os tempos e as vontades


   Finalmente, talvez mais tarde do que seria ideal, o engenho humano conseguira criar um engenho mecânico cuja única fonte de combustível era a água, apenas água, H2O sem misturas nem aditivos. A invenção foi recebida com euforia e multiplicaram-se as aplicações da descoberta. Veículos que se deslocavam sobre rodas  no solo ou deslizavam no eixo do monocarril, pequenas aeronaves para passear na exígua atmosfera, escavadoras-perfuradoras que permitiam criar um espaço virgem no subsolo de rocha branda e que os proprietários transformavam depois numa nova moradia subterrânea, para residência ou especulação lucrativa.
   O único senão da grande descoberta é que naquele lugar, o asteróide gigante S-V-3028, a água era um bem muito escasso, que era racionado para todos os habitantes. Mas se perguntassem a qualquer um dos habitantes se estaria disposto a abdicar dos veículos e máquinas movidas a água, a resposta seria maioritariamente negativa; porque havia sempre pequenos recursos e truques administrativos aos quais lançar mão. Intrujar no racionamento, omitir para o exterior a morte dalgum dos membros do círculo familiar para, dessa forma, dividirem o seu quinhão e, por último, o recurso derradeiro, que era fazer desencarnar algum familiar menos popular, como uma avó muito velha, ou um primo muito afastado e que acabara de chegar à colónia, sem dar tempo a que desenvolvessem por ele qualquer tipo de laço afectivo.

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