INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

a inteligência dos animais

   Quando eu era mais puto passava na televisão, nas tardes de Domingo, uns filmes americanos com animais que poderiam ser vistos como enternecedores ou deprimentes (o que era o meu caso). Eram sempre filmes um pouco antigos, dos finais dos anos sessenta ou princípios de setenta, que contavam sempre com uma ou mais crianças, e um animal (um cão, um gato ou um cavalo) que eram relacionados num enredo em que uns se perdiam dos outros, e o animal em foco mostrava que era corajoso, que era inteligente, ou que podia ser o centro afectuoso duma família e, aparentemente, sem precisar ser alimentado e sem libertar fezes.
   Sempre pensei que essas histórias com animais inteligentes, eram uma ficção, histórias inventadas para fabricar filmes e deprimir adolescentes e jovens; mas tive, muito recentemente, a prova de que a inteligência dos animais é um facto indesmentível.
   Eu estive há pouco de férias numa estância balnear e perdi lá o meu cão, um cão lindo, um Terrier australiano de pêlo dourado. Procurei-o, e pretendia continuar a procurá-lo até o encontrar, mas tinha forçosamente de regressar a casa porque havia esgotado os dias de férias e tinha de me apresentar no emprego. O incrível, é que o meu cão encontrou o caminho para casa e apareceu-me à porta três semanas depois, magro, sujo e cravado de carraças. Achei aquilo um fenómeno. Perdera-o a mais de duzentos quilómetros de distância e ele voltara pelos seus meios, palmilhando estradas, e atravessando rios e silvados, sempre com um fantástico sentido de orientação. E ali o tinha, o meu Terrier australiano. Para a próxima, tinha de o deixar ainda mais longe.

Ficções sobre uma Biblioteca (3): A Taxonomista


Em tempos idos a biblioteca da cidade das Caldas da Rainha funcionava – como já por aqui disse – nos pavilhões Berquó, nos parques da cidade. Ocupava uma das alas dos pavilhões num tempo em que no mesmo edifício funcionava o Liceu, o que lhe dava algum enquadramento e sentido. Na Biblioteca, sempre conheci as mesmas duas bibliotecárias, que cumpriam a sua função como cumprem os livros antigos encadernados - eram úteis e eficazes mas não lhes podíamos pedir muito mais, nem pensar que se prestariam a sair das suas rotinas e territórios estritos, das estantes em que se sentiam confortáveis; mas, durante alguns meses largos, talvez por motivos de saúde, uma delas foi substituída por uma outra bibliotecária, um pouco mais nova. Esta bibliotecária forasteira era muito segura de si, e possuía aquela arrogância que o saber livresco incute nalgumas pessoas, como se vissem todas as coisas e todos os horizontes com o sapiente traseiro apoiado no cume da pirâmide de livros à qual escalaram. Tinha sempre alguma coisa a dizer, um reparo, uma observação erudita aos livros que requisitávamos ou devolvíamos à biblioteca.
Um dia requisitei um romance de Hemingway e ela: “Hemingway?! Quem lê um livro, lê todos! Ele usa e abusa do mesmo estilo, orações curtas, frasezinhas encadeadas umas nas outras e diálogos paupérrimos. E ler Hemingway também tem a desvantagem de ter demasiadas obras adaptadas ao cinema. Eu não seria capaz de ler “Por Quem os Sinos Dobram” porque estaria sempre a lembrar-me do diálogo final do filme, e de ali nos dizerem que os sinos dobram por todos nós”.
De Pitigrilli ela disse quase o mesmo, também de Nietzsche e Steinbeck, Sartre e Dostoievsky – dizem sempre o mesmo, ou as suas histórias são quase sempre parecidas, quem lê um livro, lê-os a todos.
Com Kafka foi mais incisiva e perguntou-me: “O que é que você leu de Kafka?” – “Só O Processo!” confessei e ela, de imediato, aconselhou: “Não leia mais nada dele, porque não vale mesmo a pena. Quem leu um livro de Kafka, leu-os a todos!”.
Agradeci o conselho mas requisitei à mesma o livro. Poucos meses depois, entramos em Janeiro, e havia que actualizar as fichas de leitor na Biblioteca e ela passa a vista pela minha ficha de leitor do ano anterior e pergunta-me:
- Você nasceu a um de Maio?! Então é nativo de Touro, paciente e persistente, calmo e reservado, fiável e perfeccionista. Também me parecia que você era de Touro, na verdade, quem conhece um nativo de Touro, conhece-os a todos!

Ficções sobre uma Biblioteca 2: O Bat-Chance



No tempo em que a Biblioteca e o Liceu das Caldas da Rainha estavam sediadas nos pavilhões Berquó, eu estudava na Técnica, a escola dos grunhos, dos retornados e dos parolos (pelo menos, essa era a opinião ventilada por alguns alunos do Liceu, e respectivas famílias), e aproveitava a ida à Biblioteca para cirandar pelos corredores do Liceu e admirar as alunas que ali estudavam. Ia com alguns colegas de turma, em pequenos grupos, porque era mais prudente, e eu, como andava sempre com um livro á trela, encabeçava o grupo, fingindo que nos dirigíamos para alguma sala, ou que íamos realizar algum trabalho de grupo. As vezes, as contínuas (traduzindo: auxiliares de acção educativa), topavam-nos à distância e mandavam-nos abandonar o edifício, outras vezes, era um dos queques que se armava aos cucos e nos mandava ir embora, ou ia chamar a contínua em alta-voz para o fazer, como se tivéssemos lepra. Raramente se ficavam a rir, porque tinha um colega calmeirão, o Bat-chance de alcunha, que lhes tirava o retrato e que quando o apanhava cá fora, era menino para chegar ao pé dele e dar um par de estalos, ou então, emboscava-se atrás dum plátano, e quando ele passava airosamente como um pardal, arremessava-lhe com destreza um seixo que lhe acertava em cheio na cabeça como se tivesse usado uma fisga.
O Bat-Chance era o aluno-tipo da minha turma do 7º ano, que foi a turma mais problemática que integrei. Pareciam ter concentrado nela todos os alunos que possuíam origens modestas, e os que revelavam distúrbios de comportamento - estavam nela os que vinham dos meios rurais fora da cidade, os retornados das ex-colónias como eu (alguns deles a morar no antigo Hotel Lisbonense, antes da completa ruína), e uma dúzia de alunos que poderiam povoar os pesadelos de qualquer professor.
Curiosamente, era um grupo coeso e unido. Os mais pacatos como eu seguiam na peugada dos mais indomáveis, e quando algum rufia doutra turma se lembrava de dar um calduço ou pregar uma rasteira nalgum de nós, era certo e sabido que os calmeirões da nossa turma se encarregariam do troco sem que a gente lhes pedisse o que quer que fosse. Na disciplina de Geografia, as instruções gerais, para rapazes e raparigas, era irem sempre chegando à sala de aulas com alguns minutos de intervalo. Tocava para a entrada e meia-dúzia de alunos comparecia. Fechava-se a porta e os restantes começavam a chegar. Batia-se à porta, o professor abria-a e lá estavam mais dois, recomeçava a chamada e batiam novamente á porta, e mais dois entravam, o professor alternava a chamada com o abrir da porta, e a meio da aula desistia da chamada e deixava a porta aberta, e os restantes iam entrando à vez, com pouca discrição e não menos barulho. No final da aula, o programa continuava por dar, mas o professor nunca marcava falta a ninguém, talvez por gostar imenso de nós.
Mas o mais castigado dos nossos bem-intencionados professores era a professora de Ciências da Natureza, uma professora muito baixinha de cabelos pretos lustrosos sempre apanhados na nuca por um elástico de cabelo, e se a professora era pequena, a sua voz era ainda mais chã e inaudível, inapropriada para fins disciplinares ou de autoridade. Nunca tive tanta pena dalguém como daquela professora de Ciências que, no entanto, com o tempo, revelou ser uma Ulisses de saias, uma pessoa inteligente que com a astúcia removia obstáculos maiores do que ela. A partida mais cruel que lhe pregavam no início do ano era esconderem o giz do quadro antes dela entrar na sala. A reacção era previsível, entrávamos todos com ela e, minutos depois, ela saía novamente para ir pedir giz à contínua. Quando voltava, sucedia-lhe um de dois percalços. Ou deixavam o apagador equilibrado no cimo da porta de modo que caísse sobre ela quando reentrava (nessa, só caiu nas duas primeiras vezes, como é óbvio) ou, o que era mais comum, separavam as duas partes que compunham a sua cadeira rotativa de madeira, colocando-as nos dois cantos do fundo da sala, obrigando-a a um périplo esforçado para repor a ordem das coisas e poder iniciar a aula. Antes do final do segundo mês de aulas com ela, já ela trazia sempre com ela alguns paus de giz dentro dum saquinho de plástico, anulando as iniciativas de sabotagem da aula. E foi aí que começou a odisseia do Bat-Chance. Para a professora de Ciências, o Bat-Chance representava a cabeça da cobra, o inimigo mais visível e mais poderoso, e lá deve ter pensado consigo que se o conseguisse vergar e domar, o resto da turma viria comer à sua mão como um rebanho de anhos. O seu alegórico braço de ferro com o Bat-Chance deu-se com o casaco deste. Bat-Chance usava sempre pelos ombros um casaco de cabedal castanho (ou imitação), sem nunca o vestir. Quando todos nos sentávamos, a professora dizia-lhe para vestir o casaco ou colocá-lo nas costas da cadeira porque não tolerava comportamentos desleixados. Bat-Chance obedecia e punha o casaco nas costas da cadeira mas, mal ela voltava costas, ele voltava a puxá-lo para cima dos ombros, e a ordem repetia-se umas cinco a dez vezes ao longo da aula e em todas as aulas que tínhamos com ela. Ela não desistia e ele não vergava. Se ela andava mais ou menos bem, conseguia reprimir os nervos, ignorar o Bat-Chance e dar a matéria, mas em dias em que andava mais susceptível, não aguentava a aula inteira e saía da sala em pranto com os nervos. Apesar dalguns apelos das raparigas da turma, mais compassivas, o Bat-Chance nunca baixou a guarda, até porque isso o convertera no herói da turma e de todo o 7º ano.
Ela lá foi aguentando entre crises de nervos e alturas menos más em que deveria andar meio dopada com comprimidos e, já no segundo período, ela acabou por nos surpreender uma vez mais. Começou a aparecer na escola na companhia dum tipo alto e atlético que tinha um caparro de respeito, vinha com ele no carro, entravam de braço dado na escola, e muitas vezes ele fazia-lhe companhia à porta da sala até soar o toque para a entrada. O tipo deveria ser halterofilista ou coisa do género, tinha um pescoço grosso que fazia dois do pescoço dum homem comum, e enquanto estava com ela, olhava-nos com ar de desafio, entre trocista e ameaçador. Eu ainda pus a hipótese dele não ter nada com a professora e de ser mais um ardil dela para nos por na linha, podia ser professor de ginástica noutra escola, ou instrutor de artes marciais, e ela andar a pagar-lhe pela escolta. Os meus colegas concordavam, mas o que era verdade, é que aquela turma mudou completamente o comportamento nas aulas de Ciências. Deixaram de existir casacos pelas costas, partidas, interrupções ruidosas; e mesmo quando o seu musculado companheiro deixou de aparecer, essa atitude ordeira manteve-se e a própria professora, por reflexo, começou a revelar-se mais confiante, e deixou de ter qualquer reserva em dar uma reprimenda ou mandar alguém calar-se. E todos obedeciam, com Bat-Chance na primeira linha. Este foi outra surpresa. O facto da professora exibir o suposto namorado revelou aos olhos dele que ela, afinal, era uma mulher, uma mulher de carne e osso de voz doce e suave que crescia aos seus olhos, e para isso contribuía ela ter melhorado na aparência e usar agora uma maquilhagem cuidada, e o cabelo solto e esvoaçante como nos anúncios de champôs; para cúmulo, começara a usar saias mais curtas do que antes, o que decuplicava o interesse dos rapazes e, muito particularmente, do Bat-Chance, que se rendia cada vez mais aos seus encantos como um rude Hércules fiando aos pés de Ônfale. Por meias-palavras de Bat-Chance, apercebemo-nos de que estava apaixonado pela professora, circunstância que fingíamos não ter notado, para bem da nossa integridade física.
Aquele foi o único ano em que tive o Bat-Chance como colega e também o último em que tive aulas com aquela professora, e nunca soube o que foi feito deles, mas não posso deixar de apontar que, já depois do fim das aulas, e quando fora à cidade para ver as pautas, os vi aos dois no parque, a conversar junto à rede do court de ténis. Estavam um diante do outro, ele falava e ela parecia ouvir com muita atenção, mas as mãos de um e de outro tocavam-se, suspensas pelos indicadores dobrados. Pareceu-me que ele estava completamente domado.

entretenimental

   O Escrevedor de Parábolas, só conseguia criar uma parábola quando uma outra parábola morria nas antípodas.Um dia, ele próprio morreu, ao mesmo tempo que no outro lado do mundo, nascia um novo Escrevedor.

   (enquanto escrevo isto, e neste preciso momento, há uma parábola a agonizar nas antípodas. Quase consigo visualizar a sua agonia, e os movimentos desconexos das suas plumas coloridas de ave ou grifo).


cenário

   O corpo da vítima foi achado no chão do quarto; com a porta trancada e a janela arrombada pelo lado de dentro, isso era notório porque os vidros partidos estavam do lado de fora, no umbral e na relva do chão.
   Alguém da casa? Ouviu-se uma opinião imediata sobre o arrombamento da janela:  Watson achou que tinha sido causado pela alma do morto ao procurar sair.

ponto de viragem

   "Não vou chorar mais a partir deste momento. Prometo-vos! Chega de lágrimas, gritos, descabelar-me em pranto, gritar de desespero como uma doida. Nada compensa isso. A partir deste momento, só exteriorizarei a serenidade lacustre duma conversa ou os acordes dum riso leve e luminoso".
   Foi o fim duma próspera carreira como carpideira profissional.

Um pequeno sol

   O menino encontrou um caleidoscópio numa caixa de arrumações no sótão da sua casa, e perguntou aos pais para que servia, mas estes (já) não sabiam qual era a sua finalidade; e perguntou em seguida ao avô, que morava no outro lado da rua, que lho explicou com uma voz nostálgica - "O caleidoscópio serve para apontar à luz do Sol, esta entra no tubo e fragmenta-se em luzes coloridas ao atravessar os vidrinhos colados no seu interior. Essas luzes coloridas agrupam-se em padrões e se rodares ou inclinares o tubo, eles também mudam".
   O menino percebeu. E não percebeu. Não havia luz do Sol há pelo menos uma geração, somente uma penumbra escura e permanente sob as nuvens espessas. Mas o menino não desistiu, e sempre que se lembrava, posicionava-se à janela a apontar o caleidoscópio à rua. Por fim, num dia escuro e triste como os outros, teve sorte, porque ao espreitar para dentro do caleidoscópio, pôde admirar o jogo belíssimo de luzes e cores originado pelas labaredas intensas em que se consumia a casa do avô.

Reacção

   Às duas amigas, Paula e Irene, chegou o mesmo mail, enviado por um amigo comum. O teor da mensagem era um pouco perturbante. Continha uma imagem da Nossa Senhora de Lourdes sobre os versos dum cântico e, no rodapé, as instruções:
   «Reencaminha este mail para sete amigos teus, e podes contar com a Graça divina, e todos os teus sonhos se realizarão, e nunca te faltará saúde, riqueza e amor. Se não o fizeres, não se sabe o que te poderá acontecer!»
   Paula, que não era supersticiosa e também não era sensível a ameaças veladas, apagou o mail sem hesitações. E nunca soube o que lhe poderia acontecer.
   Irene, que até do medo tem medo, cumpriu as instruções e reenviou o mail para sete contactos seus. E nunca soube o que lhe poderia acontecer.

nado-morto

   Traz no peito uma confusão enorme e uma palavra nova por eclodir, tem na garganta um nó onde o rio se estancou e a voz se fez paúl, caminha, pé depois de pé arrastando o seu peso, que o remorso pesa mais do que ele, e o corpo perambula com esforço quando a cinza dos seus sonhos lhe entrava os movimentos. Traz no peito uma confusão enorme e uma palavra nova por morrer.


roma e amor

   - Estar ao pé de ti é como regressar a casa depois de uma longa e dolorosa viagem, um regresso que me completa porque tu és tudo aquilo de que preciso para me sentir inteiro e vivo. As coisas são muito simples - tu és tudo o que faz sentido, e longe de ti ando completamente perdido. Achas que temos hipóteses os dois? Os dois juntos...
   Ela desviou o olhar da cara dele enquanto um leve rubor lhe coloria as faces. Mas aceitou o seu braço reconfortante a envolver-lhe os ombros, e a pressão meiga da mão dele em volta da sua.
   - Claro que sim - respondeu por fim, com a voz perturbada pela emoção - nós sentimo-nos assim um com o outro, e temos a vida toda pela frente. Havemos de arranjar uma maneira, um espaço para nós.
   Ele sorriu, nitidamente aliviado, e beijou-lhe a face onde perlava uma pequena lágrima de felicidade. Quando quis continuar o diálogo, entrou no quarto a funcionária da instituição, que masquiu em tom brincalhão.
   - Meninos, meninos...Não posso deixar-vos sozinhos que começam logo a namoriscar. Senhor Melo, faça-me um favor, conduza a sua cadeira de rodas para a sala de jantar, que já se está a chegar a hora da refeição, e eu ainda tenho de mudar a argália à sua amiga.
   O idoso obedeceu, mas antes de cruzar a porta, piscou o olho à dama acamada, que sorria de olhos baixos, um pouco envergonhada.

propósito nobre

   - A jogar no trabalho? - perguntou-lhe o patrão, depois de se aproximar sorrateiramente dele.
   - Não, eu não seria capaz disso! - afiançou, muito rápido - estou apenas a tentar evitar que estes tetraminós azuis em queda destruam a nossa preciosa cristaleira de porcelana chinesa, a lutar com os tês roxos para afastar as suas arestas cortantes das nossas tapeçarias expostas e a fazer tudo por tudo para que os éles azuis e laranja não obstruam a entrada da nossa loja e impeçam a entrada dos clientes, ou que se amontoem até ao tecto em cima de todos os que aqui estamos, provocando uma completa asfixia geométrica.
   - Então, e como de costume, não estás a fazer bem o teu trabalho, porque deixaste que uns bizarros cubos vermelhos caíssem à porta da loja, roubando o estacionamento aos clientes que eventualmente queiram parar aqui à frente.

mito urbanizado


   - Não acho seguro que saias à rua sem companhia! – disse-lhe a mãe.
   Ela encolheu os ombros. Ia fazer o quê?
   - Não acho seguro que não tomes precauções, ou que não uses arma, não acho seguro que não consigas alguém para te acompanhar. Não acho seguro…pronto!
   Ainda a mulher não acabara a frase, e já ela cruzava a ombreira da porta.
   Estava uma noite sem luar. Haviam acendido archotes junto aos antigos postes de electricidade. Nunca duravam muito, mas concediam uma sensação de confortável normalidade enquanto ardiam.
   Deu uma meia-dúzia de passos colada às sombras. Sabia que não iria adiantar porque eles viam no escuro com os seus olhos cor de mercúrio. Começou a ter sérias dúvidas se conseguiria chegar ao Abrigo sem ser interceptada e, por muito que lhe custasse admiti-lo, começava a conceder algum crédito às palavras da mãe.  Ouviu nitidamente um som débil, como um rosnar ou um uivar contido. Sabia que o perigo estava próximo, mas prosseguiu a sua marcha intrépida, com o pensamento no Abrigo, e na avó que ali esperava pela comida que ela lhe iria levar. O medo fez com que acelerasse o passo, com o cesto da comida a balançar para trás e para diante, e a brisa fétida das ruas a enfunar a sua longa capa vermelha que pendia do capuz que lhe envolvia os cabelos dourados.

o lixo

   - Gostamos do teu trabalho! - disseram ao novel escritor de novelas naquele gabinete abafado da editora - Queres trabalhar para nós?
   - Nada me daria mais prazer. Quando é que posso começar? Como vos disse, tenho vários originais em fase final de elaboração...
   - Calma, muita calma! - aconselharam - temos uma proposta para ti, também muito original - como sabes, estamos a atravessar uma crise pavorosa, e não é pelo comércio das palavras que as coisas irão ao lugar, por isso não vale a pena usarmos os teus préstimos por aquilo que a tua pena possa produzir...
   - Gostei da frase! - admitiu o novel escritor de novelas.
   - Muito literária, não foi? São cócegas do ofício.Voltando à proposta que temos para ti, enquanto procuramos um nicho editorial onde possamos encaixar as tuas obras de ficção, podias trabalhar para nós como paquete.
   ...cortar a relva dos nossos jardins - acrescentou outro. E os outros:
   ...levar a mulher ao curso de Feng Shui.
   ...as crianças à escola.
   ...os cães a passear no parque.
   ...lavar as escadas do meu prédio para eu poupar nas despesas de condomínio.
   ...correr com o arrumador de carros que todos os dias me espera na entrada da minha própria garagem.
   O novel escritor de novelas ficou um pouco confundido. Tantas tarefas e, se calhar, sem remuneração...mas, ao menos, estava no ramo.
   - E o nicho editorial? Prometem-me que procurarão esse nicho editorial até o encontrarem?
   - Claro que sim, meu caro, não descansaremos enquanto não encontrarmos um nicho editorial só para ti, e até, se quiseres, providenciaremos para ti um caixote de nichos editoriais...


Redacção

   Eu e o meu irmão gostamos muito de viajar, muito mesmo. Logo pela manhã, os dois partimos de avião e fomos até França, depois de França fomos para Creta passando por cima do mar Mediterrâneo, depois visitamos a Ucrânia, sobrevoando um sítio que tem um nome que parece arder, Bósforo. As viagens continuaram. Iémen, Índia, Ceilão, Camboja, e depois de atravessar o maior Oceano do mundo, chegamos a Auckland, na Nova Zelândia. Tínhamos acabado de aterrar quando entrou a nossa mãe e nos mandou ir lavar as mãos para ir comer. Obedecemos, e quando voltamos à sala, já estava o almoço servido nos pratos e a mãe limpava as dedadas no globo terrestre com um pano embebido em vinagre.

Um casburro

    Perdeu a vida porque não ligou nenhuma aos sinais de aviso. O primeiro sinal de aviso aconteceu uma manhã quando saía da casa para o trabalho. Sentiu a pulsação acelerar-se bruscamente, e um peso doloroso no peito como se alguém lhe empurrasse o seu coração para dentro com manápulas de aço. Sentou-se nos degraus até se sentir melhor e depois retomou o caminho para o trabalho. Julgam que ele tomou alguma providência? Foi ao médico, ao cardiologista, pediu para lhe fazerem exames? Não, claro que não; nada fez e prosseguiu com a sua vidinha de todos os dias a uma velocidade de cruzeiro. E foi aí que ocorreu o segundo sinal de aviso (e o último, adiantamos já). Tinha acabado de ter relações com uma namorada de ocasião, e saiu da cama e foi até à cozinha, onde bebeu um copo de água bem gelada enquanto preparava uma omelete. Sentiu outra vez a dor, agora mais forte, e sentou-se numa cadeira, ofegante, com uma agonia gelada no peito e as têmporas a latejarem-lhe com força. Também desta vez, as coisas normalizaram, a dor amainou, e ele deitou aquela omelete para o lixo, e preparou outra que levou para o quarto, sem dar parte de fraco. Amanhã, vou ao médico, prometeu a si mesmo, mas não o fez no dia seguinte, nem no que se lhe seguiu. E como acontece aos imprudentes que troçam dos sinais de aviso, só o pior lhe podia estar reservado. No final daquela semana, saiu de manhã de casa, como todas as manhãs, e foi atropelado por um camião, um Scania, que o fez em picado. Se existe Providência, porque é que ela desperdiça sinais de aviso num tipo casmurro como este?

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...