o lugar certo

      A alta e elegante secretária entrou no átrio do prédio de escritórios, tiquetaqueando os sapatos altos no mosaico reluzente. Sorriso encantador, o cabelo a menear sobre as orelhas com os seus delicados movimentos da cabeça, e as mãos em concha - dedos finos, unhas compridas de gel de cor vermelha - a segurar um solitário ovo de cobra. Cumprimentou o segurança, piscando-lhe o olho com malícia, e cumprimentou da mesma forma o ascensorista no seu cubículo apinhado de gente, tudo gente que ela conhecia e tratava por tu, meia-conversa com este, um gracejo com aquela, um ténue roçar de ancas com o revisor de contas que trabalhava no piso de baixo e, finalmente, chegou ao piso de escritórios em que trabalhava.
    Mal saiu do elevador, foi directo ao seu destino. Ignorou a recepcionista que lhe quis dar um recado, as conversas de circunstância que outras tentaram iniciar consigo sem qualquer êxito, e esgueirou-se pelos corredores de gabinetes até à sala de reuniões dos accionistas da empresa. Uma reunião estava iminente. Podia-se perceber isso pelos cinzeiros limpos dispostos a intervalos regulares, pela temperatura do ar condicionado e, sobretudo, pelas garrafas de água pequenas, uma diante da cada cadeira em volta da comprida mesa oblonga. Ao topo da mesa, a cadeira de espaldar mais alto assinalava o lugar do presidente, do macho alfa.  Foi aí que a secretária depositou o ovo de cobra, bem no centro do assento de cabedal. Pronto para ser chocado.

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