um não-passatempo

   A casa onde morava situava-se no alto da colina, o que lhe dava uma ampla visão de tudo o que o rodeava. Sentia-se mortalmente aborrecido e entreteve-se a contemplar sem ânimo o que se passava ao longe. Na encosta oposta à da sua casa, o terreno relvado subia do muro junto à estrada até uma ampla vivenda quase no topo do morro, uma vivenda térrea alpendrada, de paredes pintadas de branco. Havia gente cá fora, e procurou ver quem era. Distinguiu na perfeição a figura duma mulher no alpendre, que caminhava de uma forma esquisita como se um cão ou um furão lhe roesse a bainha das calças, mas logo concluiu ser uma impressão enganadora - a mulher estava a tentar andar de patins no alpendre, tinha as pernas arqueadas com os joelhos metidos para dentro, e olhava sempre para baixo, procurando equilibrar-se e não torcer algum pé. Andou nesse desforço uns poucos metros até à esquina da casa oposta àquela donde a vira surgir. Aí sentou-se no chão do alpendre, com os pés a balançar a poucos centímetros do chão relvado do jardim, e notou que ela conversava. Havia um homem sentado numa cadeira na relva, tinha um portátil pousado nas pernas e escrevia ao mesmo tempo que erguia um pouco a cabeça para manter o diálogo com ela. A cena principiava a aborrecê-lo, um aborrecimento feito de memórias vagas e ausências dolorosas, sensação que se agravou quando saiu de dentro de casa uma criança pequena que se atirou para o pescoço daquela mulher que devia ser sua mãe, estreitando-o com força como se se agarrasse à vida. Ver aquilo, foi demais, oprimiu-o. Desistiu de ser curioso, e fechou-se no seu reduto, encostando a cabeça etérea aos tijolos decrépitos que emparedavam a janela antiga da casa.


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