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O tesouro oculto

 

    Possuía, aparentemente, uma vida vazia, anódina e fria.Os minutos escorriam como se se tivessem liquefeito os números no mostrador do relógio. Tinha rotinas precisas, quase invariáveis. Horas certas para se deitar e para se levantar, para tomar banho e lavar os dentes, para tomar as diferentes refeições e os comprimidos no final destas, para se sentar um pouco à varanda a ver a rua e as pessoas nos passeios ou nas janelas dos prédios da outra margem, ou ir até ao café para conversar um pouco com outros reformados, e indignar-se com estes contra algumas notícias dadas na televisão ou chapadas na capa dos jornais diários. Entre as entradas e saídas do seu próprio apartamento e o calcorrear dos degraus do prédio num ou noutro sentido, entre as vozes vagas e os silêncios familiares, ele tinha algo na sua vida que o redimia de tudo o mais, um piano, autêntico, negro, majestoso e brilhante como uma bela criatura das trevas. Tinha-o num quarto dos fundos, a repousar no quarto dos fundos como se aguardasse a hora de despertar. O velho homem não sabia tocar o velho piano, nem se atrevia arrancar-lhe intencionalmente uma nota que fosse. O piano já estava na casa quando a comprara e ele apenas zelava por ele, limpando cuidadosamente as suas teclas e engrenagem, puxando o lustro à sua pele cor de azeviche, e ao símbolo da marca escudado em traços e letras douradas. Parecia pouco para a vida dum ser humano, mas a ele sobejava-lhe em grandeza e majestade, dava sentido a todas as horas do seu dia, e fazia-o sentir-se ansioso pela hora de adormecer e sonhar, única altura do dia em que os seus dedos tocavam as teclas sem as profanar, fazendo-as soltar notas e melodias de uma beleza inaudita.

Geena

                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma ...