a odisseia de educar

     Ao casal havia nascido um par de gémeos em hora auspiciosa, inaugurando uma felicidade que se prolongou por quatro anos, até um dos gémeos morrer atropelado por um carro. Depois de devidamente chorada a morte e amaldiçoado os céus, seguiram com a vida, mandando embalsamar o filho morto para permanecer com eles e continuar a fazer parte integrante das rotinas diárias. A criança embalsamada era objecto de cuidados idênticos aos dispensados ao irmão, e vestiam-lhe uma roupa diferente quando iam jantar a um restaurante, passear ao fim-de-semana, a uma peça de teatro ou ao futebol, ou quando iam para fora de férias. Além de ser uma presença reconfortante, revelou ser também, um valioso recurso pedagógico. Se o irmão fazia muito barulho pela casa, ou desarrumava os brinquedos todos, os pais apontavam a criança embalsamada e diziam: "Porque é que não consegues ser como o teu irmão? Vê lá se ele desarruma tudo, ou se faz tanto barulho como tu?!". E diziam algo parecido no restaurante, quando os dois irmãos se perfilavam um ao lado do outro em cadeirinhas suspensas do tampo da mesa, e o mais velho dos gémeos se recusava a comer o que estava no prato ou fazia muito barulho com os talheres. O irmão embalsamado colaborava no processo, acenando afirmativamente com a cabeça quando os pais diziam estas coisas ao irmão, ou trocando a sua habitual expressão vazia por uma expressão de felicidade búdica, para mostrar ao irmão como era mais sensato e realizado do que ele. Pelo menos, quando os outros estavam a ver.

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