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Um telefonema

   Com algum esforço, não isento de dor, conseguiu passar da cadeira de rodas para o sofá, e acomodou-se nele, reposicionando a almofada nas costas. Olhou em redor. A senhora que lhe servia de enfermeira estava na cozinha, a preparar-lhe o almoço. Podia ouvir o roncar do forno do micro-ondas e o retinir de talheres e pratos. Não gostava nada dela, achava-a sinistra e perturbante. Estava por todo o lado, disponibilizando-lhe ajuda de uma forma sufocante, e inquirindo sobre todos os seus gestos e movimentos. Agora parecia ocupada, e aproveitou para alcançar o telefone pousado na mesinha de centro. Procurou na lista de contactos o nome do irmão e ligou-lhe. Levou algum tempo a atender, e ele sempre com o olhar cravado na porta da cozinha.
   - Sim? Estou? - ouviu do outro lado.
   - João! Sou eu o Augusto. Sabes que a minha vida anda a ficar muito estranha?
   - Não me digas?!
   - É verdade. Primeiro tive aquela intoxicação alimentar no restaurante. Perdi os sentidos e levaram-me para o Hospital. Dai, vim para casa, e a Seguradora do restaurante providenciou-me cuidados especiais e uma enfermeira para me acompanhar vinte e quatro horas por dia. Foi então que tu apareceste, vinhas muito alterado, e estiveras a discutir com alguém, mas não me quiseste contar nada. Lembras-te disso?
  - Claro, não é? Se era eu, tinha de me lembrar! Mas porque é que me estás a telefonar?
   - As coisas continuam muito estranhas, João. Esta é a minha casa, mas não parece a minha casa, parece mais um cenário, como se alguém a tivesse recriado ao mínimo pormenor.  Estou muito fraco e dorido, e não faço mais do que transitar da sala para a cozinha e para a casa-de-banho, mas há coisas absurdas que parecem claras ao meu espírito...
   - Quais, Augusto?
   - Isto é tudo irreal. Quando estou aqui no sofá da sala e olho pela janela grande, a luz do exterior é a que seria normal esperar da hora em que estou, mas o exterior de hoje é igual ao de ontem e ao do dia anterior. São os mesmos detalhes à mesma hora, como num filme. O canto das rolas, os movimentos das folhas da faia, a folha de árvore que desliza rente à janela pelas cinco da tarde. Só me apetece sentar-me na cadeira de rodas, abrir a porta da rua e sair...
   - Não faças isso! - gritou João - eles não iriam gostar, e punhas a tua vida em perigo!
   Fez-se um longo silêncio, confrangedor. Augusto digeria as palavras do irmão, e este arrependia-se de ter pronunciado.
  - Quem são eles, João?
   - Eles são eles, é só o que te posso dizer. Desculpa-me, mas não me deixam falar mais nada, e nem deveríamos estar a falar pelo telefone. Deve ser algum teste...
   - Diz-me só uma coisa, João. Se eu não fizer nem disser nada, e ficar aqui quietinho no meu canto, achas que a minha vida deixa de correr perigo?
   - Não sei, Augusto, gostaria de acreditar nisso, mas não sei. Fica bem, vou desligar. Gosto muito de ti!
   Ouviu a chamada cair. Pousou suavemente o telefone na mesa de centro, e recostou-se no sofá, apenas alguns instantes antes da enfermeira entrar na sala, empurrando o carrinho de chá com a sua bandeja do almoço. Augusto passou as mãos pelo rosto como se quisesse apagar qualquer traço de preocupação. Tinha as mãos frias, geladas.

Geena

                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma ...