Ficções sobre uma Biblioteca (3): A Taxonomista


Em tempos idos a biblioteca da cidade das Caldas da Rainha funcionava – como já por aqui disse – nos pavilhões Berquó, nos parques da cidade. Ocupava uma das alas dos pavilhões num tempo em que no mesmo edifício funcionava o Liceu, o que lhe dava algum enquadramento e sentido. Na Biblioteca, sempre conheci as mesmas duas bibliotecárias, que cumpriam a sua função como cumprem os livros antigos encadernados - eram úteis e eficazes mas não lhes podíamos pedir muito mais, nem pensar que se prestariam a sair das suas rotinas e territórios estritos, das estantes em que se sentiam confortáveis; mas, durante alguns meses largos, talvez por motivos de saúde, uma delas foi substituída por uma outra bibliotecária, um pouco mais nova. Esta bibliotecária forasteira era muito segura de si, e possuía aquela arrogância que o saber livresco incute nalgumas pessoas, como se vissem todas as coisas e todos os horizontes com o sapiente traseiro apoiado no cume da pirâmide de livros à qual escalaram. Tinha sempre alguma coisa a dizer, um reparo, uma observação erudita aos livros que requisitávamos ou devolvíamos à biblioteca.
Um dia requisitei um romance de Hemingway e ela: “Hemingway?! Quem lê um livro, lê todos! Ele usa e abusa do mesmo estilo, orações curtas, frasezinhas encadeadas umas nas outras e diálogos paupérrimos. E ler Hemingway também tem a desvantagem de ter demasiadas obras adaptadas ao cinema. Eu não seria capaz de ler “Por Quem os Sinos Dobram” porque estaria sempre a lembrar-me do diálogo final do filme, e de ali nos dizerem que os sinos dobram por todos nós”.
De Pitigrilli ela disse quase o mesmo, também de Nietzsche e Steinbeck, Sartre e Dostoievsky – dizem sempre o mesmo, ou as suas histórias são quase sempre parecidas, quem lê um livro, lê-os a todos.
Com Kafka foi mais incisiva e perguntou-me: “O que é que você leu de Kafka?” – “Só O Processo!” confessei e ela, de imediato, aconselhou: “Não leia mais nada dele, porque não vale mesmo a pena. Quem leu um livro de Kafka, leu-os a todos!”.
Agradeci o conselho mas requisitei à mesma o livro. Poucos meses depois, entramos em Janeiro, e havia que actualizar as fichas de leitor na Biblioteca e ela passa a vista pela minha ficha de leitor do ano anterior e pergunta-me:
- Você nasceu a um de Maio?! Então é nativo de Touro, paciente e persistente, calmo e reservado, fiável e perfeccionista. Também me parecia que você era de Touro, na verdade, quem conhece um nativo de Touro, conhece-os a todos!

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