não me diz nada, sabe que eu não páro muito por lá... E assim por diante. O Saraiva, nada, a Ercília, quem? Bebo o resto da cerveja, e vou ficando, e espero. Espero durante horas. Os banhistas desarvoram, vão tomar banho, mudar de roupa. A tarde cai e regressam algum deles, atraídos, como limalhas para um íman,para os bares mais animados, onde há música ao vivo e noite de karaoke. No bar da esplanada onde estou, não há nada disso. Há cerveja e há gelado, e tosta mista ou pampilho para iludir a fome ou ensopar a bebida. Cai a noite e eu ainda ali. Peço mais uma loirinha, a segunda do dia. Bebo devagar, para fazer render, mas acabo forçosamente por esvaziar o copo fino. O empregado deixa-me estar, concede-me o recato porque o movimento também não aperta. O tempo escorre devagar, mas esvazia-se à mesma como a cerveja no copo. Chega-se à meia-noite, arrumam-se as cadeiras sobre as mesas da esplanada, o mesmo empregado pede-me licença, e eu levanto-me e fico de pé a um canto da esplanada. Vejo-os passar as correntes pelo meio do esqueleto das mesas e cadeiras e fechar os cadeados para que não as roubem. Sento-me um pouco no corrimão de madeira da esplanada, mas saio dali quando começam a varrer com energia para desincrustar a areia das juntas do chão de madeira. Apagam-se as luzes do bar. Atravesso a rua até à marginal. Admiro as águas escuras da lagoa e, recortado pelo luar, o perfil de esfinge mutilada do promontório arenoso do Gronho. Também se consegue ver as estrelas sobre tudo isso, sobre mim próprio. Escolho uma, mais brilhante, que talvez seja um planeta, mas escolho-a à mesma, elejo-a como a minha boa estrela, e pergunto-lhe discretamente: "Para onde é que eu vou agora?".



mono-Logos


     O nosso peito está cheio de palavras, sabiam disso? É verdade, está sempre cheio até cima! Por isso, a culpa não é minha, porque eu sou como todos os outros, mas eles acham que eu é que falo demais e chamam-me de Mói-Almas mal eu solto duas palavras seguidas, e gritam-me esse nome se começo a contar alguma história, e ai de mim se insisto, porque negligenciam a benesse das alcunhas e dão-me dois ou três pontapés (que mal me acertam porque eu corro em volta como uma avestruz com uma leoa no encalço. Eu sou muito esperto, eles é que não sabem disso). Mói-Almas! Como é que eles se foram lembrar dum nome desses?! É certo que estou sempre a falar, e começo sempre muito de repente como se as palavras arrebentassem a represa e caíssem em catadupa sobre as suas vidas sonolentas, mas não faço por mal, e até tenho alguns colegas que gostam de as ouvir e abanam ritmadamente a cabeça, ou babam-se gentilmente como sinal de aprovação ao que eu vou narrando. Mas eles não, não gostam do que eu conto, porque correm a obrigar-me a tomar uns comprimidos para ficar mais calmo e, outras vezes, embirram com o que eu trago vestido e vestem-me uma camisa que não tem jeito nenhum porque me aperta nos ombros e não me deixa mexer os braços, e isso custa-me muito porque gosto de acompanhar as palavras com gestos das mãos como se regesse alguma orquestra. Mói-Almas! Se eu moesse de verdade as almas deles, a farinha que dali sairia não era boa sequer para fazer ração para porcos.


um acidente

     O casal muito jovem e muito enamorado passeava pelas ruas a ver as montras muito jovens e o seu reflexo muito enamorado espelhado nas vidraças, quando foi colhido por um camião carregado, carregado e muito, carregado de bricabraques e fidelidades dúbias, e uma gravidez precoce, empregos de miséria para pagar o aluguer do quarto e o pediatra do puto, a frustração de não se continuar a estudar e de terem de ser serventes de pedreiro e empregada de hiper, carregados de novos projectos arrancados à pedreira da vida com golpes das mãos nuas e ensanguentadas para logo falirem em seguida graças a uma criança mais e uma casa maior, à chulice dos sogros e amantes, a hipotecas e empréstimos. Aquele atropelamento meteu tudo, acusações e brigas, chapadas e prantos, uma ordem de restrição, um demorado processo de divórcio, e as crianças vigiadas de perto pela assistente social. Os dois saíram bastante maltratados do acidente, crivados de feridas e dívidas que não conseguiam enfrentar com o seu desânimo fatalista de pessoas de meia-idade. Chamada ao local do atropelamento para tomar conta da ocorrência, os polícias interrogavam-se: "Onde é que tinha ficado o amor?".

Os saltos do cavalo no xadrez




(O cavalo no tabuleiro de xadrez pode, com duas ou mais jogadas, regressar à casa donde partiu).




Moses saltou da cama quando ouviu os cães ladrar. Era quase meia-noite, constatou-o pelo mostrador do ruidoso relógio de parede enquanto vestia as calças de alças sobre as ceroulas e enfiava os pés nas botas de cano alto arrumadas aos pés da cama. Andava gente lá fora, agora tinha a certeza, podia ouvir o ranger da madeira nos degraus do alpendre. Pensou em empunhar o rifle encostado a um canto da sala, mas desistiu quando ouviu bater à porta. Tranquilizou-se um pouco, não deveria ser necessário mas colocou por prevenção o rifle em pé atrás da porta antes de fazer correr a tranca de madeira que fechava a porta por dentro. Entreabriu-a e espreitou. No alpendre não havia nada de ameaçador, apenas uma mulher baixa, com os ombros enrolados numa mantilha, e em volta, pousados no chão, os volumes recortados na obscuridade de sacos e uma pequena mala. Reconheceu-a, era Harriet, a pequena Harriet, a filha do casal que explorava a loja de ferragens da cidade.
Abriu-lhe a porta para trás e ela entrou na sala de olhos fixos no soalho, arrastando os seus sacos. Voltou a trancar a porta atrás dela e alimentou o brasido da salamandra com lenha que tirou do cesto de vime. Não estranhou o silêncio de Harriet, achou que se deveria estar a debater com dúvidas e preocupações, sem dúvida as mesmas que a haviam arrancado da casa dos pais e feito percorrer as milhas que separavam a cidade daquela cabana de lenhador. Era natural que ela se sentisse constrangida de estar ali. Fez-lhe um sinal para se sentar na única cadeira que havia na pequena mesa quadrada, preparou um prato estanho com papa de aveia que colocou diante dela com uma colher de sopa, isto quando as chamas da salamandra já ardiam com vivacidade, iluminando e aquecendo a divisão.
Deixou-a comer em silêncio, de olhos baixos, até não ter mais papa no prato e continuar a fazer rodar a colher no fundo do prato, num rito ocioso e pensativo insinuando pela sala o som cíclico do metal.
- O que se passa, Harriet? – Perguntou-lhe por fim.
Ela despiu a mantilha castanha que mantivera nos ombros, e ergueu por fim o olhar para si.
- Estou à espera de bebé, senhor Moses – contou, um pouco envergonhada – os meus pais expulsaram-me de casa, e não posso ficar na cidade, porque isso causaria ainda mais vergonha e repúdio aos meus pais. Como o senhor mora fora da cidade e foi sempre gentil para comigo, pensei pedir-lhe para ficar aqui uns dias até saber para onde ir. Tenho uma tia no vale, mas não sei bem como chegar lá…
Moses anuiu com alguma relutância devido aos seus engulhos de homem acostumado à solidão. Tinha idade para ser pai de Harriet, mas a perspectiva de a ter por perto não lhe desagradava. Apontou-lhe para o ventre.
- E o responsável por isso não te pode ajudar?
- Não, acho que não – negou Harriet – era um forasteiro de passagem, Moses, e não acredito que o volte a ver. Mas se achar que eu estou a pedir muito, sigo caminho…
- Não, claro que não, Harriet, podes ficar o tempo que quiseres. Tenho um quarto a mais na casa, desde que o meu irmão Joachim partiu para tentar a sorte em Fresno, quarto que tenho usado como arrecadação. Hoje durmo aqui na sala ao pé da salamandra e tu dormes no meu quarto, e amanhã já limpo o outro quarto e preparo um colchão de palha para colocar naquele estrado. Não ficarás muito mal, Harriet!
- Obrigado, senhor Moses, um dia, quando arranjar um trabalho e ganhar dinheiro, tentarei pagar-lhe algum.
- Não penses nisso – desvalorizou, e arrastou para o chão da sala as roupas da sua cama, onde compôs um ninho para dormir
No dia seguinte, e com a ajuda de Harriet, empreenderam na cabana as alterações que se impunham. Depois de esvaziado o segundo quarto da tralha que Moses para lá fora largando, limparam o quarto e toda a cabana, e Harriet deu uma volta às louças, e lavou os vidros das janelas enquanto Moses enchia uma saco-colchão com palha enxuta dos estábulos. Quando a cabana ficou pronta, Moses arreou os cavalos na pequena carroça, e foi à cidade com Harriet para comprar víveres e outras coisas que começavam a faltar na cabana. Harriet seguiu em silêncio durante todo o caminho, insistira em ir com Moses para que os pais soubessem que ela encontrara onde ficar, e que não continuava a palmilhar carreiros e estradas com um filho na barriga. Na cidade, Harriet permaneceu na carroça enquanto Moses entregava a lenha que lhe haviam encomendado e comprava com esse dinheiro os víveres que precisava. Também precisou de ir à loja de ferragens comprar um candeeiro novo de querosene, e cunhas de ferro para encabar os machados. Aí, os pais de Harriet não lhe perguntaram nada, e aviaram o que ele precisava como se fosse um dia comum e um comum freguês, artifício que Moses acolheu com agrado porque não gostava de confusões e quezílias.
           De volta à cabana, Moses instruiu sumariamente Harriet sobre como usar um revólver que aí conservava - para o caso de ela se sentir ameaçada – e marchou para a floresta com as suas ferramentas e um farnel. Voltou ao anoitecer e enquanto alimentava a acomodava o cavalo nos estábulos, pôde sentir no ar o aroma a toucinho frito e sopa de couves. Sorriu de satisfação. Um homem podia-se habituar áquilo. Nos dias seguintes, a rotina foi-se consolidando. Harriet encarregava-se da comida e da limpeza da cabana e, sempre que tinha tempo, confeccionava ou bordava roupas para a criança que vinha a caminho. Moses e Harriet tomaram gosto em se sentar no alpendre ao anoitecer, quando os dias não eram muito frios, e conversar demoradamente sobre tudo, as pessoas da cidade, as peripécias que Moses já experimentara na vida, os ruídos e as criaturas da floresta em redor. Vendo-a de volta das roupas para o filho, Moses teve a ideia de lhe fazer uma surpresa e, no retiro dos estábulos e usando uma enxó, escavou o interior dum troço de abeto de Douglas, formando a parte central dum berço para o bebé. Unindo as ripas de secção quadrada dum armário sem uso, adicionou as grades na parte superior e os pés do berço, fixados estes a dois madeiros com o feitio de meia-lua, para fazer oscilar o berço dum lado para o outro. Terminado o berço, forrou o fundo com um almofadão largo e deixou-o à porta do quarto de Harriet antes de partir para a floresta pela madrugada.
Quando regressou ao entardecer, não viu Harriet, e sentou-se nos degraus do alpendre para descalçar as botas. Quando deu por ela, Harriet ajoelhara-se atrás de si e envolvera-o nos seus braços, beijando-lhe os ombros e o cabelo, em seguida, levantou-lhe um dos braços e esgueirou-se sob ele até se deitar ao seu colo. Beijaram-se. Harriet tinha lágrimas nos olhos. Naquela noite, Moses, agitado e insone, recebeu na sua cama a visita de Harriet - ela reuniu-se-lhe sob os cobertores com o seu corpo nu, cálido e macio. Moses já quase não se lembrava de como podia ser agradável o odor da pele duma mulher, e a voragem da sua carne voluptuosa.
A partir dessa noite, Moses e Harriet viveram como marido e mulher, e não apenas como dois náufragos confinados ao mesmo destroço de navio. Quando o bebé nasceu, um rapaz, Moses era o pai ao seu lado e o homem da sua mãe. Os pais de Harriet vieram um dia até á cabana para ver a criança logo no seu primeiro ano de vida, mas não levaram a sua charrete até à cabana, mas detiveram-na a uma distância prudente, e ficaram por ali, imóveis, observando Harriet e Moses que conversavam no alpendre com o berço entre eles. Não esboçaram um gesto, ou ensaiaram uma saudação. Ficaram quietos, manietados à sua própria vergonha e preconceito. Ao fim duma hora dessa estranha imobilidade, Moses fartou-se, pegou na criança ao colo e levou-a até eles. Seguraram nela no meio dum silêncio obstinado, afagaram-lhe os cabelos louros, beijaram-na na testa e na barriguita e, por fim, entregaram-na de novo a Moses, junto com uma bolsinha de couro onde retiniam algumas moedas. Subiram para a charrete e partiram de regresso à cidade sem mais palavras. Naquela noite, Harriet chorou continuamente, mais de raiva do que de dor, mas na manhã seguinte, as suas lágrimas haviam enxugado por completo e os seus olhos, cavados de cansaço, luziam de força e determinação.
“Somos só nós os três – disse a Moses – e não precisamos de mais ninguém!”.
Moses concordou, admirando a nudez de Harriet que amamentava a criança sentada aos pés da cama. Apenas os três, e a floresta em redor, ganha-pão e refúgio da tolice dos homens e das cidades. Ela era a sua mulher, e o bebé, o seu filho, as coisas eram tão simples quanto isso, e não lhe causava qualquer embaraço que não existissem semelhanças de espécie alguma entre ele e aquele bebé. Quando a criança cresceu, as diferenças entre os dois acentuaram-se. Ao contrário de Moses, que era de carnação morena e cabelo escuro, o rapaz era louro, de um louro vivo, quase branco, pele muito pálida, e tinha a sobrancelha esquerda interrompida a meio como se uma lâmina tivesse rapado aí os pêlos, característica que sabiam ser um sinal de nascença.
Uns dois anos depois da visita dos pais de Harriet, ocorreu uma outra visita que também perturbou Harriet, embora ela o tentasse dissimular. Um cavaleiro deteve a sua montada diante da casa, e desmontou próximo a Moses, que brincava com o filho. Moses avançou alguns passos, interpondo-se entre o estranho e a criança, atento aos movimentos do homem. O recém-chegado apenas pretendia – disse – saber qual era o caminho mais rápido para chegar às margens do rio Colúmbia. Moses indicou-lhe, e viu-o montar de novo no cavalo, e quando o fez, apareceu Harriet ao seu lado. Moses viu-a empalidecer como se tivesse visto um fantasma e, então, tudo se tornou claro para ele. O estranho tinha cabelos e bigode louro, e a sua sobrancelha esquerda tinha um formato familiar – dois traços cheios interrompidos a meio como se uma lâmina tivesse rapado os pêlos. Uma pontada de ciúmes avassalou-o, algo que nunca antes havia sentido, ciúmes agravados por ver Harriet tão perturbada, tremendo encostada a si. Mesmo depois do estranho partir na sua montada, Moses não conseguiu ficar descansado. No dia seguinte não foi trabalhar, nem naquele que se lhe seguiu, e nos outros mais próximos. Fazia vigilância à casa, espreitava os caminhos em redor, mantinha Harriet e o filho debaixo de olho. De noite, tampouco conseguia dormir, com a certeza de que aquele homem voltaria para reclamar o filho que era seu e a mulher que dele concebera. Foi Harriet quem o arrancou daquela paranóia sem sentido.
- Tens de ir trabalhar – disse-lhe com voz calma e ponderada – precisamos de ir à cidade comprar mantimentos, mas só o poderemos fazer se separares lenha para levarmos. Eu não vou a lado nenhum – continuou – e se algum desconhecido se tentar aproximar, ainda tenho comigo o revólver carregado que preparaste para mim
Moses concordou, mal conseguindo manter os olhos abertos, de tanto sono que tinha. Reconheceu intimamente como a sua atitude era ridícula, preparou a carroça, e carregou-a com as suas ferramentas. Adentrou-se com a carroça na floresta, e rolou por um caminho de terra até chegar a uma clareira semeada de tocos de árvores cortadas. Era ali que costumava trabalhar. Desajaezou o cavalo que atou a um arbusto, e preparou-se para começar a trabalhar, mas a cabeça pesava-lhe com o cansaço, e sentia o corpo quebrado como se tivesse passado os últimos dias a derrubar árvores e não em casa, de vigia aos seus medos. O cavalo relinchava nervosamente devido a relâmpagos próximos e podia sentir o ar carregado de electricidade. Mas estava cansado de mais para se preocupar com isso, uma fadiga enorme e sem explicação que lhe pesava nos membros. Subiu para a carroça, encostou a cabeça a um casaco enrolado e adormeceu de imediato e de forma profunda.


O lenhador Moses acordou algumas horas depois com o ruído estrondoso duma árvore que caíra muito próximo da carroça, ceifada por um raio. Saltou para o meio da chuva, e alarmou-se por não ver o cavalo. A árvore abatida estava caída a uns cinquenta metros, presa pela copa ao tronco doutra, e a bátega de água apagava o pequeno fogo que se ateara na chaga aberta pelo raio. Pensou de imediato em Harriet e no rapaz, e inquietou-se por não saber se estavam em segurança. Conseguiu ouvir o relincho do seu cavalo sobre o ruído da chuva, e foi encontrá-lo numa clareira vizinha, a trotar nervosamente dum lado para o outro. Conseguiu alcançar-lhe as rédeas, e abaixou-lhe ligeiramente a cabeça, abraçando-a sobre os olhos para o acalmar. Quando o conseguiu, levou-o de volta para a carroça com os pés a enterrarem-se no chão enlameado, e prendeu-o aos varais. Subiu para a carroça e conduziu-a de volta à cabana. Levou mais tempo do que desejaria, por ter de remover ramos caídos no caminho, e atravessar com cautela riachos espontâneos formados pela água da chuva e que rolavam para o vale em baixo, arrastando lama e pedras.
Quando chegou junto à cabana, deixou o cavalo nos estábulos e correu para casa, a chamar por Harriet, e sempre a chamar pelo seu nome abriu a porta da frente e penetrou na casa. Estava imersa em silêncio e, o mais assustador, estava diferente e irreconhecível. Não havia Harriet nem o filho de ambos, nem o berço em desuso ao canto onde Harriet guardava as suas coisas de costura, os cortinados que Harriet fizera para as janelas, os brinquedos do filho talhados e montados por Moses que estavam sempre espalhados pelo soalho e sobre a manta de felpa. Correu ao quarto, que não pareceu o quarto deles, mas antes, o quarto árido e desarrumado de Moses dos seus tempos de anacoreta. O segundo quarto também o surpreendeu porque estava juncado de tralha, tal como se lembrava de o manter antes da chegada de Harriet. Sentou-se num banco, completamente confuso. Todos aqueles anos desde a chegada de Harriet pareciam ter-se diluído na água da chuva, como se tudo fosse um sonho, intenso e quase real. Rebelou-se contra essa ideia, selou o cavalo, e dirigiu-se à cidade, fazendo o cavalo galopar sob a chuva intensa, e só o deteve diante da loja de ferragens. Entrou na loja, completamente ensopado e a pingar sobre o soalho. Atrás do balcão estava o desconhecido louro e de bigodes do outro dia, com os seus olhos claros e a falha na sobrancelha esquerda.
- Senhor Moses – disse este, e Moses estranhou o facto de ele o conhecer, e de o tratar pelo nome – o que o traz à cidade num dia de temporal como este?!
Moses balbuciou qualquer coisa inaudível e, por fim, aclarando a voz, perguntou:
- Harriet está?
- A minha mulher está lá trás no armazém, mas eu chamo-a…- respondeu, de forma casual.
Abandonou o balcão, e Moses relanceou o olhar pela loja. Os pais de Harriet arrumavam sacos de sementes numa estante baixa, acenaram-lhe amistosamente e ele respondeu ao cumprimento. Harriet entrou na loja, secundada pelo marido que se chegou ao balcão para atender outro cliente que acabara de entrar. Agora, tinha Harriet diante de si, a sua Harriet, tão distante como uma estrela no céu nocturno.
- Queria falar comigo, senhor Moses?
Não podia ser um sonho, conhecia e amava a sua voz, aqueles olhos escuros, a polpa dos seus lábios…
- Senhor Moses?
…o modo dócil e arrebatado como as suas pernas o envolviam, a ânsia sedenta com que as suas mãos lhe exploravam o corpo, avivando e exigindo o seu desejo.
- Vinha perguntar-lhe se deixei encomendadas as lâminas para a serra de arco. Acho que tinha falado consigo sobre isso…
- Não me lembro disso, mas posso verificar – dispôs-se, tirando de debaixo do balcão o caderno de encomendas…
Começou a folheá-lo à procura. Os pais dela tinham ido para o interior da loja, e o marido estava com o cliente, a mostrar as cavilhas de bronze junto à janela.
- Diga-me uma coisa, Harriet – aventurou-se – vocês têm algum filho?
Ela ergueu os olhos, surpreendida.
- Não! Desejávamos muito, mas Marcus é uma árvore que não dá frutos ou, pelo menos, assim julgamos porque na família dele é comum os varões ficarem velhos sem deixarem descendência. Desejávamos mesmo muito…
- Não encontra a encomenda? – perguntou de súbito, lembrando-se do pretexto que inventara.
- Não, de todo, mas podemos fazê-la de novo.
Conseguia ouvir o som metálico das cavilhas na caixa de madeira, e os pais deveriam estar a regressar à loja com mais sacos de sementes.
- Uma cicatriz em forma de vê, atrás – murmurou, aterrado com a reacção que Harriet poderia ter.
- O quê?
- Você tem uma cicatriz em forma de vê no fundo das costas, ao topo duma das nádegas, e um pequeno sinal rosado nas costelas, do lado direito – recitou muito rapidamente, a tremer como um adolescente – tem pavor de aranhas e de pregos e, por vezes, pesadelos por causa dum poço em que caiu quando era criança…
Ela estava abismada, mas teve o sangue-frio de pegar no caderno e aproximar-se do mostruário com as serras de arco. Moses seguiu-a.
- Como é que sabe tudo isso? Os sinais, posso compreender, porque pode ter-me visto a tomar banho no açude da floresta, mas o resto…
- Nós já estivemos juntos, Harriet, embora você não se consiga lembrar, estivemos juntos como marido e mulher, como amantes. Posso contar-lhe tudo sobre isso, ou posso mostrar-lhe um dia, se mo permitir.
Ela não aparentou vergonha, nem repugnância, e olhava-o nos olhos, sem falsos pudores; agora parecia mesmo a sua Harriet na obscuridade do quarto na cabana. Moses não conseguia disfarçar a sua alegria
- Irei visitá-lo à cabana, um dia destes, e continuaremos a nossa conversa – declarou ela num fio de voz, discreto e seguro.
Voltaram ao balcão, e Harriet assentou a encomenda que Moses lhe ditou em voz audível.
- Até breve, senhor Moses – despediu-se Harriet.
- Até breve, Harriet – respondeu animadamente, acenando para Marcus, que embalava as cavilhas escolhidas em papel pardo.
Saiu da loja, de sorriso rasgado. O desespero que sentira parecia agora uma coisa distante.
Só tinha pena do filho que deixara de existir.
Ou que ainda não existia.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...