O céu pode esperar 2 (Brgs)

   Dom Ignacio de Montalbán, com a experiência de muitos anos de contendas e disputas, nunca recebia em sua casa alguém em quem não confiasse por completo mas, desta vez, abriu uma excepção, e mandou entrar o jovem Guillén, que surgiu diante de si nervoso e transpirado como um novilho desmamado.
   - Dom Ignacio!- cumprimentou, tomando nas mãos o chapéu de peão, e inclinando reverentemente a cabeça.
   O fidalgo não respondeu à saudação, apenas disse à criada que pusesse mais talheres na mesa, ao mesmo tempo que indicava a Guillén que se sentasse ao pé de si. A mesa fora posta sob a fresca latada de videiras nas traseiras da mansão, e estava bem guarnecida de pão, travessas de louça com carnes e uma garrafa bojuda de vinho, de cintura em palha entrançada. Dom Ignacio gostava de passar ali as tardes, observando ociosamente todo o bulício da fazenda, da chegada e  partida de boieiros e agricultores, ao movimento colorido das cavalariças.
   Após alguma insistência de Dom Ignacio, Guillén resolveu-se a comer alguma coisa, ainda contariado, mordiscou um pedaço de pão com torresmos, saboreou lascas finas de bom presunto, e rematou com um copo de vinho cheio até ao topo. Enquanto comia e bebia, Guillén olhava constantemente em volta, tomando nota mentalmente da posição dos homens de Dom Ignacio, das suas movimentações, tentando avaliar as possibilidades de sair dali com vida. A sua apreensão e nervosismo pareceram a Dom Ignacio de uma ingenuidade deliciosa. Resolveu atalhar caminho.
   - Vens para aquilo que eu penso, Guillén?
   - Sim, Dom Ignacio, estou aqui para o matar, tal como você matou o meu pai. O sangue paga-se com sangue.
   A sua mão já segurava com força a coronha da arma dissimulada sob o gibão dobrado. Um gesto ou um grito do velho fazendeiro, e dispararia de imediato. Mas a tranquilidade desconcertante de Dom Ignacio intrigou-o.
   - Isso pode esperar mais um pouco, Guillén, estarei tão bem morto daqui a um minuto, como daqui a uma hora ou duas. Bebe mais um pouco de vinho, ou come uma talhada de melão.
   Guillén recusou, olhava de soslaio para todos os movimentos de pessoas na fazenda. Não lhe parecia que a sua promessa ou o seu gesto ameaçador tivesse transparecido para além daquele recanto sob a latada. Mas não podia deixar as coisas arrastarem-se, tinha de disparar o quanto antes, e procurar fugir dali.
   -Pensa nisto, Guillén - eu sabia que um dia virias à minha procura, mas nada fiz para o contrariar, e até te recebi em minha casa, sem nenhum dos meus homens a proteger-me. Isso não te diz nada?
   - A comida! Você envenenou-me, mas vou matá-lo à mesma.
   - Não!! Podia tê-lo feito mas isso nunca me passou pela cabeça. De certeza que não sentes qualquer efeito. Se tivesse posto veneno, como tu suspeitas, já estarias no chão a estrebuchar. Agora voltemos ao que te trouxe aqui - dizes que eu matei o teu pai!?
   -Toda a gente o sabe, eu sei-o desde criança, e andei por esse mundo fora para você não me apanhar antes  que eu pudesse fazê-lo pagar por isso. Vai negá-lo?
   - O teu pai, quando tinha a tua idade, já me queria matar, mas não o podia fazer, porque me devia a vida. E desejava matar-me por puro ódio, e por vingança por eu ter sido durante muitos anos amante da tua mãe, e por lhe ter feito um filho, tu!
   Aquilo foi como uma ordem para Gullén, e o dedo premiu o gatilho, e a bala atravessou o gibão, alojando-se no ombro do velho. Uma multidão de pessoas alvoraçadas acorreu, mas foram detidas pela imperiosa mão levantada de Dom Ignacio. Com esforço, continuou a falar.
   - Como é que se mata um homem que não se pode matar? O teu pai planeou-o de uma forma hábil, traiu a minha confiança, roubou-me e fez com que eu o matasse, sabendo que um dia mais tarde, tu te encarregarias de me tirar a vida. Já pensaste nisso, Guillén? Ainda eras uma criança de colo e já tinhas essa arma e essas balas preparadas para me matar. Sem o saberes, carregaste sempre com o seu peso. Como é que vais resolver isto? Eu sou o teu pai, e queres matar-me por matar um ladrão. Que dívida de sangue pode pender sobre ti por ter morrido alguém que não é do teu sangue? O cobarde a quem chamas pai esperava que me matasses como matam os cobardes, a coberto da noite, ou que me emboscasses nalguma caminho de terra, ele nunca pensou que chegássemos à fala.
   Guillén tremia dos pés à cabeça, não sabia o que fazer, anos a fio à espera daquele momento e agora não sabia o que fazer, podiam ser tudo mentiras, invenções desesperadas dum velho que quer adiar a morte a todo o custo.
   - Sangue é sangue - rugiu, e descarregou as munições da arma no coração do velho.
   Quando o eco dos disparos se diluiu entre as casas, tudo mergulhou num profundo silêncio. Ninguém se moveu para o apanhar, para disparar sobre ele. Todas aquelas pessoas pareciam estátuas, a não ser pelo ódio que crepitava nos seus olhares e gestos contidos. Dom Ignacio devia ter dado previamente ordens para o pouparem. Certificou-se de que o velho morrera, cruzou a casa, passando pelos criados que pranteavam a morte do seu amo, e montou no seu cavalo que estava atado a um poste defronte da mansão.  Afastou-se a galope para longe da casa, para muito longe, andando sem destino enquanto todas as palavras trocadas entre ele e Dom Ignacio regressavam à sua memória, medidas e aquilatadas até à obsessão. Meteu-se por um caminho de pedra entre os montes, e continuou a cavalgar até as sombras começarem a cobrir o vale. Deteve então o cavalo ao pé duma árvore vigorosa e, desmontando, tirou a corda que pendia da sela e armou um laço que atirou por cima dum dos ramos mais fortes da árvore, como uma forca improvisada.

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