Passagem

   Toda a sua vida, Menendez foi guarda de fronteira. Apenas isso. Vigiava, descobria os clandestinos e ajudava a capturá-los. Menendez já era avô quando, um dia, chegou um despacho importantíssimo da capital. Uma autoridade castrense prevenia que os dois países tinham acabado de se fundir e que aquela fronteira não existia mais. Os colegas de Menendez, mais jovens, foram transferidos para outras funções, a primeira das quais foi conduzir Menendez à reforma de uma forma económica: duas balas na cabeça e um sepulcro anónimo nas traseiras do posto de controlo. Menendez, se ainda estivesse vivo, certamente que aprovaria o lugar escolhido para o enterrarem: ele estava do seu lado da fronteira e sob esse céu imenso do deserto que sempre amara mais do que as fronteiras que os homens traçam a fogo nos mapas e nos corações.

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