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Antonieta

   Estava sentado no carro, parara-o na berma da estrada porque se sentia meio agoniado, e agora procurava restabelecer as forças com o corpo pressionado contra o banco e a porta aberta para trás para entrar um pouco mais de ar. Precisava dele, estava branco como se lhe tivesse parado a digestão ou coisa do género. Também podia ser a tensão, ou alguma arritmia cardíaca da qual ainda ninguém havia suspeitado. Estava a precisar de descansar uma temporada numas termas ou nalguma ilha exótica, ou ainda tinha algum AVC.
   - Já te sentes melhor? - perguntou a mulher ao seu lado, interrompendo aquela via sacra de auto-comiseração - respira fundo e vamos lá embora!
   - As coisas não são assim tão simples, sinto-me mesmo muito mal...
   - O teu mal é o mal de todos - pessimismo, pessimismo tosco, cego, adstringente, a comprimir as pessoas e as suas tolas palavras. O barco abana um pouco no mar, e todos entoam em coro - "Ai, que vamos ao fundo! Ai, que não queremos morrer!". O que o mundo precisa é de um salutar optimismo, de actos enérgicos e força na verga. Ninguém faz nada, e mesmo que o barco esteja a ir ao fundo, nem são capazes de tentar salvar a própria pele e vestir o raio do colete salva-vida. Sabes o que é que nós precisávamos? De mais miúdos holandeses, como o daquela história em que um dique estava a deixar entrar água e prestes a aluir e submergir tudo, e o miúdo, em vez de chorar baba e ranho, mete o dedo no buraco do dique e salva a sua aldeia. Até devias falar nisso, para dar um exemplo de como as coisas podem mudar.
   - Não, claro que não! Seria um recurso retórico infeliz e dúbio...ainda me acusavam de pedofilia.
   - Então fala-lhes qualquer coisa! Diz que as coisas vão melhorar substancialmente, que um arco-íris os espera na volta da esquina, ou o investimento duma multinacional. Promete indemnizações, um emprego noutro sítio. Atira-lhes migalhas como se faz aos pombos, e desenvencilhas-te da situação.
   - Não, não sou capaz! Estão dezenas de trabalhadores na entrada da empresa e vão querer logo o meu sangue. Viste como eles gritavam na reportagem? Nem sei como têm forças para isso com os meses que levam sem receber...
   - E o que vais fazer?
   - Vou pedir protecção policial para lá entrar...forte protecção policial. Também tenho os meus direitos, não é?...Ou isso, ou mascaro-me de Dalai-Lama...



Geena

                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma ...