despertar

   Sonhava acordada, sentada no cadeirão do alpendre na modorra daquela fim de tarde de Maio. Bem resfastelada, o cigarro a consumir-se entre os dedos e o sonho desperto a deslizar por ela. Mas não se deve sonhar acordada, a menos, que os outros disso não se apercebam. O vizinho do lado que de vez em quando a espiava do jardim, foi o primeiro a dar-se conta disso, e não perdeu a ocasião de arremessar uma tesoura de sebes e atingir as costas do adónis bronzeado que a procurava seduzir. A sua própria filha, logo começou a guinchar com força para anular o efeito dos acordes melancólicos de cítara que dançavam no ar; e o seu pequeno cão, um pequinês ciumento, enchia a boca de pétalas de rosa, urinando nas taças de cristal pousadas no chão, e pelas quais o seu adónis lhe dera de beber à boca, filtros de amor. Apagou o cigarro, pegou na filha ao colo e levou-a para dentro de casa, passando por cima do corpo caído aos seus pés.

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