O tesouro dum "nerd"

    Há umas dezenas de anos, a Biblioteca de Caldas da Rainha não contava com as instalações modernas e actualizadas que hoje possui, e funcionava nos pavilhões Berquó do Parque D.Carlos I, e que devem o seu nome ao autarca-arquitecto de novecentos Rodrigo Berquó; esses pavilhões ainda hoje lá se encontram, a degradarem-se como a ossatura de pedra dum velho dinossauro, e para felicidade dos pombos que têm o seu amplo condomínio privado no desvão sob o telhado dos pavilhões e em muitas salas de vidros partidos.  A Biblioteca não tinha as condições ideais para funcionar, compunha-se apenas de duas salas e um corredor de ligação entre elas, o chão era de sobrado (que vacilava nalguns pontos sob os nossos pés) e as paredes estavam preenchidas por estantes altas repletas de livros, de mais livros dos que seria funcional  e sensato manter aí. Mas possuía o encanto próprio das bibliotecas antigas, um enigmático lugar de luz e penumbra com aquela fragrância a livros velhos que aguça a imaginação e incita à descoberta.
    Por essa altura eu, ainda na adolescência, criei o hábito de ir até à Biblioteca nos tempos que as aulas me deixavam livre, e converti-me durante uns dois anos num aplicado rato-de-biblioteca. E o que é que se pode fazer numa biblioteca antiga? Ler? A resposta pode parecer estranha, mas o que eu fazia aí era, literalmente, explorar, como um Ivens ou um Serpa Pinto de monos e velharias literárias. A Biblioteca tinha livros a mais e, por detrás dos livros que expunham as suas lombadas ao nosso olhar nas estantes, acamavam-se uns em cima de outros na penumbra, outros livros, cujo teor e título só se conseguia descobrir quando os libertávamos do seu resignado degredo. E era isso que eu fazia, apesar da notória desconfiança e estranheza da bibliotecária em funções. Tirava para cima duma das mesas uns quantos livros da frente, e retirava uma pilha de livros esquecidos e folheava-os um a um, abrindo ao calhas e lendo alguns excertos.  Quando algum me parecia de mais interesse, requisitava-o para ler fora dali. Por vezes, sentia-me algo abençoado pelo facto de descobrir algum livro com as páginas ainda coladas, o que era sinal de que ninguém antes o havia lido naquele lugar; e pedia emprestado à bibliotecária um corta-papéis que ali havia e, com extrema satisfação, libertava essas folhas, abrindo-as nas dobras em que estavam coladas. Data desse tempo a minha inclinação pessoal para a economia de tempo na leitura. Como abranger todos os livros esquecidos de todas as estantes parecia-me uma tarefa infindável, comecei a eleger para levar para casa, primeiro os livros mais pequenos, de leitura mais rápida, e depois, os livros de contos, porque poderia ler ali mesmo uma história do princípio ao fim e avaliar se requisitaria ou não o livro para ler o resto, o que se torna mais prático do que ler uns parágrafos duma novela ou dum romance.
   Numa das vezes que pedi para abrir um livro de páginas coladas, o que fazia sempre sob apertada e austera vigilância, a bibliotecária gracejou comigo (coisa que eu nunca a vira fazer com ninguém), dizendo que eu deveria andar à procura dalgum tesouro, e pediu-me sarcasticamente, que eu a avisasse se porventura encontrasse algum. Eu concordei em fazê-lo, aliás, tomei aquele desafio à letra porque acreditava, e ainda acredito, que as Bibliotecas encerram mais tesouros do que as Caraíbas dos corsários. E continuei no meu labor dos tempos livres, assustando ácaros e rasgando folhas para explorar os livros ocultos. E o tesouro surgiu-me umas duas semanas depois dessa conversa com a bibliotecária. Encontrei na sombra de outros livros um pequeno livro de Erskine Caldwell, O Pregador, que requisitei de imediato sem o folhear, porque já conhecia o autor duma antologia de contos seus que havia lido um pouco antes, e que havia sido editada, creio eu, pela Atlântida de Coimbra. A leitura do livro foi uma delícia, uma divertida obra-prima de sátira social e crítica de costumes. Quando o devolvi à Biblioteca, perguntei à dita bibliotecária se ainda se lembrava da nossa conversa sobre o tesouro oculto da Biblioteca. Como ela o confirmasse, apontei-lhe o livro de Caldwell e afirmei com segurança:
   - Encontrei o meu primeiro tesouro, é esse livro!
   Ela arqueou as sobrancelhas, ajeitou os aros dos óculos, como tantas vezes fazia, e considerou:
   - Caldwell!! Tem toda a razão, é uma bela descoberta! Vou arrumá-lo noutro lugar para que outros o leiam. Parabéns! Agora que encontrou o seu tesouro, já está mais rico!
   Agradeci, um pouco na incerteza se ela estava a falar a sério, ou se estava apenas a ironizar com delicadeza. De todas as formas, prossegui as minhas explorações, procurando e descobrindo outros tesouros naquela velha biblioteca. E poderia ter prosseguido pelos anos fora naquele labor de roedor se, pelo caminho, não me tivesse apaixonado perdidamente por uma colega de turma, uma paixão platónica, mas muito exigente. Eram para estar próximo a ela (nem que fosse no passeio do outro lado da rua), todos os meus momentos fora e dentro da sala de aulas, ocupava-me o espírito, alvoraçava-me os sentidos, e nada me parecia mais vital do que poder ouvir as palavras da sua boca perfeita, ler as suas expressões e sorrisos, folhear o seu teor, e ter um pouquinho da sua atenção sem ácaros e sem cheiro a papel velho.
   Foi esse o fim inglório dum rato-de-biblioteca, pelo menos por esses tempos e nesses moldes. Ainda hoje, quando entro numa biblioteca ou numa livraria, olho em redor como olhava na velha Biblioteca, à espera dum palpite ou um sinal sobre o lugar onde se encontra algum tesouro oculto à espera que eu o descubra.



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