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A mostrar mensagens de Julho, 2012

Humanário

Jorge Mendonça, é uma variante peculiar da espécie Homo Sapiens Sapiens.  Como outros ramos da espécie, Jorge Mendonça possui dois braços e duas pernas e posição erecta do corpo. No que difere deles, Jorge Mendonça conta com olhos de tamanho médio dum e doutro lado da secção superior da cana do nariz, sobrancelhas felpudas, boca de tamanho e espessura médias e queixo pequeno e arredondado. Mas o que torna Jorge Mendonça taxonomicamente diferente de todas as variantes de Homo Sapiens Sapiens, é que este subtipo, apesar de contar apenas com orelhas pequenas e comuns, consegue, ao contrário dos outros, ouvir o que os outros lhe dizem, e até perceber o que lhe procuram dizer.

jota

J. tinha emprego, o que nem todos podiam dizer, também era casado, tinha filhos e família chegada.
   J. estava bem integrado na comunidade, tinha amigos de longa e breve data, colegas leais no trabalho, a estima dos superiores, e contava com a afável simpatia de vizinhos e forasteiros. Também contribuía para tal o facto de J. ser uma pessoa honesta e cumpridora, participar nas celebrações e iniciativas da igreja local, fazer trabalho comunitário, e nunca virar as costas às solicitações e apelos dos necessitados e de todos aqueles que trabalhavam para os ajudar.
   J. tinha uma vida preenchida e sentia-se realizado em todos os sentidos, e era improvável que tivesse outro fim que não fosse morrer durante o sono numa idade avançada apenas para comover meio mundo com a sua partida (isto porque aspirar a viver para sempre seria um prémio exagerado, mesmo para uma pessoa notável como J.).
  Não direi, porque não sou um desmancha-prazeres, que J, teve um qualquer fim diverso desse. Apena…

Os cruzados

- Vai, Boors, procura o Santo Graal!  - disseram a uma voz Merlin e Artur, e a Galahad – Vai Galahad, encontra o Santo Graal!    E o mesmo a Bedwyr, Boors, Ivain, Gauvain…    Enquanto os melhores cavaleiros do reino partiam em busca do mítico cálice sagrado, Artur e Merlin ficavam mais à vontade para se apropriarem do desprotegido tesouro de Camelot.

espaço vital

O passageiro saiu por engano do comboio num apeadeiro levantado em nenhures. Quando deu pelo engano, já o comboio se afastava irremediavelmente. Suspirou e olhou em volta. Para além do apeadeiro, só havia uma meia-dúzia de casas meio derruídas e, em volta, apenas deserto pedregoso e ocre, marcado por fundas crateras de antigas explosões. Aproximou-se das casas e alegrou-se por avistar lá pessoas. Não eram muitas, porque só viu dois homens que se socavam com violência numa nuvem de poeira num pequeno largo, e uma mulher magra e esquálida que os observava sentada num degrau à sombra. Eles não paravam de lutar, pelo que se aproximou da mulher e perguntou.
   - Porque é que eles lutam?
   Ela encolheu os ombros.
   - Havia aqui um país antes, antes da guerra e antes de ter desaparecido. Agora só cá estamos nós...
   - E é por isso que lutam?
   - Sim, claro, somos três pessoas, e não há aqui lugar para todos nós...




o lugar certo

A alta e elegante secretária entrou no átrio do prédio de escritórios, tiquetaqueando os sapatos altos no mosaico reluzente. Sorriso encantador, o cabelo a menear sobre as orelhas com os seus delicados movimentos da cabeça, e as mãos em concha - dedos finos, unhas compridas de gel de cor vermelha - a segurar um solitário ovo de cobra. Cumprimentou o segurança, piscando-lhe o olho com malícia, e cumprimentou da mesma forma o ascensorista no seu cubículo apinhado de gente, tudo gente que ela conhecia e tratava por tu, meia-conversa com este, um gracejo com aquela, um ténue roçar de ancas com o revisor de contas que trabalhava no piso de baixo e, finalmente, chegou ao piso de escritórios em que trabalhava.
    Mal saiu do elevador, foi directo ao seu destino. Ignorou a recepcionista que lhe quis dar um recado, as conversas de circunstância que outras tentaram iniciar consigo sem qualquer êxito, e esgueirou-se pelos corredores de gabinetes até à sala de reuniões dos accionistas da e…

aviso:

Se não me encontrares nos lugares de todos os dias, procura-me no outro lado do tempo, onde as nossas memórias desfilam a par como dois potros ébrios de felicidade a correr em planícies inundadas de sol.

o tempo e antes disso

- Estás de férias? Uma semana? Um mês?
    O velhote cofiou as suas barbas, e afeiçoou sobre os joelhos magros a túnica roída pelas traças.
    - Estou de férias desde o Big Bang, e até antes disso...
    - Uau!! Como eu te invejo! A mim nunca me deixam estar de férias mais do que duas semanas seguidas ao ano...

O reencontro

A última vez que viu o pai foi numa manhã do mês de Setembro, uma manhã ainda noite. Ainda era uma criança, devia contar com uns oito ou nove anos, e acordou com ele a afagar-lhe o ombro no escuro do quarto. Estranhou que o pai estivesse vestido com o seu fato azul escuro de riscas brancas, com o casaco do fato dobrado sobre a perna esquerda, e foi isso que o despertou por completo.
    - Adeus, filho! - ouviu o pai dizer - gosto muito de ti!
    Soergueu-se na cama, alertado pelas suas palavras. Aceitou e correspondeu ao seu abraço enérgico, e ficou  como que estarrecido enquanto ele se afastava com passos arrastados, passando junto à sua mãe, que os contemplava da soleira da porta.
     Foi a última vez que viu o pai, e nunca mais soube nada dele, o que fora feito daquele homem ou quais os países ou planetas para onde havia viajado depois de ter saído das suas vidas, vestido com o melhor fato que tinha. Ao longo dos anos, foram incontáveis as vezes em que saíra do sono e lhe p…

O homem mais alto do mundo

O homem mais alto do mundo mede 2,53 metros, chama-se Kyi e vive em Akyab, junto à baía de Bengala. Kyi é o símbolo e o orgulho de Akyab e do país inteiro. Acarinhado por todos, nunca lhe falta comida nem um tecto acolhedor sobre o qual dormir, e até dispõe duma escolta armada para o proteger vinte e quatro sobre vinte e quatro horas. Esses militares que o guardam e defendem são os mesmos que, todos os dias e durante um período de aproximadamente três horas, o dependuram de uma Figueira da Índia com uma corda passada sob as axilas, para esticar os seus ossos na esperança de que não deixe de ser o homem mais alto do mundo e o orgulho de Akyab e do país inteiro.