Mensagens

A mostrar mensagens de Junho, 2012

a inteligência dos animais

Quando eu era mais puto passava na televisão, nas tardes de Domingo, uns filmes americanos com animais que poderiam ser vistos como enternecedores ou deprimentes (o que era o meu caso). Eram sempre filmes um pouco antigos, dos finais dos anos sessenta ou princípios de setenta, que contavam sempre com uma ou mais crianças, e um animal (um cão, um gato ou um cavalo) que eram relacionados num enredo em que uns se perdiam dos outros, e o animal em foco mostrava que era corajoso, que era inteligente, ou que podia ser o centro afectuoso duma família e, aparentemente, sem precisar ser alimentado e sem libertar fezes.
   Sempre pensei que essas histórias com animais inteligentes, eram uma ficção, histórias inventadas para fabricar filmes e deprimir adolescentes e jovens; mas tive, muito recentemente, a prova de que a inteligência dos animais é um facto indesmentível.
   Eu estive há pouco de férias numa estância balnear e perdi lá o meu cão, um cão lindo, um Terrier australiano de pêlo dou…

Ficções sobre uma Biblioteca (3): A Taxonomista

Em tempos idos a biblioteca da cidade das Caldas da Rainha funcionava – como já por aqui disse – nos pavilhões Berquó, nos parques da cidade. Ocupava uma das alas dos pavilhões num tempo em que no mesmo edifício funcionava o Liceu, o que lhe dava algum enquadramento e sentido. Na Biblioteca, sempre conheci as mesmas duas bibliotecárias, que cumpriam a sua função como cumprem os livros antigos encadernados - eram úteis e eficazes mas não lhes podíamos pedir muito mais, nem pensar que se prestariam a sair das suas rotinas e territórios estritos, das estantes em que se sentiam confortáveis; mas, durante alguns meses largos, talvez por motivos de saúde, uma delas foi substituída por uma outra bibliotecária, um pouco mais nova. Esta bibliotecária forasteira era muito segura de si, e possuía aquela arrogância que o saber livresco incute nalgumas pessoas, como se vissem todas as coisas e todos os horizontes com o sapiente traseiro apoiado no cume da pirâmide de livros à qual escalaram. Tinh…

Ficções sobre uma Biblioteca 2: O Bat-Chance

No tempo em que a Biblioteca e o Liceu das Caldas da Rainha estavam sediadas nos pavilhões Berquó, eu estudava na Técnica, a escola dos grunhos, dos retornados e dos parolos (pelo menos, essa era a opinião ventilada por alguns alunos do Liceu, e respectivas famílias), e aproveitava a ida à Biblioteca para cirandar pelos corredores do Liceu e admirar as alunas que ali estudavam. Ia com alguns colegas de turma, em pequenos grupos, porque era mais prudente, e eu, como andava sempre com um livro á trela, encabeçava o grupo, fingindo que nos dirigíamos para alguma sala, ou que íamos realizar algum trabalho de grupo. As vezes, as contínuas (traduzindo: auxiliares de acção educativa), topavam-nos à distância e mandavam-nos abandonar o edifício, outras vezes, era um dos queques que se armava aos cucos e nos mandava ir embora, ou ia chamar a contínua em alta-voz para o fazer, como se tivéssemos lepra. Raramente se ficavam a rir, porque tinha um colega calmeirão, o Bat-chance de alcunha, que l…

entretenimental

O Escrevedor de Parábolas, só conseguia criar uma parábola quando uma outra parábola morria nas antípodas.Um dia, ele próprio morreu, ao mesmo tempo que no outro lado do mundo, nascia um novo Escrevedor.

   (enquanto escrevo isto, e neste preciso momento, há uma parábola a agonizar nas antípodas. Quase consigo visualizar a sua agonia, e os movimentos desconexos das suas plumas coloridas de ave ou grifo).


cenário

O corpo da vítima foi achado no chão do quarto; com a porta trancada e a janela arrombada pelo lado de dentro, isso era notório porque os vidros partidos estavam do lado de fora, no umbral e na relva do chão.
   Alguém da casa? Ouviu-se uma opinião imediata sobre o arrombamento da janela:  Watson achou que tinha sido causado pela alma do morto ao procurar sair.

ponto de viragem

"Não vou chorar mais a partir deste momento. Prometo-vos! Chega de lágrimas, gritos, descabelar-me em pranto, gritar de desespero como uma doida. Nada compensa isso. A partir deste momento, só exteriorizarei a serenidade lacustre duma conversa ou os acordes dum riso leve e luminoso".
   Foi o fim duma próspera carreira como carpideira profissional.

Um pequeno sol

O menino encontrou um caleidoscópio numa caixa de arrumações no sótão da sua casa, e perguntou aos pais para que servia, mas estes (já) não sabiam qual era a sua finalidade; e perguntou em seguida ao avô, que morava no outro lado da rua, que lho explicou com uma voz nostálgica - "O caleidoscópio serve para apontar à luz do Sol, esta entra no tubo e fragmenta-se em luzes coloridas ao atravessar os vidrinhos colados no seu interior. Essas luzes coloridas agrupam-se em padrões e se rodares ou inclinares o tubo, eles também mudam".
   O menino percebeu. E não percebeu. Não havia luz do Sol há pelo menos uma geração, somente uma penumbra escura e permanente sob as nuvens espessas. Mas o menino não desistiu, e sempre que se lembrava, posicionava-se à janela a apontar o caleidoscópio à rua. Por fim, num dia escuro e triste como os outros, teve sorte, porque ao espreitar para dentro do caleidoscópio, pôde admirar o jogo belíssimo de luzes e cores originado pelas labaredas intensa…

Reacção

Às duas amigas, Paula e Irene, chegou o mesmo mail, enviado por um amigo comum. O teor da mensagem era um pouco perturbante. Continha uma imagem da Nossa Senhora de Lourdes sobre os versos dum cântico e, no rodapé, as instruções:    «Reencaminha este mail para sete amigos teus, e podes contar com a Graça divina, e todos os teus sonhos se realizarão, e nunca te faltará saúde, riqueza e amor. Se não o fizeres, não se sabe o que te poderá acontecer!»    Paula, que não era supersticiosa e também não era sensível a ameaças veladas, apagou o mail sem hesitações. E nunca soube o que lhe poderia acontecer.    Irene, que até do medo tem medo, cumpriu as instruções e reenviou o mail para sete contactos seus. E nunca soube o que lhe poderia acontecer.

nado-morto

Traz no peito uma confusão enorme e uma palavra nova por eclodir, tem na garganta um nó onde o rio se estancou e a voz se fez paúl, caminha, pé depois de pé arrastando o seu peso, que o remorso pesa mais do que ele, e o corpo perambula com esforço quando a cinza dos seus sonhos lhe entrava os movimentos. Traz no peito uma confusão enorme e uma palavra nova por morrer.


roma e amor

- Estar ao pé de ti é como regressar a casa depois de uma longa e dolorosa viagem, um regresso que me completa porque tu és tudo aquilo de que preciso para me sentir inteiro e vivo. As coisas são muito simples - tu és tudo o que faz sentido, e longe de ti ando completamente perdido. Achas que temos hipóteses os dois? Os dois juntos...
   Ela desviou o olhar da cara dele enquanto um leve rubor lhe coloria as faces. Mas aceitou o seu braço reconfortante a envolver-lhe os ombros, e a pressão meiga da mão dele em volta da sua.
   - Claro que sim - respondeu por fim, com a voz perturbada pela emoção - nós sentimo-nos assim um com o outro, e temos a vida toda pela frente. Havemos de arranjar uma maneira, um espaço para nós.
   Ele sorriu, nitidamente aliviado, e beijou-lhe a face onde perlava uma pequena lágrima de felicidade. Quando quis continuar o diálogo, entrou no quarto a funcionária da instituição, que masquiu em tom brincalhão.
   - Meninos, meninos...Não posso deixar-vos sozinho…

propósito nobre

- A jogar no trabalho? - perguntou-lhe o patrão, depois de se aproximar sorrateiramente dele.
   - Não, eu não seria capaz disso! - afiançou, muito rápido - estou apenas a tentar evitar que estes tetraminós azuis em queda destruam a nossa preciosa cristaleira de porcelana chinesa, a lutar com os tês roxos para afastar as suas arestas cortantes das nossas tapeçarias expostas e a fazer tudo por tudo para que os éles azuis e laranja não obstruam a entrada da nossa loja e impeçam a entrada dos clientes, ou que se amontoem até ao tecto em cima de todos os que aqui estamos, provocando uma completa asfixia geométrica.
   - Então, e como de costume, não estás a fazer bem o teu trabalho, porque deixaste que uns bizarros cubos vermelhos caíssem à porta da loja, roubando o estacionamento aos clientes que eventualmente queiram parar aqui à frente.

mito urbanizado

- Não acho seguro que saias à rua sem companhia! – disse-lhe a mãe.    Ela encolheu os ombros. Ia fazer o quê?    - Não acho seguro que não tomes precauções, ou que não uses arma, não acho seguro que não consigas alguém para te acompanhar. Não acho seguro…pronto!    Ainda a mulher não acabara a frase, e já ela cruzava a ombreira da porta.    Estava uma noite sem luar. Haviam acendido archotes junto aos antigos postes de electricidade. Nunca duravam muito, mas concediam uma sensação de confortável normalidade enquanto ardiam.    Deu uma meia-dúzia de passos colada às sombras. Sabia que não iria adiantar porque eles viam no escuro com os seus olhos cor de mercúrio. Começou a ter sérias dúvidas se conseguiria chegar ao Abrigo sem ser interceptada e, por muito que lhe custasse admiti-lo, começava a conceder algum crédito às palavras da mãe.  Ouviu nitidamente um som débil, como um rosnar ou um uivar contido. Sabia que o perigo estava próximo, mas prosseguiu a sua marcha intrépida, com…

o lixo

- Gostamos do teu trabalho! - disseram ao novel escritor de novelas naquele gabinete abafado da editora - Queres trabalhar para nós?
   - Nada me daria mais prazer. Quando é que posso começar? Como vos disse, tenho vários originais em fase final de elaboração...
   - Calma, muita calma! - aconselharam - temos uma proposta para ti, também muito original - como sabes, estamos a atravessar uma crise pavorosa, e não é pelo comércio das palavras que as coisas irão ao lugar, por isso não vale a pena usarmos os teus préstimos por aquilo que a tua pena possa produzir...
   - Gostei da frase! - admitiu o novel escritor de novelas.
   - Muito literária, não foi? São cócegas do ofício.Voltando à proposta que temos para ti, enquanto procuramos um nicho editorial onde possamos encaixar as tuas obras de ficção, podias trabalhar para nós como paquete.
   ...cortar a relva dos nossos jardins - acrescentou outro. E os outros:
   ...levar a mulher ao curso de Feng Shui.
   ...as crianças à escola.
 …

Redacção

Eu e o meu irmão gostamos muito de viajar, muito mesmo. Logo pela manhã, os dois partimos de avião e fomos até França, depois de França fomos para Creta passando por cima do mar Mediterrâneo, depois visitamos a Ucrânia, sobrevoando um sítio que tem um nome que parece arder, Bósforo. As viagens continuaram. Iémen, Índia, Ceilão, Camboja, e depois de atravessar o maior Oceano do mundo, chegamos a Auckland, na Nova Zelândia. Tínhamos acabado de aterrar quando entrou a nossa mãe e nos mandou ir lavar as mãos para ir comer. Obedecemos, e quando voltamos à sala, já estava o almoço servido nos pratos e a mãe limpava as dedadas no globo terrestre com um pano embebido em vinagre.

Um casburro

Perdeu a vida porque não ligou nenhuma aos sinais de aviso. O primeiro sinal de aviso aconteceu uma manhã quando saía da casa para o trabalho. Sentiu a pulsação acelerar-se bruscamente, e um peso doloroso no peito como se alguém lhe empurrasse o seu coração para dentro com manápulas de aço. Sentou-se nos degraus até se sentir melhor e depois retomou o caminho para o trabalho. Julgam que ele tomou alguma providência? Foi ao médico, ao cardiologista, pediu para lhe fazerem exames? Não, claro que não; nada fez e prosseguiu com a sua vidinha de todos os dias a uma velocidade de cruzeiro. E foi aí que ocorreu o segundo sinal de aviso (e o último, adiantamos já). Tinha acabado de ter relações com uma namorada de ocasião, e saiu da cama e foi até à cozinha, onde bebeu um copo de água bem gelada enquanto preparava uma omelete. Sentiu outra vez a dor, agora mais forte, e sentou-se numa cadeira, ofegante, com uma agonia gelada no peito e as têmporas a latejarem-lhe com força. Também desta v…