A anomalia

   O cadáver foi liberto pelo mar no areal da praia, um mar de ondas alterosas que ameaçavam reclamá-lo de novo. Um passeante teve o bom senso de agarrar o cadáver por um braço e arrastá-lo pela areia até ao alto duma duna próxima. Quando olhou bem para o corpo, assustou-se e correu a chamar as autoridades. As forças policiais chegaram pouco depois, montaram em volta um perímetro de interdição, e levaram dali o corpo, em cima duma maca, mas prudentemente dissimulado com um lençol branco. Na esquadra, e depois de  uma hora de grande frenesim, com contactos repetidos com as mais altas instâncias, chegou finalmente a ordem para autopsiarem o cadáver. As razões que estavam por trás de tanta agitação eram as mesmas que haviam causado o assombro do homem na praia. Aquele cadáver era completamente absurdo, e tinha muitas semelhanças anatómicas com um peixe ou um mamífero marinho, tinha mãos e pés espalmados com rosadas membranas interdigitais, algo semelhante a guelras no dorso, e na sua cabeça oblonga, o rosto parecia recoberto por finas placas ósseas de onde se destacavam dois olhos salientes, globulares, e uma boca sem lábios, que parecia mais um traço sumido acima do queixo ossudo e escamoso.
   Mesmo antes de iniciarem a autópsia, os clínicos já tinham como garantido por aquela sumária observação do corpo, que estavam diante duma criatura insólita e sem antecedentes registados na história da ciência. Era mais do que evidente, uma vez que aquele corpo sem vida não possuía quatro braços como eles, as pernas curtas e lateralizadas, nem a cauda grossa com que mantinham o equilíbrio e cadenciavam o andar.

Mensagens populares deste blogue

Abril de 1918 - o caminho para uma Primavera de sangue

A viagem