o lixo

   - Gostamos do teu trabalho! - disseram ao novel escritor de novelas naquele gabinete abafado da editora - Queres trabalhar para nós?
   - Nada me daria mais prazer. Quando é que posso começar? Como vos disse, tenho vários originais em fase final de elaboração...
   - Calma, muita calma! - aconselharam - temos uma proposta para ti, também muito original - como sabes, estamos a atravessar uma crise pavorosa, e não é pelo comércio das palavras que as coisas irão ao lugar, por isso não vale a pena usarmos os teus préstimos por aquilo que a tua pena possa produzir...
   - Gostei da frase! - admitiu o novel escritor de novelas.
   - Muito literária, não foi? São cócegas do ofício.Voltando à proposta que temos para ti, enquanto procuramos um nicho editorial onde possamos encaixar as tuas obras de ficção, podias trabalhar para nós como paquete.
   ...cortar a relva dos nossos jardins - acrescentou outro. E os outros:
   ...levar a mulher ao curso de Feng Shui.
   ...as crianças à escola.
   ...os cães a passear no parque.
   ...lavar as escadas do meu prédio para eu poupar nas despesas de condomínio.
   ...correr com o arrumador de carros que todos os dias me espera na entrada da minha própria garagem.
   O novel escritor de novelas ficou um pouco confundido. Tantas tarefas e, se calhar, sem remuneração...mas, ao menos, estava no ramo.
   - E o nicho editorial? Prometem-me que procurarão esse nicho editorial até o encontrarem?
   - Claro que sim, meu caro, não descansaremos enquanto não encontrarmos um nicho editorial só para ti, e até, se quiseres, providenciaremos para ti um caixote de nichos editoriais...


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