ouro enterrado

   Um homem comum, com dois braços, duas pernas e uma cabeça com três orelhas, passeava pelo parque da cidade, quando sentiu uma espécie de intuição ou arroubo místico ao descortinar um losango de relva com uma tonalidade diferente da relva em redor (como os outros homens comuns de três orelhas, este também dava muita importância aos sinais). Da forma em losango inferiu o naipe de ouros das cartas de jogar, e deste, a certa certeza de que havia um tesouro enterrado naquele lugar.
   Saiu do parque, a pé, e foi a pé até casa, vencendo a custo uma distância odisseica de quase vinte e cinco metros. Em casa, tirou do armário uma enxada e voltou ao parque (porque é que um homem que vive na cidade e num quarto alugado, há-de ter uma enxada no armário, é coisa que ninguém foi capaz de me explicar até agora). No parque, arregaçou as mangas até aos cotovelos e começou a escavar no centro do losango. Escavou muito e com método, e ao cabo de duas horas havia aberto uma vala funda com o feitio dum losango. Em volta juntara-se uma pequena multidão e no meio dela, vários funcionários do parque e um polícia.
   "Deve estar a cavar para se plantar uma árvore nova!" - pensava um dos funcionários.
   "A este, ainda não lhe tocaram nas regalias salariais" - reflectia o polícia, admirando o empenho com que escavava.
   E as pessoas continuaram a chegar, espreitando por cima do ombro das que já lá estavam e engrossando a multidão porque já não se podiam retirar por haver já outros curiosos atrás deles.
   Por fim, o homem, olhando em volta com as mãos e as orelhas cheias de terra, compreendeu a inutilidade da empresa. Não havia tesouro nenhum naquele lugar!
   - Estou cansado! - gritou do fundo da vala - há por aí alguém que me dê a extrema-unção?
   - Eu dou! - respondeu um sacerdote que, por um feliz acaso, estava nas filas da frente. E cumpriu o ritual, ao mesmo tempo que o homem com três orelhas fazia chegar aos espectadores a enxada com que o iriam enterrar. Toda a multidão em redor do buraco em forma de losango guardou um respeitoso silêncio pela ocasião, com expressões graves e o gesto inútil mas muito belo de desencasquetar da cabeça um chapéu irreal.
   E mesmo a Natureza se dispôs a colaborar com aquele funeral inopinado, fazendo cair sobre a cabeça das pessoas uma morrinha tão triste como o pranto duma viúva alegre.

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