Um "cuento jíbaro"

   A seu pedido, cortaram a cabeça ao marido morto, e procurou fazê-la encolher para a exibir num espacinho quadrado do móvel da sala. Uma pessoa comum poderia pensar que a simples intenção de o fazer já era um gesto chocante e bárbaro mas, para ela, não passava duma merecida retribuição, porque fora sempre isso que o marido lhe fizera enquanto fora vivo. Ferveu a cabeça cortada num caldo cuja composição retirara dum site, extraiu dela os miolos e os globos oculares, coseu os olhos, a boca e a ferida na base do crânio onde fora feito o corte. Ainda assim, a cabeça era muito grande para o espaço, e experimentou cortar as orelhas. Sem aquelas aletas descomunais, a cabeça coube à justa, mas assim, já não fazia muito sentido - o marido não poderia ouvir o que ela e as amigas tinham a dizer sobre os homens na reunião daquela tarde.

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