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Ficções sobre uma Biblioteca 2: O Bat-Chance



No tempo em que a Biblioteca e o Liceu das Caldas da Rainha estavam sediadas nos pavilhões Berquó, eu estudava na Técnica, a escola dos grunhos, dos retornados e dos parolos (pelo menos, essa era a opinião ventilada por alguns alunos do Liceu, e respectivas famílias), e aproveitava a ida à Biblioteca para cirandar pelos corredores do Liceu e admirar as alunas que ali estudavam. Ia com alguns colegas de turma, em pequenos grupos, porque era mais prudente, e eu, como andava sempre com um livro á trela, encabeçava o grupo, fingindo que nos dirigíamos para alguma sala, ou que íamos realizar algum trabalho de grupo. As vezes, as contínuas (traduzindo: auxiliares de acção educativa), topavam-nos à distância e mandavam-nos abandonar o edifício, outras vezes, era um dos queques que se armava aos cucos e nos mandava ir embora, ou ia chamar a contínua em alta-voz para o fazer, como se tivéssemos lepra. Raramente se ficavam a rir, porque tinha um colega calmeirão, o Bat-chance de alcunha, que lhes tirava o retrato e que quando o apanhava cá fora, era menino para chegar ao pé dele e dar um par de estalos, ou então, emboscava-se atrás dum plátano, e quando ele passava airosamente como um pardal, arremessava-lhe com destreza um seixo que lhe acertava em cheio na cabeça como se tivesse usado uma fisga.
O Bat-Chance era o aluno-tipo da minha turma do 7º ano, que foi a turma mais problemática que integrei. Pareciam ter concentrado nela todos os alunos que possuíam origens modestas, e os que revelavam distúrbios de comportamento - estavam nela os que vinham dos meios rurais fora da cidade, os retornados das ex-colónias como eu (alguns deles a morar no antigo Hotel Lisbonense, antes da completa ruína), e uma dúzia de alunos que poderiam povoar os pesadelos de qualquer professor.
Curiosamente, era um grupo coeso e unido. Os mais pacatos como eu seguiam na peugada dos mais indomáveis, e quando algum rufia doutra turma se lembrava de dar um calduço ou pregar uma rasteira nalgum de nós, era certo e sabido que os calmeirões da nossa turma se encarregariam do troco sem que a gente lhes pedisse o que quer que fosse. Na disciplina de Geografia, as instruções gerais, para rapazes e raparigas, era irem sempre chegando à sala de aulas com alguns minutos de intervalo. Tocava para a entrada e meia-dúzia de alunos comparecia. Fechava-se a porta e os restantes começavam a chegar. Batia-se à porta, o professor abria-a e lá estavam mais dois, recomeçava a chamada e batiam novamente á porta, e mais dois entravam, o professor alternava a chamada com o abrir da porta, e a meio da aula desistia da chamada e deixava a porta aberta, e os restantes iam entrando à vez, com pouca discrição e não menos barulho. No final da aula, o programa continuava por dar, mas o professor nunca marcava falta a ninguém, talvez por gostar imenso de nós.
Mas o mais castigado dos nossos bem-intencionados professores era a professora de Ciências da Natureza, uma professora muito baixinha de cabelos pretos lustrosos sempre apanhados na nuca por um elástico de cabelo, e se a professora era pequena, a sua voz era ainda mais chã e inaudível, inapropriada para fins disciplinares ou de autoridade. Nunca tive tanta pena dalguém como daquela professora de Ciências que, no entanto, com o tempo, revelou ser uma Ulisses de saias, uma pessoa inteligente que com a astúcia removia obstáculos maiores do que ela. A partida mais cruel que lhe pregavam no início do ano era esconderem o giz do quadro antes dela entrar na sala. A reacção era previsível, entrávamos todos com ela e, minutos depois, ela saía novamente para ir pedir giz à contínua. Quando voltava, sucedia-lhe um de dois percalços. Ou deixavam o apagador equilibrado no cimo da porta de modo que caísse sobre ela quando reentrava (nessa, só caiu nas duas primeiras vezes, como é óbvio) ou, o que era mais comum, separavam as duas partes que compunham a sua cadeira rotativa de madeira, colocando-as nos dois cantos do fundo da sala, obrigando-a a um périplo esforçado para repor a ordem das coisas e poder iniciar a aula. Antes do final do segundo mês de aulas com ela, já ela trazia sempre com ela alguns paus de giz dentro dum saquinho de plástico, anulando as iniciativas de sabotagem da aula. E foi aí que começou a odisseia do Bat-Chance. Para a professora de Ciências, o Bat-Chance representava a cabeça da cobra, o inimigo mais visível e mais poderoso, e lá deve ter pensado consigo que se o conseguisse vergar e domar, o resto da turma viria comer à sua mão como um rebanho de anhos. O seu alegórico braço de ferro com o Bat-Chance deu-se com o casaco deste. Bat-Chance usava sempre pelos ombros um casaco de cabedal castanho (ou imitação), sem nunca o vestir. Quando todos nos sentávamos, a professora dizia-lhe para vestir o casaco ou colocá-lo nas costas da cadeira porque não tolerava comportamentos desleixados. Bat-Chance obedecia e punha o casaco nas costas da cadeira mas, mal ela voltava costas, ele voltava a puxá-lo para cima dos ombros, e a ordem repetia-se umas cinco a dez vezes ao longo da aula e em todas as aulas que tínhamos com ela. Ela não desistia e ele não vergava. Se ela andava mais ou menos bem, conseguia reprimir os nervos, ignorar o Bat-Chance e dar a matéria, mas em dias em que andava mais susceptível, não aguentava a aula inteira e saía da sala em pranto com os nervos. Apesar dalguns apelos das raparigas da turma, mais compassivas, o Bat-Chance nunca baixou a guarda, até porque isso o convertera no herói da turma e de todo o 7º ano.
Ela lá foi aguentando entre crises de nervos e alturas menos más em que deveria andar meio dopada com comprimidos e, já no segundo período, ela acabou por nos surpreender uma vez mais. Começou a aparecer na escola na companhia dum tipo alto e atlético que tinha um caparro de respeito, vinha com ele no carro, entravam de braço dado na escola, e muitas vezes ele fazia-lhe companhia à porta da sala até soar o toque para a entrada. O tipo deveria ser halterofilista ou coisa do género, tinha um pescoço grosso que fazia dois do pescoço dum homem comum, e enquanto estava com ela, olhava-nos com ar de desafio, entre trocista e ameaçador. Eu ainda pus a hipótese dele não ter nada com a professora e de ser mais um ardil dela para nos por na linha, podia ser professor de ginástica noutra escola, ou instrutor de artes marciais, e ela andar a pagar-lhe pela escolta. Os meus colegas concordavam, mas o que era verdade, é que aquela turma mudou completamente o comportamento nas aulas de Ciências. Deixaram de existir casacos pelas costas, partidas, interrupções ruidosas; e mesmo quando o seu musculado companheiro deixou de aparecer, essa atitude ordeira manteve-se e a própria professora, por reflexo, começou a revelar-se mais confiante, e deixou de ter qualquer reserva em dar uma reprimenda ou mandar alguém calar-se. E todos obedeciam, com Bat-Chance na primeira linha. Este foi outra surpresa. O facto da professora exibir o suposto namorado revelou aos olhos dele que ela, afinal, era uma mulher, uma mulher de carne e osso de voz doce e suave que crescia aos seus olhos, e para isso contribuía ela ter melhorado na aparência e usar agora uma maquilhagem cuidada, e o cabelo solto e esvoaçante como nos anúncios de champôs; para cúmulo, começara a usar saias mais curtas do que antes, o que decuplicava o interesse dos rapazes e, muito particularmente, do Bat-Chance, que se rendia cada vez mais aos seus encantos como um rude Hércules fiando aos pés de Ônfale. Por meias-palavras de Bat-Chance, apercebemo-nos de que estava apaixonado pela professora, circunstância que fingíamos não ter notado, para bem da nossa integridade física.
Aquele foi o único ano em que tive o Bat-Chance como colega e também o último em que tive aulas com aquela professora, e nunca soube o que foi feito deles, mas não posso deixar de apontar que, já depois do fim das aulas, e quando fora à cidade para ver as pautas, os vi aos dois no parque, a conversar junto à rede do court de ténis. Estavam um diante do outro, ele falava e ela parecia ouvir com muita atenção, mas as mãos de um e de outro tocavam-se, suspensas pelos indicadores dobrados. Pareceu-me que ele estava completamente domado.

Geena

                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma ...