Os novos Tempos Modernos



   Viu-a pela primeira vez a uma Terça-Feira, no átrio do Centro de Emprego para onde todos os dias peregrinava. Sempre tinha que ficar por ali à seca por umas horas e por isso, mais valia fazer algo de agradável. Meteu conversa.
   - É nova por aqui…
   - Sim, perdi o emprego…
   - A fábrica fechou? O patrão deu parte de maluco e transferiu o capital para as Baleares?
   - Quase isso. Num dia tinha uma empresa onde trabalhar, no outro dia só lá estava o edifício, com as portas abertas, e esvaziado por artes mágicas.
   - Mais ou menos a mesma história de todos, com louváveis variantes porque senão isto parecia uma falésia de ecos. Chamo-me Nuno! – adiantou, beijando-lhe a face. 
   - Clara! – retribuiu ela, aceitando o cumprimento.
   Prolongaram a conversa, naquele dia, e nos que se seguiram nas semanas seguintes (é repetitivo, eu sei). Á Quinta, ela nunca vinha porque ia visitar os ex-sogros, e à Sexta à tarde, era o dia em que ele faltava à função porque apesar dos seus trintas e tais anos e da barriga de cerveja, ainda se entretinha com os amigos nuns desafios de futebol de salão, em que não conseguia mais do que dores musculares e um despertar doloroso na manhã seguinte.
   No tempo que os dois ali passavam, faziam o que todos faziam, viam as (raríssimas) ofertas de emprego, e esperavam, entrevistavam-se com algum dos funcionários, e esperavam, bebiam um café aguado de máquina e esperavam, inscreviam-se nalgum curso ou acção de formação e esperavam. Enquanto tanto esperavam, Nuno e Clara, enriqueceram a sua relação com longas conversas e pequenas cumplicidades, e se ali se sentiam próximos, fora dali, a sua proximidade subiu de nível, e começaram a passar a noite juntos.. E decidiram viver juntos, pelo menos, durante alguns dias seguidos.
   Os dias juntos evoluíram para semanas juntos e meses e anos, e todos eles se desenrolaram dentro e em torno do Centro de Emprego. Porque os dois continuaram a ir ali sem que nenhum dos dois obtivesse emprego. A viver de biscates e pequenos trabalhos, os dois continuam a viver juntos sob o mecenato dos pais dum e doutro, e compraram um carro com o dinheirinho da venda dum terreno do sogrinho dela, e fizeram um pé-de-meia com umas doações regulares da sogrinha do lado oposto. Quando Clara ficou grávida, os pais deles abençoaram a criança que vinha a caminho, e confabulando entre eles, contaram ao casal que, afinal, ainda havia uns ouritos dum e doutro lado que iriam vender para os ajudar nos primeiros tempos como pais. Quando nasceu o rebento, tão grande que teve de ser de cesariana para não arrebentar com a mãe, ela escolheu para futuro padrinho o segurança do Centro de Emprego, e coube a ele escolher a madrinha, e não teve qualquer dúvida em escolher a Matilde, uma desempregada militante que sempre por ali vira, e que tinha mais anos daquilo do que todas as pessoas dali com quem conversara. O baptizado não foi no edifício, nem os comes e bebes, mas quando regressaram a casa, os dois fizeram questão de parar o carro junto ao passeio, mostrar ao pequeno a fachada do Centro de Emprego e fazer as devidas apresentações:
   -Meu filho, esta é a nossa segunda casa!


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