jota

   J. tinha emprego, o que nem todos podiam dizer, também era casado, tinha filhos e família chegada.
   J. estava bem integrado na comunidade, tinha amigos de longa e breve data, colegas leais no trabalho, a estima dos superiores, e contava com a afável simpatia de vizinhos e forasteiros. Também contribuía para tal o facto de J. ser uma pessoa honesta e cumpridora, participar nas celebrações e iniciativas da igreja local, fazer trabalho comunitário, e nunca virar as costas às solicitações e apelos dos necessitados e de todos aqueles que trabalhavam para os ajudar.
   J. tinha uma vida preenchida e sentia-se realizado em todos os sentidos, e era improvável que tivesse outro fim que não fosse morrer durante o sono numa idade avançada apenas para comover meio mundo com a sua partida (isto porque aspirar a viver para sempre seria um prémio exagerado, mesmo para uma pessoa notável como J.).
  Não direi, porque não sou um desmancha-prazeres, que J, teve um qualquer fim diverso desse. Apenas que, se ninguém lhe dissesse, J. nunca descobriria que vivia numa prisão e que a arquitectura da sua prisão era real, ainda que quase não sentisse o seu peso.
   Mas eu disse-lhe, e isso abalou-o mais do que eu esperava. E ainda que, reforço isso, eu não seja nenhum desmancha-prazeres, só vos posso dizer que o fim de J., o desenlace da sua vida exemplar e regrada, não foi morrer durante o sono numa idade avançada.

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