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O reencontro

      A última vez que viu o pai foi numa manhã do mês de Setembro, uma manhã ainda noite. Ainda era uma criança, devia contar com uns oito ou nove anos, e acordou com ele a afagar-lhe o ombro no escuro do quarto. Estranhou que o pai estivesse vestido com o seu fato azul escuro de riscas brancas, com o casaco do fato dobrado sobre a perna esquerda, e foi isso que o despertou por completo.
    - Adeus, filho! - ouviu o pai dizer - gosto muito de ti!
    Soergueu-se na cama, alertado pelas suas palavras. Aceitou e correspondeu ao seu abraço enérgico, e ficou  como que estarrecido enquanto ele se afastava com passos arrastados, passando junto à sua mãe, que os contemplava da soleira da porta.
     Foi a última vez que viu o pai, e nunca mais soube nada dele, o que fora feito daquele homem ou quais os países ou planetas para onde havia viajado depois de ter saído das suas vidas, vestido com o melhor fato que tinha. Ao longo dos anos, foram incontáveis as vezes em que saíra do sono e lhe parecera que o pai estava sentado ao pé de si na cama, afagando-lhe o ombro. Houve inclusive uma ocasião em que essa impressão foi mais intensa, porque lhe pareceu que chamavam pelo seu nome e levantou-se dum salto da cama e viu nitidamente o pai, não sentado no colchão, mas de pé na soleira da porta, olhava-o em silêncio, e a sua silhueta fosforescia vagamente na penumbra do corredor, para logo depois se esfumar como qualquer imagem vívida dum sonho que se desvanece quando acordamos.
     Os anos passaram, e essas impressões quase místicas que tinha sobre a presença ou a proximidade do pai, passaram também, sombra débil de algo que parece nunca ter existido. A criança desses dias cresceu, fez-se um homem, com a opções e os erros e as partidas e despedidas da vida de todos os homens e, quando deu por ela, encontrava-se numa cama de hospital, envelhecido e debilitado, a recuperar de ferimentos originados por um acidente de automóvel no qual mergulhara completamente embriagado - o álcool, sempre o álcool, a fechar-lhe as portas em volta, e a isolá-lo dos amigos e da família. Adormeceu naquela cama de hospital sob o efeito dos calmantes que lhe haviam administrado (não parava de suplicar e exigir que lhe trouxessem bebidas) e quando despertou desse pesado sono induzido, sentiu de novo a presença do pai ao seu lado, impressão antiga, arqueológica, que desejou manter inalterável, mantendo os olhos fechados. Não era, de foram alguma, um sonho, podia sentir a presença dele, o calor da sua mão no seu ombro, o peso do seu corpo a exercer a força gravítica sobre o colchão rijo da cama de hospital. Abriu os olhos de mansinho e o pai surgiu diante dos seus olhos, tinha vestido (ou seria impressão sua?) o mesmo fato azul de riscas com que o vira pela última vez, e, como naquela outra noite, há muitos anos, a sua silhueta, o seu corpo, fosforesciam com uma luz pálida de insecto nocturno.
     - Vou viajar - falou finalmente o pai, com a mesma voz que lhe recordava - mas, desta vez, gostava que fosses comigo.
     Um alarme retiniu no seu espírito como uma inopinada descarga eléctrica. A cama de hospital, o silêncio lúgubre em volta, o seu pai a brilhar ao pé de si como um anjo compassivo - tudo começava a fazer sentido.
     - Estou morto, não é, pai? Estou morto e vieste para ao pé de mim para eu não sentir medo. É isso, não é?
     O pai sorriu, e explicou.
     - Não, claro que não. Estás bem vivo, mas vamos os dois de viagem. As estrelas esperam por nós.


Geena

                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma ...