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Humanário


     Jorge Mendonça, é uma variante peculiar da espécie Homo Sapiens Sapiens.  Como outros ramos da espécie, Jorge Mendonça possui dois braços e duas pernas e posição erecta do corpo. No que difere deles, Jorge Mendonça conta com olhos de tamanho médio dum e doutro lado da secção superior da cana do nariz, sobrancelhas felpudas, boca de tamanho e espessura médias e queixo pequeno e arredondado. Mas o que torna Jorge Mendonça taxonomicamente diferente de todas as variantes de Homo Sapiens Sapiens, é que este subtipo, apesar de contar apenas com orelhas pequenas e comuns, consegue, ao contrário dos outros, ouvir o que os outros lhe dizem, e até perceber o que lhe procuram dizer.

jota

   J. tinha emprego, o que nem todos podiam dizer, também era casado, tinha filhos e família chegada.
   J. estava bem integrado na comunidade, tinha amigos de longa e breve data, colegas leais no trabalho, a estima dos superiores, e contava com a afável simpatia de vizinhos e forasteiros. Também contribuía para tal o facto de J. ser uma pessoa honesta e cumpridora, participar nas celebrações e iniciativas da igreja local, fazer trabalho comunitário, e nunca virar as costas às solicitações e apelos dos necessitados e de todos aqueles que trabalhavam para os ajudar.
   J. tinha uma vida preenchida e sentia-se realizado em todos os sentidos, e era improvável que tivesse outro fim que não fosse morrer durante o sono numa idade avançada apenas para comover meio mundo com a sua partida (isto porque aspirar a viver para sempre seria um prémio exagerado, mesmo para uma pessoa notável como J.).
  Não direi, porque não sou um desmancha-prazeres, que J, teve um qualquer fim diverso desse. Apenas que, se ninguém lhe dissesse, J. nunca descobriria que vivia numa prisão e que a arquitectura da sua prisão era real, ainda que quase não sentisse o seu peso.
   Mas eu disse-lhe, e isso abalou-o mais do que eu esperava. E ainda que, reforço isso, eu não seja nenhum desmancha-prazeres, só vos posso dizer que o fim de J., o desenlace da sua vida exemplar e regrada, não foi morrer durante o sono numa idade avançada.

Os cruzados


   - Vai, Boors, procura o Santo Graal!  - disseram a uma voz Merlin e Artur, e a Galahad – Vai Galahad, encontra o Santo Graal!
   E o mesmo a Bedwyr, Boors, Ivain, Gauvain…
   Enquanto os melhores cavaleiros do reino partiam em busca do mítico cálice sagrado, Artur e Merlin ficavam mais à vontade para se apropriarem do desprotegido tesouro de Camelot.

espaço vital

   O passageiro saiu por engano do comboio num apeadeiro levantado em nenhures. Quando deu pelo engano, já o comboio se afastava irremediavelmente. Suspirou e olhou em volta. Para além do apeadeiro, só havia uma meia-dúzia de casas meio derruídas e, em volta, apenas deserto pedregoso e ocre, marcado por fundas crateras de antigas explosões. Aproximou-se das casas e alegrou-se por avistar lá pessoas. Não eram muitas, porque só viu dois homens que se socavam com violência numa nuvem de poeira num pequeno largo, e uma mulher magra e esquálida que os observava sentada num degrau à sombra. Eles não paravam de lutar, pelo que se aproximou da mulher e perguntou.
   - Porque é que eles lutam?
   Ela encolheu os ombros.
   - Havia aqui um país antes, antes da guerra e antes de ter desaparecido. Agora só cá estamos nós...
   - E é por isso que lutam?
   - Sim, claro, somos três pessoas, e não há aqui lugar para todos nós...




o lugar certo

      A alta e elegante secretária entrou no átrio do prédio de escritórios, tiquetaqueando os sapatos altos no mosaico reluzente. Sorriso encantador, o cabelo a menear sobre as orelhas com os seus delicados movimentos da cabeça, e as mãos em concha - dedos finos, unhas compridas de gel de cor vermelha - a segurar um solitário ovo de cobra. Cumprimentou o segurança, piscando-lhe o olho com malícia, e cumprimentou da mesma forma o ascensorista no seu cubículo apinhado de gente, tudo gente que ela conhecia e tratava por tu, meia-conversa com este, um gracejo com aquela, um ténue roçar de ancas com o revisor de contas que trabalhava no piso de baixo e, finalmente, chegou ao piso de escritórios em que trabalhava.
    Mal saiu do elevador, foi directo ao seu destino. Ignorou a recepcionista que lhe quis dar um recado, as conversas de circunstância que outras tentaram iniciar consigo sem qualquer êxito, e esgueirou-se pelos corredores de gabinetes até à sala de reuniões dos accionistas da empresa. Uma reunião estava iminente. Podia-se perceber isso pelos cinzeiros limpos dispostos a intervalos regulares, pela temperatura do ar condicionado e, sobretudo, pelas garrafas de água pequenas, uma diante da cada cadeira em volta da comprida mesa oblonga. Ao topo da mesa, a cadeira de espaldar mais alto assinalava o lugar do presidente, do macho alfa.  Foi aí que a secretária depositou o ovo de cobra, bem no centro do assento de cabedal. Pronto para ser chocado.

aviso:

    Se não me encontrares nos lugares de todos os dias, procura-me no outro lado do tempo, onde as nossas memórias desfilam a par como dois potros ébrios de felicidade a correr em planícies inundadas de sol.

o tempo e antes disso

     - Estás de férias? Uma semana? Um mês?
    O velhote cofiou as suas barbas, e afeiçoou sobre os joelhos magros a túnica roída pelas traças.
    - Estou de férias desde o Big Bang, e até antes disso...
    - Uau!! Como eu te invejo! A mim nunca me deixam estar de férias mais do que duas semanas seguidas ao ano...

O reencontro

      A última vez que viu o pai foi numa manhã do mês de Setembro, uma manhã ainda noite. Ainda era uma criança, devia contar com uns oito ou nove anos, e acordou com ele a afagar-lhe o ombro no escuro do quarto. Estranhou que o pai estivesse vestido com o seu fato azul escuro de riscas brancas, com o casaco do fato dobrado sobre a perna esquerda, e foi isso que o despertou por completo.
    - Adeus, filho! - ouviu o pai dizer - gosto muito de ti!
    Soergueu-se na cama, alertado pelas suas palavras. Aceitou e correspondeu ao seu abraço enérgico, e ficou  como que estarrecido enquanto ele se afastava com passos arrastados, passando junto à sua mãe, que os contemplava da soleira da porta.
     Foi a última vez que viu o pai, e nunca mais soube nada dele, o que fora feito daquele homem ou quais os países ou planetas para onde havia viajado depois de ter saído das suas vidas, vestido com o melhor fato que tinha. Ao longo dos anos, foram incontáveis as vezes em que saíra do sono e lhe parecera que o pai estava sentado ao pé de si na cama, afagando-lhe o ombro. Houve inclusive uma ocasião em que essa impressão foi mais intensa, porque lhe pareceu que chamavam pelo seu nome e levantou-se dum salto da cama e viu nitidamente o pai, não sentado no colchão, mas de pé na soleira da porta, olhava-o em silêncio, e a sua silhueta fosforescia vagamente na penumbra do corredor, para logo depois se esfumar como qualquer imagem vívida dum sonho que se desvanece quando acordamos.
     Os anos passaram, e essas impressões quase místicas que tinha sobre a presença ou a proximidade do pai, passaram também, sombra débil de algo que parece nunca ter existido. A criança desses dias cresceu, fez-se um homem, com a opções e os erros e as partidas e despedidas da vida de todos os homens e, quando deu por ela, encontrava-se numa cama de hospital, envelhecido e debilitado, a recuperar de ferimentos originados por um acidente de automóvel no qual mergulhara completamente embriagado - o álcool, sempre o álcool, a fechar-lhe as portas em volta, e a isolá-lo dos amigos e da família. Adormeceu naquela cama de hospital sob o efeito dos calmantes que lhe haviam administrado (não parava de suplicar e exigir que lhe trouxessem bebidas) e quando despertou desse pesado sono induzido, sentiu de novo a presença do pai ao seu lado, impressão antiga, arqueológica, que desejou manter inalterável, mantendo os olhos fechados. Não era, de foram alguma, um sonho, podia sentir a presença dele, o calor da sua mão no seu ombro, o peso do seu corpo a exercer a força gravítica sobre o colchão rijo da cama de hospital. Abriu os olhos de mansinho e o pai surgiu diante dos seus olhos, tinha vestido (ou seria impressão sua?) o mesmo fato azul de riscas com que o vira pela última vez, e, como naquela outra noite, há muitos anos, a sua silhueta, o seu corpo, fosforesciam com uma luz pálida de insecto nocturno.
     - Vou viajar - falou finalmente o pai, com a mesma voz que lhe recordava - mas, desta vez, gostava que fosses comigo.
     Um alarme retiniu no seu espírito como uma inopinada descarga eléctrica. A cama de hospital, o silêncio lúgubre em volta, o seu pai a brilhar ao pé de si como um anjo compassivo - tudo começava a fazer sentido.
     - Estou morto, não é, pai? Estou morto e vieste para ao pé de mim para eu não sentir medo. É isso, não é?
     O pai sorriu, e explicou.
     - Não, claro que não. Estás bem vivo, mas vamos os dois de viagem. As estrelas esperam por nós.


O homem mais alto do mundo

    O homem mais alto do mundo mede 2,53 metros, chama-se Kyi e vive em Akyab, junto à baía de Bengala. Kyi é o símbolo e o orgulho de Akyab e do país inteiro. Acarinhado por todos, nunca lhe falta comida nem um tecto acolhedor sobre o qual dormir, e até dispõe duma escolta armada para o proteger vinte e quatro sobre vinte e quatro horas. Esses militares que o guardam e defendem são os mesmos que, todos os dias e durante um período de aproximadamente três horas, o dependuram de uma Figueira da Índia com uma corda passada sob as axilas, para esticar os seus ossos na esperança de que não deixe de ser o homem mais alto do mundo e o orgulho de Akyab e do país inteiro.


O mentor

Desenho anatómico executado por Leonardo Da Vinci (Royal Library, Castelo de Windsor)                 - Acorda, meu pequeno! Vais c...