O mester do Dr. Mérmes


           Mérmes, que se auto-intitula de doutor (do quê, nunca esclarece), é um homem habituado a arrepiar caminho por todo o lado, mesmo quando está rodeado de portas fechadas a sete chaves e janelas emparedadas. Por esse motivo, não revelou qualquer vestígio de cansaço ou impaciência durante as duas horas que esteve sentado na antecâmara do gabinete do gerente das Águas Saúde, aguardando por uma entrevista não-agendada. Não foram duas horas de inanição, porque Mérmes aproveitou para borboletear em volta da secretária do gerente, puxando conversa, a trocar banalidades e a pô-la do seu lado com galanteios e piropos envoltos em película inofensiva. Não eram piropos e galanteios mas também não deixavam de o ser, o que o colocavam a salvo dalguma reacção inesperada.
            Por fim, e muito por acção da jovem secretária, o gerente lá se lembrou dele, e mandou-o entrar. Mérmes, com a rapidez duma Fotomaton, tirou-lhe logo o retrato pela pinta. Jovem, ainda na casa dos trinta, ambicioso, devia ser severo para com os subordinados com o mesmo empenho com que seduzia os accionistas da empresa. A maneira como se vestia, como todos os elementos que decoravam a secretária e o gabinete revelavam uma pessoa sofisticada, que tirava partido da sua posição numa simbiose perfeita entre o hedonismo e a confiança dum vencedor.
            - Doutor Mérmes! – cumprimentou, dando-lhe um viril aperto de mão – não sei ao que vem, mas só lhe peço que seja breve, porque tenho uma reunião do conselho de administração antes do almoço.
            - Serei breve. Tenho conhecimento de que vocês possuem, aqui, na sede da empresa um pequeno núcleo museográfico onde se pode admirar antigas máquinas de engarrafamento, fotos da fábrica em outras décadas, e uma exposição das vossas embalagens de água desde os primeiros anos…
            - Sim, com efeito, mas se traz algum item para enriquecer a colecção, devo encaminhá-la para a doutora Ana Novais, que é a pessoa indicada para tratar disso.
            - Tenho um item novo para a colecção, mas penso ser preferível ser confiado ao senhor – é uma garrafa de água das vossas, com a tampa inviolada, e que possui no interior um caracol, não é uma casca seca de caracol, era um caracol ainda vivo quando foi engarrafado com a água. É tão grande que até me espanta como passou pelo gargalo!
            O gerente pareceu retrair-se, mas, na verdade, esperava a jogada, a sua jogada, como um jogador de xadrez que pondera todas as variáveis do jogo.
            - Sondei dois jornais e a uma cadeia de televisão, sem falar em marcas ou nomes, e adiantaram-me quantias em redor dos dez mil euros em troca da garrafa de água. Como nós dois somos pessoas experientes e com sentido de negócio, ambos sabemos que uma notícia destas poderá representar uma quebra de mais de vinte mil euros nas vendas da empresa, e por isso, é essa a quantia que pretendo em troca da garrafa. Há-de convir que seria um facto difícil de explicar aos accionistas da empresa, que colocariam em si toda a responsabilidade.
             Enquanto o gerente digeria as suas palavras, pôs em cima da mesa um saco, e olhando fixamente o seu interlocutor, tirou lá de dentro a garrafa, que era tal como a descrevera. Uma embalagem de trinta e três centilitros de Águas Saúde, intacta, com um nefando caracol a oscilar na água. Concluído o exame fugaz, Mèrmés voltou a guardá-la no saco. Largos segundos depois, o gerente falou finalmente.
            - Como quer o dinheiro?
            - Em notas, um saco com notas. Dá-me o saco e eu deixo-lhe a garrafa consigo.
            O gerente anuiu. Transmitiu instruções á secretária, e ambos esperaram. Mérmes transpirava confiança e, sem ninguém lhe ter dito nada, serviu-se de um uísque puro no pequeno bar de canto, e bebericou-o tranquilamente. Quando o saco com dinheiro foi entregue no gabinete, Mérmes esperou que a secretária saísse, e depois, explicou as regras do jogo.
            - Vou conferir primeiro o dinheiro – disse, abrindo o saco, e despejando as notas em cima da mesa. Quando eu acabar, você vai instruir a sua secretária e ela acompanha-me ao portão da empresa, e só aí eu entregarei a garrafa de água. Não quereria que um par de seguranças me dessem uma tareia á entrada e me tirassem o dinheiro.
            - E como é que você sabe que não o farei na mesma? Ou como é que eu sei que você não me vai enganar, para voltar aqui para repetir a chantagem.
            - Somos ambos cavalheiros, e eu não sonharia sequer em repetir a chantagem, porque vocês, tubarões de gravata, possuem meios, conhecimentos e métodos que fariam inveja a qualquer padrinho da Máfia.
            O trato estava feito. O dinheiro conferia, nem uma notinha a mais ou a menos. A secretária, a mando do gerente, acompanhou-o ao portão, onde ele lhe entregou o saco com a garrafa, rematando a transacção como um beijo na mão da jovem, e um aceno amistoso ao gerente que os observava da janela do gabinete como um gavião enjaulado.
            Sem perder tempo, Mérmes entrou no seu carro, e só parou na porta dum Banco, onde depositou o grosso do dinheiro. Com o dinheiro que manteve consigo, parou numa loja de lingerie e comprou uma camisa de noite, vermelha. Em seguida fez escala num salão de cabeleireiro. A namorada, quando o viu, interrompeu o trabalho e foi ter com ele á porta, de sorriso aberto. Beijaram-se e ele entregou-lhe a prenda.
            - Espera-me logo com isto… – murmurou-lhe ao ouvido.
            Despediram-se e Mérmes voltou ás ruas. Depois de comer um bitoque num snack, entrou no seu carro e saiu da cidade. Acelerador ao fundo, e chegou em menos duma hora a uma outra empresa de águas naturais engarrafadas, a Nascente Viva.
            Repetiu o modo de operar. Pediu para se entrevistar com o gerente, e também desta vez teve de esperar, mas por diferentes motivos. O homem forte da empresa era o próprio dono, Augusto Noronha, que se mantinha á frente dos negócios ao fim de quarenta anos de actividade. Quando Mérmes ali chegou, o director ainda estava a almoçar com a esposa, e a secretária avisou-o que aqueles almoços poderiam demorar bastante. Esse aviso foi, aliás, a única atitude prestável da funcionária, que se remeteu a um mutismo de bibliotecária sisuda, levantando as pontes levadiças da sua fortaleza. Mérmes não viu maneira de atrair a sua simpatia e acabou por desistir. Felizmente, o empresário também demorou pouco, e chegou secundado pela esposa.
            - O doutro Mérmes – apresentou a secretária – diz que quer falar consigo por causa dum assunto de vida ou de morte para a empresa.
            O velhote olhou-o com desconfiança e rosnou para ele o seguir.
            Entrou atrás dele no gabinete, mas desagradou-lhe que a porta do gabinete tivesse ficado entreaberta. Conseguia ouvir a mulher do homem a tagarelar com a secretária, e inquietava-o a possibilidade delas poderem ouvir o teor da conversa.
            - Deixe a porta aberta – troou o velho quando ele a tentava fechar com discrição – o que é que me quer? Tem alguma coisa a ver com o casamento da minha filha? É que eu estou com um pouco de pressa porque eu e a minha mulher andamos á volta dos preparativos para a boda.
            - Não é nada de tão pessoal. É que eu tenho um artigo da vossa empresa, que dois jornais e uma cadeia de televisão se oferecem para mo comprar, mas eu achei justo que ele fosse adquirido pela vossa empresa porque saiu das vossas linhas de produção.
            - E o que é? – perguntou, e novamente num tom de voz próximo do grito.
            - É uma garrafa de água Nascente Viva, com um caracol lá dentro. A garrafa tem a tampa e o rótulo inviolados, por isso não há dúvida de que é vosso. Só queria evitar que caísse nas mãos erradas, e por isso vim ter consigo primeiro.
            - Tretas! Quanto é que lhe ofereceram pelo caracol?
            - Á volta de dez mil, mas nós sabemos que se fosse tornado público, se isso viesse a lume nos jornais ou na televisão, podia causar prejuízos superiores a vinte e cinco mil euros.
            - Dou-lhe cinco mil, e é só para arrumar consigo, porque detesto chantagistas. As pessoas só vêem os noticiários na televisão enquanto esperam pelo futebol ou pelas telenovelas, e o papel de jornal, como é muito áspero para limpar o rabo, só serve para embrulhar o peixe e para os vadios se cobrirem quando dormem na rua. Mas mostre-me a peça!
            Mérmes assim fez, mas com o vagar que se exigia, e sempre olhando fixamente o velho lutador. Pôs o saco em cima da mesa, e desvelou a garrafa de Nascente Viva. O velho suspirou, convencido.
            - Suponho que queira em notas, como qualquer ladrão…
            - Sim, se faz favor…
            - Genoveva – gritou pelo interfone à secretária – vá a Tesouraria e peça para me dispensarem cinco mil euros para eu comprar uma coisa a este senhor, que eu depois explico!
            - Sim, patrão – anuiu a secretária.
            - Deixe a garrafa á vista – ordenou o velho – eu vou lá fora buscar o dinheiro e já venho ter consigo.
            Saiu do gabinete, deixando a porta aberta, e Mérmes, pela primeira vez, sentiu-se preso numa armadilha. Ao fim duns longuíssimos quinze minutos ouviu, à porta do gabinete, a voz de Genoveva e depois, as vozes alteradas do director e da mulher, estavam a discutir, ou a falar, que a diferença devia ser pouca.
            O director voltou a entrar, com o dinheiro num saco, e atirou-o para os seus braços.
            - Confira-o – gritou e desta vez era, indubitavelmente, um grito – e se estiver certo, deixe a garrafa onde está e ponha-se na alheta.
             Mérmes hesitou se deveria conferir ou bater em retirada, mas não quis dar parte de fraco e começou a contar as notas com as mãos trémulas. O nervosismo e a precariedade da situação distraíram-no e quando deu por si, tinha ao seu lado a esposa do Noronha.
            - Augusto! – gritou ela – porque é que estás a pagar uma fortuna por uma garrafa vazia?!

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