Um casburro

    Perdeu a vida porque não ligou nenhuma aos sinais de aviso. O primeiro sinal de aviso aconteceu uma manhã quando saía da casa para o trabalho. Sentiu a pulsação acelerar-se bruscamente, e um peso doloroso no peito como se alguém lhe empurrasse o seu coração para dentro com manápulas de aço. Sentou-se nos degraus até se sentir melhor e depois retomou o caminho para o trabalho. Julgam que ele tomou alguma providência? Foi ao médico, ao cardiologista, pediu para lhe fazerem exames? Não, claro que não; nada fez e prosseguiu com a sua vidinha de todos os dias a uma velocidade de cruzeiro. E foi aí que ocorreu o segundo sinal de aviso (e o último, adiantamos já). Tinha acabado de ter relações com uma namorada de ocasião, e saiu da cama e foi até à cozinha, onde bebeu um copo de água bem gelada enquanto preparava uma omelete. Sentiu outra vez a dor, agora mais forte, e sentou-se numa cadeira, ofegante, com uma agonia gelada no peito e as têmporas a latejarem-lhe com força. Também desta vez, as coisas normalizaram, a dor amainou, e ele deitou aquela omelete para o lixo, e preparou outra que levou para o quarto, sem dar parte de fraco. Amanhã, vou ao médico, prometeu a si mesmo, mas não o fez no dia seguinte, nem no que se lhe seguiu. E como acontece aos imprudentes que troçam dos sinais de aviso, só o pior lhe podia estar reservado. No final daquela semana, saiu de manhã de casa, como todas as manhãs, e foi atropelado por um camião, um Scania, que o fez em picado. Se existe Providência, porque é que ela desperdiça sinais de aviso num tipo casmurro como este?

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