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A mostrar mensagens de Maio, 2012

Passagem

Toda a sua vida, Menendez foi guarda de fronteira. Apenas isso. Vigiava, descobria os clandestinos e ajudava a capturá-los. Menendez já era avô quando, um dia, chegou um despacho importantíssimo da capital. Uma autoridade castrense prevenia que os dois países tinham acabado de se fundir e que aquela fronteira não existia mais. Os colegas de Menendez, mais jovens, foram transferidos para outras funções, a primeira das quais foi conduzir Menendez à reforma de uma forma económica: duas balas na cabeça e um sepulcro anónimo nas traseiras do posto de controlo. Menendez, se ainda estivesse vivo, certamente que aprovaria o lugar escolhido para o enterrarem: ele estava do seu lado da fronteira e sob esse céu imenso do deserto que sempre amara mais do que as fronteiras que os homens traçam a fogo nos mapas e nos corações.

desaforismo

Quando um jornalista sensacionalista ouve dizer que o Universo está em expansão, o mais certo é ele escrever de imediato sobre os benefícios que isso trará para a Economia e para a saúde financeira dos países, porque as propriedades e o seu valor não irão parar de crescer.

as pontes

Vivia numa aldeia, construída há séculos no ponto mais alto da pequena península de Faggi, que fora outrora uma ilha mas que o paciente trabalho da natureza unira à costa. Faggi era quase toda rocha e areia, com alguns, poucos, retalhos de terra arável que os habitantes cultivavam até ao limite. Da península para a costa,  ia-se por uma antiga ponte de pedra que passava sobre os rochedos de arestas agudas. Vivia numa pequena aldeia numa pequena península, e toda a vida cruzou aquela ponte num e noutro sentido. Do lado de cá da ponte, ficava a sua casa, os seus sonhos secretos e as suas solitárias aspirações (do lado de cá, quietos ainda que desassossegados, estremecendo numa ansiosa espera). Do outro lado da ponte, ficava o mundo extenso e aparentemente infindável, destino e sublimação óbvia desses sonhos e aspirações. Nunca cruzou a ponte com eles. Sabia que ela não aguentaria o peso.

despertar

Sonhava acordada, sentada no cadeirão do alpendre na modorra daquela fim de tarde de Maio. Bem resfastelada, o cigarro a consumir-se entre os dedos e o sonho desperto a deslizar por ela. Mas não se deve sonhar acordada, a menos, que os outros disso não se apercebam. O vizinho do lado que de vez em quando a espiava do jardim, foi o primeiro a dar-se conta disso, e não perdeu a ocasião de arremessar uma tesoura de sebes e atingir as costas do adónis bronzeado que a procurava seduzir. A sua própria filha, logo começou a guinchar com força para anular o efeito dos acordes melancólicos de cítara que dançavam no ar; e o seu pequeno cão, um pequinês ciumento, enchia a boca de pétalas de rosa, urinando nas taças de cristal pousadas no chão, e pelas quais o seu adónis lhe dera de beber à boca, filtros de amor. Apagou o cigarro, pegou na filha ao colo e levou-a para dentro de casa, passando por cima do corpo caído aos seus pés.

Pensa, logo e-chiste

- Como é que você perdeu o braço? - perguntou o médico ao mancebo no dia da inspecção.
   - Foi-me comido por um porco à solta. Fui criado numa quinta e a minha mãe costumava deixar-me no berço debaixo duma sombrinha enquanto trabalhava. Quando deu por ela, já o porco mo estava a devorar.
   - Credo! Não sabia que os porcos podiam fazer isso.
   - Os porcos são devoradores sofisticados. Se atacarem um homem desmaiado, começam pelas partes mais macias, como a barriga ou a barriga das pernas, e só então é que começam a abocanhar a carne em volta dos membros. Possuem um instinto ancestral para encontrarem o estômago à primeira dentada, talvez sintam o cheiro da comida que lá está dentro. Nessa quinta que lhes falei, soube do caso dum homem que teve um ataque cardíaco enquanto alimentava os porcos, e que estes reduziram a um monte de ossos.
   - Fosca-se! Em sessenta anos de vida nunca tinha ouvido uma coisa assim! Ainda bem que sou vegetariano!
   - Eu não estaria tão tranquilo...
   …

O tesouro oculto

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Possuía, aparentemente, uma vida vazia, anódina e fria.Os minutos escorriam como se se tivessem liquefeito os números no mostrador do relógio. Tinha rotinas precisas, quase invariáveis. Horas certas para se deitar e para se levantar, para tomar banho e lavar os dentes, para tomar as diferentes refeições e os comprimidos no final destas, para se sentar um pouco à varanda a ver a rua e as pessoas nos passeios ou nas janelas dos prédios da outra margem, ou ir até ao café para conversar um pouco com outros reformados, e indignar-se com estes contra algumas notícias dadas na televisão ou chapadas na capa dos jornais diários. Entre as entradas e saídas do seu próprio apartamento e o calcorrear dos degraus do prédio num ou noutro sentido, entre as vozes vagas e os silêncios familiares, ele tinha algo na sua vida que o redimia de tudo o mais, um piano, autêntico, negro, majestoso e brilhante como uma bela criatura das trevas. Tinha-o num quarto dos fundos, a repousar no quarto dos fundos…

Hipodâmia

- Onde vais? -perguntou à mulher, vendo-a perder tanto tempo a arranjar-se diante do espelho, pintura nos lábios e nas pestanas, um tom nas faces, risco nas sobrancelhas, outro creme esbatido no pescoço para disfarçar a pele enrugada.
   Ela respondeu quando lhe apeteceu, e isto quando já se ocupava do cabelo.
   - Vou àquela conferência com Quíren, já to tinha dito!
   -Ah, isso!...
   Uma conferência, e à noite, e logo na companhia dum centauro.
   Enquanto a mulher escolhia um vestido, parecendo incapaz de tomar uma decisão, ele aproximou-se da janela do apartamento e espreitou lá para fora. Quíren já estava lá em baixo à espera, parecia um pouco impaciente, as patas da frente apoiadas no topo em abóbada duma boca de incêndio, e as de trás a dançarem, martelando contra o alcatrão. Os cabelos compridos ondeavam ao ritmo do corpo. Um centauro! Tinha logo de calhar um centauro à sua mulher! Todos sabiam como eles tinham fama de lúbricos insaciáveis. Não se sentia descansado.
  Ouvi…

O céu pode esperar 2 (Brgs)

Dom Ignacio de Montalbán, com a experiência de muitos anos de contendas e disputas, nunca recebia em sua casa alguém em quem não confiasse por completo mas, desta vez, abriu uma excepção, e mandou entrar o jovem Guillén, que surgiu diante de si nervoso e transpirado como um novilho desmamado.
   - Dom Ignacio!- cumprimentou, tomando nas mãos o chapéu de peão, e inclinando reverentemente a cabeça.
   O fidalgo não respondeu à saudação, apenas disse à criada que pusesse mais talheres na mesa, ao mesmo tempo que indicava a Guillén que se sentasse ao pé de si. A mesa fora posta sob a fresca latada de videiras nas traseiras da mansão, e estava bem guarnecida de pão, travessas de louça com carnes e uma garrafa bojuda de vinho, de cintura em palha entrançada. Dom Ignacio gostava de passar ali as tardes, observando ociosamente todo o bulício da fazenda, da chegada e  partida de boieiros e agricultores, ao movimento colorido das cavalariças.
   Após alguma insistência de Dom Ignacio, Guillé…

o céu pode esperar

Há evos que a família esperava, e nas piores condições. A sala de espera, uma entre milhares, não tinha assentos bonitos e asseados, apenas nuvens cinzentas da poluição, e em volta um chão nojento cheio de beatas de cigarro e penas velhas, ninguém lhes dizia nada nem respondiam aos pedidos de esclarecimento, não havia nada que se assemelhasse a um serviço de bufê ou à oferta de refrescos e bebidas espirituosas. Os funcionários passavam rapidamente, adejando sobre o chão e fazendo-se surdos às questões dos que aguardavam com uma crescente impaciência. Era impressionante como a incompetência, a burocracia e a desorganização haviam ascendido às mais altas esferas, e fosse tão difícil fazer Check-in no Céu.

Um "cuento jíbaro"

A seu pedido, cortaram a cabeça ao marido morto, e procurou fazê-la encolher para a exibir num espacinho quadrado do móvel da sala. Uma pessoa comum poderia pensar que a simples intenção de o fazer já era um gesto chocante e bárbaro mas, para ela, não passava duma merecida retribuição, porque fora sempre isso que o marido lhe fizera enquanto fora vivo. Ferveu a cabeça cortada num caldo cuja composição retirara dum site, extraiu dela os miolos e os globos oculares, coseu os olhos, a boca e a ferida na base do crânio onde fora feito o corte. Ainda assim, a cabeça era muito grande para o espaço, e experimentou cortar as orelhas. Sem aquelas aletas descomunais, a cabeça coube à justa, mas assim, já não fazia muito sentido - o marido não poderia ouvir o que ela e as amigas tinham a dizer sobre os homens na reunião daquela tarde.

retweet

- Conto-te o meu segredo: sexo sem compromissos - disse a médica à colega patologista. 
   - E eu retribuo, contando o meu - erecção post-mortem!

rito

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Trôpego e desajeitado como era nos jogos de sedução, surpreendeu-o a facilidade com que aquela bela mulher de olhos grandes e unhas afiadas pareceu ceder aos seus encantos, e aceitou ir com ele para um quarto de hotel sem qualquer tipo de hesitação. Também o surpreendeu o seu nome, fragrante e melodioso como o nome de um vinho francês: Mantis.


o encontro

Depois de mails, tuítes, mensagens, marcaram finalmente encontro no café da gare. Como é que ela o reconheceria? Ele levaria uma rosa de papel na mão.
   Mas alguma coisa correu mal, porque a rosa apareceu sozinha.

fumo

A liberdade havia morrido. Começaram por colocar uma faixa negra, um fumo, no canto das imagens televisivas, nas capas dos livros e dos cd's. Depois, o luto alastrou-se, avançou como um incêndio de fumo muito negro e agora, o fumo não se contentava em ser apenas símbolo, sinal, evocação, agora, havia faixas negras a cobrir palavras, frases, capítulos inteiros, a eclipsar imagens e a emudecer vozes. A liberdade morta já fedia de podre que estava.

o óculo

Tinha tocado primeiro à campainha da porta, mas não tinha havido resposta, pelo que bateu à porta com os nós dos dedos, não com muita força porque não queria incomodar. Ninguém a abriu. Pôs-se em bicos de pés e espreitou pelo óculo da porta, mas não viu ninguém. Quem seria àquelas horas?! Vendedores ou pregadores? Espreitou novamente, e pareceu-lhe ver uma forma baça, certamente, uma pessoa esbatida pela jogo de imagens das lentes do óculo. Não abriu a porta, não se pode confiar em ninguém nos dias que correm. Bateu novamente, e novamente sem sucesso. Masquiu, coçou o pescoço, bateu o pé com impaciência. Espreitou novamente pelo óculo, mas já não viu ninguém, nem pessoa nem vulto. Desistiu, rumou à cozinha, serviu-se de um copo de Iced Tea e sentou-se na sala a ver televisão, um filme antigo no TCM, Dr. Jekyll & Mr. Hyde, de Rouben Mamoulian.

No viço

Josuvaldo abordou o colega de trabalho na cantina.
   - Sabes!? A minha filha diz que um dia gostava de ir à pesca comigo, ela tem nove anos e gostava de experimentar. O meu problema, é que eu nunca eu nunca pesquei, nem sei como se faz. Como tu és um tipo experimentado nessas andanças, pensei que me poderias ajudar com alguns conselhos...
   - Nada mais fácil, e nem precisas fazer pesquisas no Google. Compras um kit de pesca completo, com a cana, o molinete e os anzóis, espetas na ponta do anzol uma minhoca ou um bocado de sardinha de conserva e esperas que o peixe morda.
   - Assim parece fácil.
   - É fácil! E faz muito bem à cachimónia. Experimentem!
   Josuvaldo seguiu o conselho do colega, comprou um kit de pesca, uma lata de sardinha de conserva (não vendiam a retalho) e sentou-se com a filha na berma do molhe do porto, a montar a cana. O que eles não sabiam, é que aquelas águas estavam infestadas de tubarões sanguinários. E se pensam que isso é um cenário cruel, só vos poss…

dificuldades

"Passa por casa da minha mãe, e vê se ela precisa de alguma coisa. Mas sê simpático!" - recomendara-lhe a mulher. Ele acatou a recomendação. Depois de sair do trabalho, passou pelo prédio onde morava a sogra, tocou a campainha cá em baixo, ouviu-a perguntar quem era, respondeu e o trinco eléctrico da porta abriu-se. Subiu os quatro lances de escadas até ao segundo piso. A porta do apartamento estava encostada. Entrou.
   - Dona Dulce? - perguntou com um pé no interior.
   - Estou na casa-de-banho - respondeu ela aos gritos - está tudo bem, meu genro? Entra para a sala, que eu já aí vou.
   Passou à sala, a televisão estava ligada, exibindo uma telenovela mexicana com actrizes com a cabeleira enlacada, e actores de bigode ralo e patilhas compridas. Baixou discretamente o som e sentou-se, cruzando a perna. Ouvia barulhos estranhos na casa-de-banho, pancadas contra a porta, o som dum banco de madeira a embater no chão de mosaico, exclamações contidas de esforço ou desespero.…

um não-passatempo

A casa onde morava situava-se no alto da colina, o que lhe dava uma ampla visão de tudo o que o rodeava. Sentia-se mortalmente aborrecido e entreteve-se a contemplar sem ânimo o que se passava ao longe. Na encosta oposta à da sua casa, o terreno relvado subia do muro junto à estrada até uma ampla vivenda quase no topo do morro, uma vivenda térrea alpendrada, de paredes pintadas de branco. Havia gente cá fora, e procurou ver quem era. Distinguiu na perfeição a figura duma mulher no alpendre, que caminhava de uma forma esquisita como se um cão ou um furão lhe roesse a bainha das calças, mas logo concluiu ser uma impressão enganadora - a mulher estava a tentar andar de patins no alpendre, tinha as pernas arqueadas com os joelhos metidos para dentro, e olhava sempre para baixo, procurando equilibrar-se e não torcer algum pé. Andou nesse desforço uns poucos metros até à esquina da casa oposta àquela donde a vira surgir. Aí sentou-se no chão do alpendre, com os pés a balançar a poucos ce…
o ponteiro dos segundos move-se célere como uma criança que corre sem parar, o dos minutos fica por perto a vigiar como um pai atento, o das horas vem atrás a arrastar os pés, curvado sob o peso dos anos como um avô idoso

the prettiest face

Os turistas eram recebidos no aeroporto da ilha por um dignitário de serviço, rodeado por um séquito de dançarinas com trajes locais; e levados para o Hotel no extenso condomínio cercado, onde tinham tudo o que poderiam desejar - praia, piscinas, banquetes, espectáculos, eventos, Museus, ginásios, incursões por um parque faunístico, bailes ao luar, casinos. Quando acabava o tempo de férias eram conduzidos de volta ao aeroporto no mesmo autocarro que os havia trazido, um veículo de luxo de vidros espelhados, que cruzava as ruas miseráveis e pejadas de estropiados e mendigos, que erguiam inutilmente as mãos estendidas à caridade de quem não os via. E o paraíso era mesmo ali.

Florália

Apaixonou-se e ela pareceu-lhe uma flor. Transidamente, estonteou com a sua beleza, provou-lhe os néctares, embriagou-se com os seus perfumes,     e só se sentiu completo quando,     como uma borboleta sem asas, pousou nela as suas patinhas melificadas,     e como uma flor-gémea, lhe estendeu o estame vivaz.

Crisis

Na escola, os alunos não tinham material escolar adequado porque os pais não tinham dinheiro. As casas-de-banho da escola não tinham condições porque não havia dinheiro para o papel higiénico e não estavam limpas porque tinha havido redução de pessoal devido a cortes orçamentais e as funcionárias que haviam sobrevivido tinham de atender a um número insensato de escolas, pelo que não conseguiam fazer um trabalho capaz em nenhuma delas. Naquela escola também não havia professores, porque o Estado não podia comportar a manutenção de um ou mais professores a tempo inteiro, com tudo o que isso tem de acessoriamente dispendioso. Dinheiro, falta de dinheiro, prioridades, prioridades trocadas, escola, escola onde não se aprende. Haveria motivos para qualquer pessoa se sentir deprimido, não fosse pelo pequeno extraterrestre que acabara de ali chegar e que, observando tudo e todos, parecia ter aprendido algo de novo naquela escola, pelo menos, ria-se de tudo no seu modo peculiar e extraordi…

ciclo viscoso

A pequena companhia circense de saltimbancos e malabaristas acampou num terreno baldio à entrada da pequena aldeia. Naquela aldeia em particular, os habitantes eram quase todos velhos, porque os novos haviam ido para longe em busca de uma vida melhor, despovoando as ruas e as casas de sonhos e risos de crianças; mas mesmo assim, aqueles artistas acreditaram que seriam bem sucedidos ali, e alegraram as ruas com a sua música e as suas exibições, introduzindo novas cores e sons no silêncio adocicado dos velhos sentados em bancos de pedra nas ruas, e nos tons ocre e e cinza das fachadas de pedra e do reboco esfarelado dos edifícios a ameaçar ruína. Assim como chegaram, os saltimbancos e malabaristas voltaram a partir, devolvendo a aldeia à sua inanição. Mas este não foi um regresso tranquilo nem perfeito, porque os velhos que ali moravam deixaram de se sentir felizes e completos com o que antes tinham, por pouco que fosse, e a própria aldeia não recuperou às primeiras, porque logo na t…

A anomalia

O cadáver foi liberto pelo mar no areal da praia, um mar de ondas alterosas que ameaçavam reclamá-lo de novo. Um passeante teve o bom senso de agarrar o cadáver por um braço e arrastá-lo pela areia até ao alto duma duna próxima. Quando olhou bem para o corpo, assustou-se e correu a chamar as autoridades. As forças policiais chegaram pouco depois, montaram em volta um perímetro de interdição, e levaram dali o corpo, em cima duma maca, mas prudentemente dissimulado com um lençol branco. Na esquadra, e depois de  uma hora de grande frenesim, com contactos repetidos com as mais altas instâncias, chegou finalmente a ordem para autopsiarem o cadáver. As razões que estavam por trás de tanta agitação eram as mesmas que haviam causado o assombro do homem na praia. Aquele cadáver era completamente absurdo, e tinha muitas semelhanças anatómicas com um peixe ou um mamífero marinho, tinha mãos e pés espalmados com rosadas membranas interdigitais, algo semelhante a guelras no dorso, e na sua cab…

um caso excepcional

O homem chamou-o. Estava parado diante da sua casa, e acenava para ele, chamando em voz alta pelo seu nome.
   - O que me quer? - perguntou-lhe.
   - Sou um carteiro, e trago-lhe isto!
   E estendeu na sua direcção um envelope grosso de cor amarelo-torrado.
   - E o que é isso? - desconfiou.
   - Uma carta, o envelope duma carta. Lá dentro traz, talvez, uma folha de papel com uma mensagem escrita, talvez algumas fotos, ou um cartão postal dum país distante. Pelo volume, pode trazer muitas coisas...
  - Não sabia que ainda existiam cartas, ou seja, que as pessoas ainda mandavam papéis escritos uns para os outros, pensei que já tudo se resumia a mensagens de correio electrónico ou correio metacefálico.
   - Como vê, o envelope e a carta ainda existem, estão aqui, diante de si, embora seja muito esperar que a carta estivesse mesmo escrita à mão, porque isso sim, seria o paroxismo dos anacronismos.
  - Está bem, dê-me a carta! - anuiu por fim, pegando nela e começando a afastar-se - est…