INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Passagem

   Toda a sua vida, Menendez foi guarda de fronteira. Apenas isso. Vigiava, descobria os clandestinos e ajudava a capturá-los. Menendez já era avô quando, um dia, chegou um despacho importantíssimo da capital. Uma autoridade castrense prevenia que os dois países tinham acabado de se fundir e que aquela fronteira não existia mais. Os colegas de Menendez, mais jovens, foram transferidos para outras funções, a primeira das quais foi conduzir Menendez à reforma de uma forma económica: duas balas na cabeça e um sepulcro anónimo nas traseiras do posto de controlo. Menendez, se ainda estivesse vivo, certamente que aprovaria o lugar escolhido para o enterrarem: ele estava do seu lado da fronteira e sob esse céu imenso do deserto que sempre amara mais do que as fronteiras que os homens traçam a fogo nos mapas e nos corações.

desaforismo


   Quando um jornalista sensacionalista ouve dizer que o Universo está em expansão, o mais certo é ele escrever de imediato sobre os benefícios que isso trará para a Economia e para a saúde financeira dos países, porque as propriedades e o seu valor não irão parar de crescer.

as pontes

   Vivia numa aldeia, construída há séculos no ponto mais alto da pequena península de Faggi, que fora outrora uma ilha mas que o paciente trabalho da natureza unira à costa. Faggi era quase toda rocha e areia, com alguns, poucos, retalhos de terra arável que os habitantes cultivavam até ao limite. Da península para a costa,  ia-se por uma antiga ponte de pedra que passava sobre os rochedos de arestas agudas. Vivia numa pequena aldeia numa pequena península, e toda a vida cruzou aquela ponte num e noutro sentido. Do lado de cá da ponte, ficava a sua casa, os seus sonhos secretos e as suas solitárias aspirações (do lado de cá, quietos ainda que desassossegados, estremecendo numa ansiosa espera). Do outro lado da ponte, ficava o mundo extenso e aparentemente infindável, destino e sublimação óbvia desses sonhos e aspirações. Nunca cruzou a ponte com eles. Sabia que ela não aguentaria o peso.

despertar

   Sonhava acordada, sentada no cadeirão do alpendre na modorra daquela fim de tarde de Maio. Bem resfastelada, o cigarro a consumir-se entre os dedos e o sonho desperto a deslizar por ela. Mas não se deve sonhar acordada, a menos, que os outros disso não se apercebam. O vizinho do lado que de vez em quando a espiava do jardim, foi o primeiro a dar-se conta disso, e não perdeu a ocasião de arremessar uma tesoura de sebes e atingir as costas do adónis bronzeado que a procurava seduzir. A sua própria filha, logo começou a guinchar com força para anular o efeito dos acordes melancólicos de cítara que dançavam no ar; e o seu pequeno cão, um pequinês ciumento, enchia a boca de pétalas de rosa, urinando nas taças de cristal pousadas no chão, e pelas quais o seu adónis lhe dera de beber à boca, filtros de amor. Apagou o cigarro, pegou na filha ao colo e levou-a para dentro de casa, passando por cima do corpo caído aos seus pés.

Pensa, logo e-chiste

   - Como é que você perdeu o braço? - perguntou o médico ao mancebo no dia da inspecção.
   - Foi-me comido por um porco à solta. Fui criado numa quinta e a minha mãe costumava deixar-me no berço debaixo duma sombrinha enquanto trabalhava. Quando deu por ela, já o porco mo estava a devorar.
   - Credo! Não sabia que os porcos podiam fazer isso.
   - Os porcos são devoradores sofisticados. Se atacarem um homem desmaiado, começam pelas partes mais macias, como a barriga ou a barriga das pernas, e só então é que começam a abocanhar a carne em volta dos membros. Possuem um instinto ancestral para encontrarem o estômago à primeira dentada, talvez sintam o cheiro da comida que lá está dentro. Nessa quinta que lhes falei, soube do caso dum homem que teve um ataque cardíaco enquanto alimentava os porcos, e que estes reduziram a um monte de ossos.
   - Fosca-se! Em sessenta anos de vida nunca tinha ouvido uma coisa assim! Ainda bem que sou vegetariano!
   - Eu não estaria tão tranquilo...
   - Porquê?
   - Nunca ouviu falar dos rábanos estranguladores?

O tesouro oculto

 

    Possuía, aparentemente, uma vida vazia, anódina e fria.Os minutos escorriam como se se tivessem liquefeito os números no mostrador do relógio. Tinha rotinas precisas, quase invariáveis. Horas certas para se deitar e para se levantar, para tomar banho e lavar os dentes, para tomar as diferentes refeições e os comprimidos no final destas, para se sentar um pouco à varanda a ver a rua e as pessoas nos passeios ou nas janelas dos prédios da outra margem, ou ir até ao café para conversar um pouco com outros reformados, e indignar-se com estes contra algumas notícias dadas na televisão ou chapadas na capa dos jornais diários. Entre as entradas e saídas do seu próprio apartamento e o calcorrear dos degraus do prédio num ou noutro sentido, entre as vozes vagas e os silêncios familiares, ele tinha algo na sua vida que o redimia de tudo o mais, um piano, autêntico, negro, majestoso e brilhante como uma bela criatura das trevas. Tinha-o num quarto dos fundos, a repousar no quarto dos fundos como se aguardasse a hora de despertar. O velho homem não sabia tocar o velho piano, nem se atrevia arrancar-lhe intencionalmente uma nota que fosse. O piano já estava na casa quando a comprara e ele apenas zelava por ele, limpando cuidadosamente as suas teclas e engrenagem, puxando o lustro à sua pele cor de azeviche, e ao símbolo da marca escudado em traços e letras douradas. Parecia pouco para a vida dum ser humano, mas a ele sobejava-lhe em grandeza e majestade, dava sentido a todas as horas do seu dia, e fazia-o sentir-se ansioso pela hora de adormecer e sonhar, única altura do dia em que os seus dedos tocavam as teclas sem as profanar, fazendo-as soltar notas e melodias de uma beleza inaudita.

Hipodâmia

   - Onde vais? -perguntou à mulher, vendo-a perder tanto tempo a arranjar-se diante do espelho, pintura nos lábios e nas pestanas, um tom nas faces, risco nas sobrancelhas, outro creme esbatido no pescoço para disfarçar a pele enrugada.
   Ela respondeu quando lhe apeteceu, e isto quando já se ocupava do cabelo.
   - Vou àquela conferência com Quíren, já to tinha dito!
   -Ah, isso!...
   Uma conferência, e à noite, e logo na companhia dum centauro.
   Enquanto a mulher escolhia um vestido, parecendo incapaz de tomar uma decisão, ele aproximou-se da janela do apartamento e espreitou lá para fora. Quíren já estava lá em baixo à espera, parecia um pouco impaciente, as patas da frente apoiadas no topo em abóbada duma boca de incêndio, e as de trás a dançarem, martelando contra o alcatrão. Os cabelos compridos ondeavam ao ritmo do corpo. Um centauro! Tinha logo de calhar um centauro à sua mulher! Todos sabiam como eles tinham fama de lúbricos insaciáveis. Não se sentia descansado.
  Ouviu o retinir do comunicador do prédio e correu a atender.
  - Deve ser o Quíren, amor, importas-te...? - gritou a mulher, do quarto.
  - Sim, Quíren?! - disse ao comunicador no instante imediato.
  - A sua esposa está um pouco atrasada, o curso começa às nove...
  - Ela sabe...o curso ou conferência é sobre quê?
  - Sobre a crise da instituição do matrimónio, ou uma coisa assim...
  - Ah! Muito bem. Diz-me uma coisa, Quíren, aqui para nós, que a minha mulher não está a ouvir...
  - Diga!
  - Sabes que ela é casada, ou seja, que eu e ela somos casados, ou seja, que eu sou casado com ela. Não vais trazer a crise ao nosso matrimónio, pois não?
  - Quer saber se eu vou apenas com ela ao curso, ou se a vou levar para um quarto qualquer e montá-la até a rachar ao meio?
  - Sim, mais ou menos isso...
  - Esteja descansado, vou tratá-la como a uma donzela, ou como se eu próprio fosse uma tímida donzela.
  - Juras?
  - Juro!
   Respirou fundo. A mulher chegou-se ao pé dele com o seu vestido de eleição - um pouco decotado para o seu gosto - e despediu-se dele com um beijo fugaz. Ficou a observá-los da janela, procurando motivos para se sentir mais tranquilo. Viu aparecer primeiro a mulher, a descer o passeio, enquanto procurava qualquer coisa na carteira. Só depois viu Quíren, que seguia atrás, e que se imobilizara no passeio, a esgrimir com o seu pénis contra a boca de incêndio.

O céu pode esperar 2 (Brgs)

   Dom Ignacio de Montalbán, com a experiência de muitos anos de contendas e disputas, nunca recebia em sua casa alguém em quem não confiasse por completo mas, desta vez, abriu uma excepção, e mandou entrar o jovem Guillén, que surgiu diante de si nervoso e transpirado como um novilho desmamado.
   - Dom Ignacio!- cumprimentou, tomando nas mãos o chapéu de peão, e inclinando reverentemente a cabeça.
   O fidalgo não respondeu à saudação, apenas disse à criada que pusesse mais talheres na mesa, ao mesmo tempo que indicava a Guillén que se sentasse ao pé de si. A mesa fora posta sob a fresca latada de videiras nas traseiras da mansão, e estava bem guarnecida de pão, travessas de louça com carnes e uma garrafa bojuda de vinho, de cintura em palha entrançada. Dom Ignacio gostava de passar ali as tardes, observando ociosamente todo o bulício da fazenda, da chegada e  partida de boieiros e agricultores, ao movimento colorido das cavalariças.
   Após alguma insistência de Dom Ignacio, Guillén resolveu-se a comer alguma coisa, ainda contariado, mordiscou um pedaço de pão com torresmos, saboreou lascas finas de bom presunto, e rematou com um copo de vinho cheio até ao topo. Enquanto comia e bebia, Guillén olhava constantemente em volta, tomando nota mentalmente da posição dos homens de Dom Ignacio, das suas movimentações, tentando avaliar as possibilidades de sair dali com vida. A sua apreensão e nervosismo pareceram a Dom Ignacio de uma ingenuidade deliciosa. Resolveu atalhar caminho.
   - Vens para aquilo que eu penso, Guillén?
   - Sim, Dom Ignacio, estou aqui para o matar, tal como você matou o meu pai. O sangue paga-se com sangue.
   A sua mão já segurava com força a coronha da arma dissimulada sob o gibão dobrado. Um gesto ou um grito do velho fazendeiro, e dispararia de imediato. Mas a tranquilidade desconcertante de Dom Ignacio intrigou-o.
   - Isso pode esperar mais um pouco, Guillén, estarei tão bem morto daqui a um minuto, como daqui a uma hora ou duas. Bebe mais um pouco de vinho, ou come uma talhada de melão.
   Guillén recusou, olhava de soslaio para todos os movimentos de pessoas na fazenda. Não lhe parecia que a sua promessa ou o seu gesto ameaçador tivesse transparecido para além daquele recanto sob a latada. Mas não podia deixar as coisas arrastarem-se, tinha de disparar o quanto antes, e procurar fugir dali.
   -Pensa nisto, Guillén - eu sabia que um dia virias à minha procura, mas nada fiz para o contrariar, e até te recebi em minha casa, sem nenhum dos meus homens a proteger-me. Isso não te diz nada?
   - A comida! Você envenenou-me, mas vou matá-lo à mesma.
   - Não!! Podia tê-lo feito mas isso nunca me passou pela cabeça. De certeza que não sentes qualquer efeito. Se tivesse posto veneno, como tu suspeitas, já estarias no chão a estrebuchar. Agora voltemos ao que te trouxe aqui - dizes que eu matei o teu pai!?
   -Toda a gente o sabe, eu sei-o desde criança, e andei por esse mundo fora para você não me apanhar antes  que eu pudesse fazê-lo pagar por isso. Vai negá-lo?
   - O teu pai, quando tinha a tua idade, já me queria matar, mas não o podia fazer, porque me devia a vida. E desejava matar-me por puro ódio, e por vingança por eu ter sido durante muitos anos amante da tua mãe, e por lhe ter feito um filho, tu!
   Aquilo foi como uma ordem para Gullén, e o dedo premiu o gatilho, e a bala atravessou o gibão, alojando-se no ombro do velho. Uma multidão de pessoas alvoraçadas acorreu, mas foram detidas pela imperiosa mão levantada de Dom Ignacio. Com esforço, continuou a falar.
   - Como é que se mata um homem que não se pode matar? O teu pai planeou-o de uma forma hábil, traiu a minha confiança, roubou-me e fez com que eu o matasse, sabendo que um dia mais tarde, tu te encarregarias de me tirar a vida. Já pensaste nisso, Guillén? Ainda eras uma criança de colo e já tinhas essa arma e essas balas preparadas para me matar. Sem o saberes, carregaste sempre com o seu peso. Como é que vais resolver isto? Eu sou o teu pai, e queres matar-me por matar um ladrão. Que dívida de sangue pode pender sobre ti por ter morrido alguém que não é do teu sangue? O cobarde a quem chamas pai esperava que me matasses como matam os cobardes, a coberto da noite, ou que me emboscasses nalguma caminho de terra, ele nunca pensou que chegássemos à fala.
   Guillén tremia dos pés à cabeça, não sabia o que fazer, anos a fio à espera daquele momento e agora não sabia o que fazer, podiam ser tudo mentiras, invenções desesperadas dum velho que quer adiar a morte a todo o custo.
   - Sangue é sangue - rugiu, e descarregou as munições da arma no coração do velho.
   Quando o eco dos disparos se diluiu entre as casas, tudo mergulhou num profundo silêncio. Ninguém se moveu para o apanhar, para disparar sobre ele. Todas aquelas pessoas pareciam estátuas, a não ser pelo ódio que crepitava nos seus olhares e gestos contidos. Dom Ignacio devia ter dado previamente ordens para o pouparem. Certificou-se de que o velho morrera, cruzou a casa, passando pelos criados que pranteavam a morte do seu amo, e montou no seu cavalo que estava atado a um poste defronte da mansão.  Afastou-se a galope para longe da casa, para muito longe, andando sem destino enquanto todas as palavras trocadas entre ele e Dom Ignacio regressavam à sua memória, medidas e aquilatadas até à obsessão. Meteu-se por um caminho de pedra entre os montes, e continuou a cavalgar até as sombras começarem a cobrir o vale. Deteve então o cavalo ao pé duma árvore vigorosa e, desmontando, tirou a corda que pendia da sela e armou um laço que atirou por cima dum dos ramos mais fortes da árvore, como uma forca improvisada.

o céu pode esperar

   Há evos que a família esperava, e nas piores condições. A sala de espera, uma entre milhares, não tinha assentos bonitos e asseados, apenas nuvens cinzentas da poluição, e em volta um chão nojento cheio de beatas de cigarro e penas velhas, ninguém lhes dizia nada nem respondiam aos pedidos de esclarecimento, não havia nada que se assemelhasse a um serviço de bufê ou à oferta de refrescos e bebidas espirituosas. Os funcionários passavam rapidamente, adejando sobre o chão e fazendo-se surdos às questões dos que aguardavam com uma crescente impaciência. Era impressionante como a incompetência, a burocracia e a desorganização haviam ascendido às mais altas esferas, e fosse tão difícil fazer Check-in no Céu.

Um "cuento jíbaro"

   A seu pedido, cortaram a cabeça ao marido morto, e procurou fazê-la encolher para a exibir num espacinho quadrado do móvel da sala. Uma pessoa comum poderia pensar que a simples intenção de o fazer já era um gesto chocante e bárbaro mas, para ela, não passava duma merecida retribuição, porque fora sempre isso que o marido lhe fizera enquanto fora vivo. Ferveu a cabeça cortada num caldo cuja composição retirara dum site, extraiu dela os miolos e os globos oculares, coseu os olhos, a boca e a ferida na base do crânio onde fora feito o corte. Ainda assim, a cabeça era muito grande para o espaço, e experimentou cortar as orelhas. Sem aquelas aletas descomunais, a cabeça coube à justa, mas assim, já não fazia muito sentido - o marido não poderia ouvir o que ela e as amigas tinham a dizer sobre os homens na reunião daquela tarde.

retweet

   - Conto-te o meu segredo: sexo sem compromissos - disse a médica à colega patologista. 
   - E eu retribuo, contando o meu - erecção post-mortem!

rito

   Trôpego e desajeitado como era nos jogos de sedução, surpreendeu-o a facilidade com que aquela bela mulher de olhos grandes e unhas afiadas pareceu ceder aos seus encantos, e aceitou ir com ele para um quarto de hotel sem qualquer tipo de hesitação. Também o surpreendeu o seu nome, fragrante e melodioso como o nome de um vinho francês: Mantis.


o encontro

   Depois de mails, tuítes, mensagens, marcaram finalmente encontro no café da gare. Como é que ela o reconheceria? Ele levaria uma rosa de papel na mão.
   Mas alguma coisa correu mal, porque a rosa apareceu sozinha.

fumo

   A liberdade havia morrido. Começaram por colocar uma faixa negra, um fumo, no canto das imagens televisivas, nas capas dos livros e dos cd's. Depois, o luto alastrou-se, avançou como um incêndio de fumo muito negro e agora, o fumo não se contentava em ser apenas símbolo, sinal, evocação, agora, havia faixas negras a cobrir palavras, frases, capítulos inteiros, a eclipsar imagens e a emudecer vozes. A liberdade morta já fedia de podre que estava.

o óculo

   Tinha tocado primeiro à campainha da porta, mas não tinha havido resposta, pelo que bateu à porta com os nós dos dedos, não com muita força porque não queria incomodar. Ninguém a abriu. Pôs-se em bicos de pés e espreitou pelo óculo da porta, mas não viu ninguém. Quem seria àquelas horas?! Vendedores ou pregadores? Espreitou novamente, e pareceu-lhe ver uma forma baça, certamente, uma pessoa esbatida pela jogo de imagens das lentes do óculo. Não abriu a porta, não se pode confiar em ninguém nos dias que correm. Bateu novamente, e novamente sem sucesso. Masquiu, coçou o pescoço, bateu o pé com impaciência. Espreitou novamente pelo óculo, mas já não viu ninguém, nem pessoa nem vulto. Desistiu, rumou à cozinha, serviu-se de um copo de Iced Tea e sentou-se na sala a ver televisão, um filme antigo no TCM, Dr. Jekyll & Mr. Hyde, de Rouben Mamoulian.

No viço

   Josuvaldo abordou o colega de trabalho na cantina.
   - Sabes!? A minha filha diz que um dia gostava de ir à pesca comigo, ela tem nove anos e gostava de experimentar. O meu problema, é que eu nunca eu nunca pesquei, nem sei como se faz. Como tu és um tipo experimentado nessas andanças, pensei que me poderias ajudar com alguns conselhos...
   - Nada mais fácil, e nem precisas fazer pesquisas no Google. Compras um kit de pesca completo, com a cana, o molinete e os anzóis, espetas na ponta do anzol uma minhoca ou um bocado de sardinha de conserva e esperas que o peixe morda.
   - Assim parece fácil.
   - É fácil! E faz muito bem à cachimónia. Experimentem!
   Josuvaldo seguiu o conselho do colega, comprou um kit de pesca, uma lata de sardinha de conserva (não vendiam a retalho) e sentou-se com a filha na berma do molhe do porto, a montar a cana. O que eles não sabiam, é que aquelas águas estavam infestadas de tubarões sanguinários. E se pensam que isso é um cenário cruel, só vos posso dizer que, mais cruel ainda, é que os tubarões não sabiam que eles os iriam pescar.

dificuldades

   "Passa por casa da minha mãe, e vê se ela precisa de alguma coisa. Mas sê simpático!" - recomendara-lhe a mulher. Ele acatou a recomendação. Depois de sair do trabalho, passou pelo prédio onde morava a sogra, tocou a campainha cá em baixo, ouviu-a perguntar quem era, respondeu e o trinco eléctrico da porta abriu-se. Subiu os quatro lances de escadas até ao segundo piso. A porta do apartamento estava encostada. Entrou.
   - Dona Dulce? - perguntou com um pé no interior.
   - Estou na casa-de-banho - respondeu ela aos gritos - está tudo bem, meu genro? Entra para a sala, que eu já aí vou.
   Passou à sala, a televisão estava ligada, exibindo uma telenovela mexicana com actrizes com a cabeleira enlacada, e actores de bigode ralo e patilhas compridas. Baixou discretamente o som e sentou-se, cruzando a perna. Ouvia barulhos estranhos na casa-de-banho, pancadas contra a porta, o som dum banco de madeira a embater no chão de mosaico, exclamações contidas de esforço ou desespero. Pegou num prospecto pousado na mesa de centro da sala, que publicitava um aparelho auditivo, e procurou ler com algum resquício de interesse, mas os ruídos na casinha do lado sabotaram essa tentativa. Caramba! Não tinha o dia todo! Levantou-se e aproximou-se da porta da casa-de-banho.
   - Dona Dulce?! Está tudo bem?
   A porta abriu-se e ela saiu ao pé-coxinho, a segurar o banco de madeira numa mão e a perna na outra.  Sentou-se pesadamente, com um ar de derrotada.
   -Ajuda-me a enroscar a perna, por favor! - pediu.
   Ele acedeu. Ela sentou-se com a bacia um pouco levantada de lado, ele encontrou a fêmea do parafuso de platina da perna e enroscou-a até ao fim, tendo o cuidado de verificar se a ponta do pé estava mesmo apontada para a frente.
   - Desculpa o trabalho, meu querido.Vou só voltar à casa-de-banho um momento, e depois podemos conversar longamente na sala sobre a família, o governo da nação, e os episódios que me acontecem neste prédio.
   Sê simpático! Sê simpático! Sê simpático!
   - Dona Dulce?!
   - Sim, meu filho?
   - Antes de entrar na casa-de-banho, não quer que eu lhe enrosque melhor a cabeça?

um não-passatempo

   A casa onde morava situava-se no alto da colina, o que lhe dava uma ampla visão de tudo o que o rodeava. Sentia-se mortalmente aborrecido e entreteve-se a contemplar sem ânimo o que se passava ao longe. Na encosta oposta à da sua casa, o terreno relvado subia do muro junto à estrada até uma ampla vivenda quase no topo do morro, uma vivenda térrea alpendrada, de paredes pintadas de branco. Havia gente cá fora, e procurou ver quem era. Distinguiu na perfeição a figura duma mulher no alpendre, que caminhava de uma forma esquisita como se um cão ou um furão lhe roesse a bainha das calças, mas logo concluiu ser uma impressão enganadora - a mulher estava a tentar andar de patins no alpendre, tinha as pernas arqueadas com os joelhos metidos para dentro, e olhava sempre para baixo, procurando equilibrar-se e não torcer algum pé. Andou nesse desforço uns poucos metros até à esquina da casa oposta àquela donde a vira surgir. Aí sentou-se no chão do alpendre, com os pés a balançar a poucos centímetros do chão relvado do jardim, e notou que ela conversava. Havia um homem sentado numa cadeira na relva, tinha um portátil pousado nas pernas e escrevia ao mesmo tempo que erguia um pouco a cabeça para manter o diálogo com ela. A cena principiava a aborrecê-lo, um aborrecimento feito de memórias vagas e ausências dolorosas, sensação que se agravou quando saiu de dentro de casa uma criança pequena que se atirou para o pescoço daquela mulher que devia ser sua mãe, estreitando-o com força como se se agarrasse à vida. Ver aquilo, foi demais, oprimiu-o. Desistiu de ser curioso, e fechou-se no seu reduto, encostando a cabeça etérea aos tijolos decrépitos que emparedavam a janela antiga da casa.


o ponteiro dos segundos move-se célere como uma criança que corre sem parar, o dos minutos fica por perto a vigiar como um pai atento, o das horas vem atrás a arrastar os pés, curvado sob o peso dos anos como um avô idoso

the prettiest face

 Os turistas eram recebidos no aeroporto da ilha por um dignitário de serviço, rodeado por um séquito de dançarinas com trajes locais; e levados para o Hotel no extenso condomínio cercado, onde tinham tudo o que poderiam desejar - praia, piscinas, banquetes, espectáculos, eventos, Museus, ginásios, incursões por um parque faunístico, bailes ao luar, casinos. Quando acabava o tempo de férias eram conduzidos de volta ao aeroporto no mesmo autocarro que os havia trazido, um veículo de luxo de vidros espelhados, que cruzava as ruas miseráveis e pejadas de estropiados e mendigos, que erguiam inutilmente as mãos estendidas à caridade de quem não os via. E o paraíso era mesmo ali.

Florália


   Apaixonou-se e ela pareceu-lhe uma flor. Transidamente, estonteou com a sua beleza, provou-lhe os néctares, embriagou-se com os seus perfumes, 
   e só se sentiu completo quando, 
   como uma borboleta sem asas, pousou nela as suas patinhas melificadas, 
   e como uma flor-gémea, lhe estendeu o estame vivaz.

Crisis


   Na escola, os alunos não tinham material escolar adequado porque os pais não tinham dinheiro. As casas-de-banho da escola não tinham condições porque não havia dinheiro para o papel higiénico e não estavam limpas porque tinha havido redução de pessoal devido a cortes orçamentais e as funcionárias que haviam sobrevivido tinham de atender a um número insensato de escolas, pelo que não conseguiam fazer um trabalho capaz em nenhuma delas. Naquela escola também não havia professores, porque o Estado não podia comportar a manutenção de um ou mais professores a tempo inteiro, com tudo o que isso tem de acessoriamente dispendioso. Dinheiro, falta de dinheiro, prioridades, prioridades trocadas, escola, escola onde não se aprende. Haveria motivos para qualquer pessoa se sentir deprimido, não fosse pelo pequeno extraterrestre que acabara de ali chegar e que, observando tudo e todos, parecia ter aprendido algo de novo naquela escola, pelo menos, ria-se de tudo no seu modo peculiar e extraordinário de rir. 

ciclo viscoso

   A pequena companhia circense de saltimbancos e malabaristas acampou num terreno baldio à entrada da pequena aldeia. Naquela aldeia em particular, os habitantes eram quase todos velhos, porque os novos haviam ido para longe em busca de uma vida melhor, despovoando as ruas e as casas de sonhos e risos de crianças; mas mesmo assim, aqueles artistas acreditaram que seriam bem sucedidos ali, e alegraram as ruas com a sua música e as suas exibições, introduzindo novas cores e sons no silêncio adocicado dos velhos sentados em bancos de pedra nas ruas, e nos tons ocre e e cinza das fachadas de pedra e do reboco esfarelado dos edifícios a ameaçar ruína. Assim como chegaram, os saltimbancos e malabaristas voltaram a partir, devolvendo a aldeia à sua inanição. Mas este não foi um regresso tranquilo nem perfeito, porque os velhos que ali moravam deixaram de se sentir felizes e completos com o que antes tinham, por pouco que fosse, e a própria aldeia não recuperou às primeiras, porque logo na tarde em que os artistas seguiram o seu caminho, todos puderam ouvir nas ruas e nas pedras, na sombra das arcadas e no recesso das entradas das casas, um profundo e mineral suspiro de tristeza.


A anomalia

   O cadáver foi liberto pelo mar no areal da praia, um mar de ondas alterosas que ameaçavam reclamá-lo de novo. Um passeante teve o bom senso de agarrar o cadáver por um braço e arrastá-lo pela areia até ao alto duma duna próxima. Quando olhou bem para o corpo, assustou-se e correu a chamar as autoridades. As forças policiais chegaram pouco depois, montaram em volta um perímetro de interdição, e levaram dali o corpo, em cima duma maca, mas prudentemente dissimulado com um lençol branco. Na esquadra, e depois de  uma hora de grande frenesim, com contactos repetidos com as mais altas instâncias, chegou finalmente a ordem para autopsiarem o cadáver. As razões que estavam por trás de tanta agitação eram as mesmas que haviam causado o assombro do homem na praia. Aquele cadáver era completamente absurdo, e tinha muitas semelhanças anatómicas com um peixe ou um mamífero marinho, tinha mãos e pés espalmados com rosadas membranas interdigitais, algo semelhante a guelras no dorso, e na sua cabeça oblonga, o rosto parecia recoberto por finas placas ósseas de onde se destacavam dois olhos salientes, globulares, e uma boca sem lábios, que parecia mais um traço sumido acima do queixo ossudo e escamoso.
   Mesmo antes de iniciarem a autópsia, os clínicos já tinham como garantido por aquela sumária observação do corpo, que estavam diante duma criatura insólita e sem antecedentes registados na história da ciência. Era mais do que evidente, uma vez que aquele corpo sem vida não possuía quatro braços como eles, as pernas curtas e lateralizadas, nem a cauda grossa com que mantinham o equilíbrio e cadenciavam o andar.

um caso excepcional

  O homem chamou-o. Estava parado diante da sua casa, e acenava para ele, chamando em voz alta pelo seu nome.
   - O que me quer? - perguntou-lhe.
   - Sou um carteiro, e trago-lhe isto!
   E estendeu na sua direcção um envelope grosso de cor amarelo-torrado.
   - E o que é isso? - desconfiou.
   - Uma carta, o envelope duma carta. Lá dentro traz, talvez, uma folha de papel com uma mensagem escrita, talvez algumas fotos, ou um cartão postal dum país distante. Pelo volume, pode trazer muitas coisas...
  - Não sabia que ainda existiam cartas, ou seja, que as pessoas ainda mandavam papéis escritos uns para os outros, pensei que já tudo se resumia a mensagens de correio electrónico ou correio metacefálico.
   - Como vê, o envelope e a carta ainda existem, estão aqui, diante de si, embora seja muito esperar que a carta estivesse mesmo escrita à mão, porque isso sim, seria o paroxismo dos anacronismos.
  - Está bem, dê-me a carta! - anuiu por fim, pegando nela e começando a afastar-se - estes envelopes não têm de ser pagos?
  - Os envelopes armadilhados, não - explicou o carteiro, em voz baixa, já acocorado.

Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...