planetas


   Quando assinou o contrato como vendedor de imóveis foi-lhe confiado um medidor de distâncias a Laser para exercer o seu trabalho. Leve esse brinquedo para casa este fim-de-semana, para se familiarizar com ele – disseram-lhe.
   Levou o aparelhómetro para casa, ainda dentro da embalagem original. No Domingo de manhã, depois de tomar o pequeno-almoço no café e folhear os jornais do dia, aplicou-se a aprender a usar o medidor de distâncias. Começou por medir a distância entre as paredes da sua sala e calcular a área. Apontou os resultados obtidos e comparou-os com uma medição arcaica com um fita métrica e subsequente cálculo da área. Os valores coincidiam, aquele aparelho era mesmo bom.
   Leu cuidadosamente o manual. Podia conhecer a distância de qualquer objecto, e obter o resultado em metros ou jardas, e o mesmo medidor podia servir para distâncias maiores desde que aplicasse a placa apropriada, que vinha no estojo. Usou a placa e levou o medidor para o jardim para um novo ensaio. Do banco de madeira encostado à parede lateral da casa ao portão do jardim, 3,30 metros, do mesmo banco ao placard publicitário na rua, 7, 10 metros. Ao carro estacionado em cima do passeio, 4,80; ao poste de luz, 5,10 metros.
   A mulher chamou-o. Estendia roupa no varal e pedia-lhe que lhe chegasse o saco de plástico com molas.  Apontou o medidor de distâncias á mulher e premiu o botão. Dois anos-luz, foi o cálculo apresentado. “Este medidor está avariado!”, pensou, e sem ligar aos rogos da mulher, aproximou-se da cerca da casa. O vizinho da frente estava defronte da casa, a lixar com uma pequena rebarbadora as placas de madeira da cerca. Apontou-lhe o medidor e premiu o botão: vinte anos-luz, foi o que obteve do aparelho.

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