INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

A justa


     Sentia as mãos tensas e esforçadas de conduzir o seu carro, e fixava a estrada à sua frente quando notou que outro carro o tentava ultrapassar pela direita. Pela direita? Não estavam em Inglaterra ou coisa que o valha! Acelerou o andamento do carro, sabotou a ultrapassagem e desceu a estrada à frente do outro, ganhando-lhe uma ténue vantagem. Quando olhou para trás, viu que o outro se deveria ter picado com a sua manobra, e acelerava também, ultrapassando-o, agora pela esquerda, sem que ele o pudesse evitar, cansado que estava. O outro fulano chegou primeiro que ele ao destino, e quando deteve o seu carro ao lado do dele, teve de resignar-se com o seu sorrisinho de triunfo, e aguentar a palmada forte no ombro. Encolheu os ombros, e ambos descravaram as pás do monte de saibro e começaram a encher os seus carrinhos de mão. A subir a estrada, com os carros carregados, não haveria lugar para corridas.

a odisseia de educar

     Ao casal havia nascido um par de gémeos em hora auspiciosa, inaugurando uma felicidade que se prolongou por quatro anos, até um dos gémeos morrer atropelado por um carro. Depois de devidamente chorada a morte e amaldiçoado os céus, seguiram com a vida, mandando embalsamar o filho morto para permanecer com eles e continuar a fazer parte integrante das rotinas diárias. A criança embalsamada era objecto de cuidados idênticos aos dispensados ao irmão, e vestiam-lhe uma roupa diferente quando iam jantar a um restaurante, passear ao fim-de-semana, a uma peça de teatro ou ao futebol, ou quando iam para fora de férias. Além de ser uma presença reconfortante, revelou ser também, um valioso recurso pedagógico. Se o irmão fazia muito barulho pela casa, ou desarrumava os brinquedos todos, os pais apontavam a criança embalsamada e diziam: "Porque é que não consegues ser como o teu irmão? Vê lá se ele desarruma tudo, ou se faz tanto barulho como tu?!". E diziam algo parecido no restaurante, quando os dois irmãos se perfilavam um ao lado do outro em cadeirinhas suspensas do tampo da mesa, e o mais velho dos gémeos se recusava a comer o que estava no prato ou fazia muito barulho com os talheres. O irmão embalsamado colaborava no processo, acenando afirmativamente com a cabeça quando os pais diziam estas coisas ao irmão, ou trocando a sua habitual expressão vazia por uma expressão de felicidade búdica, para mostrar ao irmão como era mais sensato e realizado do que ele. Pelo menos, quando os outros estavam a ver.

ouro enterrado

   Um homem comum, com dois braços, duas pernas e uma cabeça com três orelhas, passeava pelo parque da cidade, quando sentiu uma espécie de intuição ou arroubo místico ao descortinar um losango de relva com uma tonalidade diferente da relva em redor (como os outros homens comuns de três orelhas, este também dava muita importância aos sinais). Da forma em losango inferiu o naipe de ouros das cartas de jogar, e deste, a certa certeza de que havia um tesouro enterrado naquele lugar.
   Saiu do parque, a pé, e foi a pé até casa, vencendo a custo uma distância odisseica de quase vinte e cinco metros. Em casa, tirou do armário uma enxada e voltou ao parque (porque é que um homem que vive na cidade e num quarto alugado, há-de ter uma enxada no armário, é coisa que ninguém foi capaz de me explicar até agora). No parque, arregaçou as mangas até aos cotovelos e começou a escavar no centro do losango. Escavou muito e com método, e ao cabo de duas horas havia aberto uma vala funda com o feitio dum losango. Em volta juntara-se uma pequena multidão e no meio dela, vários funcionários do parque e um polícia.
   "Deve estar a cavar para se plantar uma árvore nova!" - pensava um dos funcionários.
   "A este, ainda não lhe tocaram nas regalias salariais" - reflectia o polícia, admirando o empenho com que escavava.
   E as pessoas continuaram a chegar, espreitando por cima do ombro das que já lá estavam e engrossando a multidão porque já não se podiam retirar por haver já outros curiosos atrás deles.
   Por fim, o homem, olhando em volta com as mãos e as orelhas cheias de terra, compreendeu a inutilidade da empresa. Não havia tesouro nenhum naquele lugar!
   - Estou cansado! - gritou do fundo da vala - há por aí alguém que me dê a extrema-unção?
   - Eu dou! - respondeu um sacerdote que, por um feliz acaso, estava nas filas da frente. E cumpriu o ritual, ao mesmo tempo que o homem com três orelhas fazia chegar aos espectadores a enxada com que o iriam enterrar. Toda a multidão em redor do buraco em forma de losango guardou um respeitoso silêncio pela ocasião, com expressões graves e o gesto inútil mas muito belo de desencasquetar da cabeça um chapéu irreal.
   E mesmo a Natureza se dispôs a colaborar com aquele funeral inopinado, fazendo cair sobre a cabeça das pessoas uma morrinha tão triste como o pranto duma viúva alegre.

Antonieta

   Estava sentado no carro, parara-o na berma da estrada porque se sentia meio agoniado, e agora procurava restabelecer as forças com o corpo pressionado contra o banco e a porta aberta para trás para entrar um pouco mais de ar. Precisava dele, estava branco como se lhe tivesse parado a digestão ou coisa do género. Também podia ser a tensão, ou alguma arritmia cardíaca da qual ainda ninguém havia suspeitado. Estava a precisar de descansar uma temporada numas termas ou nalguma ilha exótica, ou ainda tinha algum AVC.
   - Já te sentes melhor? - perguntou a mulher ao seu lado, interrompendo aquela via sacra de auto-comiseração - respira fundo e vamos lá embora!
   - As coisas não são assim tão simples, sinto-me mesmo muito mal...
   - O teu mal é o mal de todos - pessimismo, pessimismo tosco, cego, adstringente, a comprimir as pessoas e as suas tolas palavras. O barco abana um pouco no mar, e todos entoam em coro - "Ai, que vamos ao fundo! Ai, que não queremos morrer!". O que o mundo precisa é de um salutar optimismo, de actos enérgicos e força na verga. Ninguém faz nada, e mesmo que o barco esteja a ir ao fundo, nem são capazes de tentar salvar a própria pele e vestir o raio do colete salva-vida. Sabes o que é que nós precisávamos? De mais miúdos holandeses, como o daquela história em que um dique estava a deixar entrar água e prestes a aluir e submergir tudo, e o miúdo, em vez de chorar baba e ranho, mete o dedo no buraco do dique e salva a sua aldeia. Até devias falar nisso, para dar um exemplo de como as coisas podem mudar.
   - Não, claro que não! Seria um recurso retórico infeliz e dúbio...ainda me acusavam de pedofilia.
   - Então fala-lhes qualquer coisa! Diz que as coisas vão melhorar substancialmente, que um arco-íris os espera na volta da esquina, ou o investimento duma multinacional. Promete indemnizações, um emprego noutro sítio. Atira-lhes migalhas como se faz aos pombos, e desenvencilhas-te da situação.
   - Não, não sou capaz! Estão dezenas de trabalhadores na entrada da empresa e vão querer logo o meu sangue. Viste como eles gritavam na reportagem? Nem sei como têm forças para isso com os meses que levam sem receber...
   - E o que vais fazer?
   - Vou pedir protecção policial para lá entrar...forte protecção policial. Também tenho os meus direitos, não é?...Ou isso, ou mascaro-me de Dalai-Lama...



Uma manhã diferente

   A cidade acordou diferente esta manhã, mais alegre e colorida. Por todas as ruas do centro, haviam estado a atar balões de um azul vivo nas antenas dos carros. Foi engraçado e diferente e alegre passear por ali e ver tantos balões a baloiçar na brisa. Pelos dizeres dos balões, apercebi-me de que se tratava duma campanha publicitária a um modelo de automóveis. Isso, eu dispensava, porque me basta o meu carro de estimação, fiável e antigo como um cão leal. Deixei-o estacionado na rua e agora não o encontro. Também devem ter atado a corda dum balão à antena. Talvez o venha a encontrar, se continuar a olhar com atenção para o céu.

Um telefonema

   Com algum esforço, não isento de dor, conseguiu passar da cadeira de rodas para o sofá, e acomodou-se nele, reposicionando a almofada nas costas. Olhou em redor. A senhora que lhe servia de enfermeira estava na cozinha, a preparar-lhe o almoço. Podia ouvir o roncar do forno do micro-ondas e o retinir de talheres e pratos. Não gostava nada dela, achava-a sinistra e perturbante. Estava por todo o lado, disponibilizando-lhe ajuda de uma forma sufocante, e inquirindo sobre todos os seus gestos e movimentos. Agora parecia ocupada, e aproveitou para alcançar o telefone pousado na mesinha de centro. Procurou na lista de contactos o nome do irmão e ligou-lhe. Levou algum tempo a atender, e ele sempre com o olhar cravado na porta da cozinha.
   - Sim? Estou? - ouviu do outro lado.
   - João! Sou eu o Augusto. Sabes que a minha vida anda a ficar muito estranha?
   - Não me digas?!
   - É verdade. Primeiro tive aquela intoxicação alimentar no restaurante. Perdi os sentidos e levaram-me para o Hospital. Dai, vim para casa, e a Seguradora do restaurante providenciou-me cuidados especiais e uma enfermeira para me acompanhar vinte e quatro horas por dia. Foi então que tu apareceste, vinhas muito alterado, e estiveras a discutir com alguém, mas não me quiseste contar nada. Lembras-te disso?
  - Claro, não é? Se era eu, tinha de me lembrar! Mas porque é que me estás a telefonar?
   - As coisas continuam muito estranhas, João. Esta é a minha casa, mas não parece a minha casa, parece mais um cenário, como se alguém a tivesse recriado ao mínimo pormenor.  Estou muito fraco e dorido, e não faço mais do que transitar da sala para a cozinha e para a casa-de-banho, mas há coisas absurdas que parecem claras ao meu espírito...
   - Quais, Augusto?
   - Isto é tudo irreal. Quando estou aqui no sofá da sala e olho pela janela grande, a luz do exterior é a que seria normal esperar da hora em que estou, mas o exterior de hoje é igual ao de ontem e ao do dia anterior. São os mesmos detalhes à mesma hora, como num filme. O canto das rolas, os movimentos das folhas da faia, a folha de árvore que desliza rente à janela pelas cinco da tarde. Só me apetece sentar-me na cadeira de rodas, abrir a porta da rua e sair...
   - Não faças isso! - gritou João - eles não iriam gostar, e punhas a tua vida em perigo!
   Fez-se um longo silêncio, confrangedor. Augusto digeria as palavras do irmão, e este arrependia-se de ter pronunciado.
  - Quem são eles, João?
   - Eles são eles, é só o que te posso dizer. Desculpa-me, mas não me deixam falar mais nada, e nem deveríamos estar a falar pelo telefone. Deve ser algum teste...
   - Diz-me só uma coisa, João. Se eu não fizer nem disser nada, e ficar aqui quietinho no meu canto, achas que a minha vida deixa de correr perigo?
   - Não sei, Augusto, gostaria de acreditar nisso, mas não sei. Fica bem, vou desligar. Gosto muito de ti!
   Ouviu a chamada cair. Pousou suavemente o telefone na mesa de centro, e recostou-se no sofá, apenas alguns instantes antes da enfermeira entrar na sala, empurrando o carrinho de chá com a sua bandeja do almoço. Augusto passou as mãos pelo rosto como se quisesse apagar qualquer traço de preocupação. Tinha as mãos frias, geladas.

planetas


   Quando assinou o contrato como vendedor de imóveis foi-lhe confiado um medidor de distâncias a Laser para exercer o seu trabalho. Leve esse brinquedo para casa este fim-de-semana, para se familiarizar com ele – disseram-lhe.
   Levou o aparelhómetro para casa, ainda dentro da embalagem original. No Domingo de manhã, depois de tomar o pequeno-almoço no café e folhear os jornais do dia, aplicou-se a aprender a usar o medidor de distâncias. Começou por medir a distância entre as paredes da sua sala e calcular a área. Apontou os resultados obtidos e comparou-os com uma medição arcaica com um fita métrica e subsequente cálculo da área. Os valores coincidiam, aquele aparelho era mesmo bom.
   Leu cuidadosamente o manual. Podia conhecer a distância de qualquer objecto, e obter o resultado em metros ou jardas, e o mesmo medidor podia servir para distâncias maiores desde que aplicasse a placa apropriada, que vinha no estojo. Usou a placa e levou o medidor para o jardim para um novo ensaio. Do banco de madeira encostado à parede lateral da casa ao portão do jardim, 3,30 metros, do mesmo banco ao placard publicitário na rua, 7, 10 metros. Ao carro estacionado em cima do passeio, 4,80; ao poste de luz, 5,10 metros.
   A mulher chamou-o. Estendia roupa no varal e pedia-lhe que lhe chegasse o saco de plástico com molas.  Apontou o medidor de distâncias á mulher e premiu o botão. Dois anos-luz, foi o cálculo apresentado. “Este medidor está avariado!”, pensou, e sem ligar aos rogos da mulher, aproximou-se da cerca da casa. O vizinho da frente estava defronte da casa, a lixar com uma pequena rebarbadora as placas de madeira da cerca. Apontou-lhe o medidor e premiu o botão: vinte anos-luz, foi o que obteve do aparelho.

Os novos Tempos Modernos



   Viu-a pela primeira vez a uma Terça-Feira, no átrio do Centro de Emprego para onde todos os dias peregrinava. Sempre tinha que ficar por ali à seca por umas horas e por isso, mais valia fazer algo de agradável. Meteu conversa.
   - É nova por aqui…
   - Sim, perdi o emprego…
   - A fábrica fechou? O patrão deu parte de maluco e transferiu o capital para as Baleares?
   - Quase isso. Num dia tinha uma empresa onde trabalhar, no outro dia só lá estava o edifício, com as portas abertas, e esvaziado por artes mágicas.
   - Mais ou menos a mesma história de todos, com louváveis variantes porque senão isto parecia uma falésia de ecos. Chamo-me Nuno! – adiantou, beijando-lhe a face. 
   - Clara! – retribuiu ela, aceitando o cumprimento.
   Prolongaram a conversa, naquele dia, e nos que se seguiram nas semanas seguintes (é repetitivo, eu sei). Á Quinta, ela nunca vinha porque ia visitar os ex-sogros, e à Sexta à tarde, era o dia em que ele faltava à função porque apesar dos seus trintas e tais anos e da barriga de cerveja, ainda se entretinha com os amigos nuns desafios de futebol de salão, em que não conseguia mais do que dores musculares e um despertar doloroso na manhã seguinte.
   No tempo que os dois ali passavam, faziam o que todos faziam, viam as (raríssimas) ofertas de emprego, e esperavam, entrevistavam-se com algum dos funcionários, e esperavam, bebiam um café aguado de máquina e esperavam, inscreviam-se nalgum curso ou acção de formação e esperavam. Enquanto tanto esperavam, Nuno e Clara, enriqueceram a sua relação com longas conversas e pequenas cumplicidades, e se ali se sentiam próximos, fora dali, a sua proximidade subiu de nível, e começaram a passar a noite juntos.. E decidiram viver juntos, pelo menos, durante alguns dias seguidos.
   Os dias juntos evoluíram para semanas juntos e meses e anos, e todos eles se desenrolaram dentro e em torno do Centro de Emprego. Porque os dois continuaram a ir ali sem que nenhum dos dois obtivesse emprego. A viver de biscates e pequenos trabalhos, os dois continuam a viver juntos sob o mecenato dos pais dum e doutro, e compraram um carro com o dinheirinho da venda dum terreno do sogrinho dela, e fizeram um pé-de-meia com umas doações regulares da sogrinha do lado oposto. Quando Clara ficou grávida, os pais deles abençoaram a criança que vinha a caminho, e confabulando entre eles, contaram ao casal que, afinal, ainda havia uns ouritos dum e doutro lado que iriam vender para os ajudar nos primeiros tempos como pais. Quando nasceu o rebento, tão grande que teve de ser de cesariana para não arrebentar com a mãe, ela escolheu para futuro padrinho o segurança do Centro de Emprego, e coube a ele escolher a madrinha, e não teve qualquer dúvida em escolher a Matilde, uma desempregada militante que sempre por ali vira, e que tinha mais anos daquilo do que todas as pessoas dali com quem conversara. O baptizado não foi no edifício, nem os comes e bebes, mas quando regressaram a casa, os dois fizeram questão de parar o carro junto ao passeio, mostrar ao pequeno a fachada do Centro de Emprego e fazer as devidas apresentações:
   -Meu filho, esta é a nossa segunda casa!


os tempos e as vontades


   Finalmente, talvez mais tarde do que seria ideal, o engenho humano conseguira criar um engenho mecânico cuja única fonte de combustível era a água, apenas água, H2O sem misturas nem aditivos. A invenção foi recebida com euforia e multiplicaram-se as aplicações da descoberta. Veículos que se deslocavam sobre rodas  no solo ou deslizavam no eixo do monocarril, pequenas aeronaves para passear na exígua atmosfera, escavadoras-perfuradoras que permitiam criar um espaço virgem no subsolo de rocha branda e que os proprietários transformavam depois numa nova moradia subterrânea, para residência ou especulação lucrativa.
   O único senão da grande descoberta é que naquele lugar, o asteróide gigante S-V-3028, a água era um bem muito escasso, que era racionado para todos os habitantes. Mas se perguntassem a qualquer um dos habitantes se estaria disposto a abdicar dos veículos e máquinas movidas a água, a resposta seria maioritariamente negativa; porque havia sempre pequenos recursos e truques administrativos aos quais lançar mão. Intrujar no racionamento, omitir para o exterior a morte dalgum dos membros do círculo familiar para, dessa forma, dividirem o seu quinhão e, por último, o recurso derradeiro, que era fazer desencarnar algum familiar menos popular, como uma avó muito velha, ou um primo muito afastado e que acabara de chegar à colónia, sem dar tempo a que desenvolvessem por ele qualquer tipo de laço afectivo.

timing

   O homem triste chegou-se ao pé do irmão, abraçou-o com força, e disse-lhe: "Gosto muito de ti! Perdoa-me se alguma vez te aborreci...". Disse - quase - o mesmo, à Leonor, a filha pequena, que sempre lhe aturara os maus modos e os ralhos, e à mulher, Esmeralda, que nunca deixara de gostar dele, mas sempre apesar de; e, finalmente, ao Afonso, o seu amigo vintage, que tinha o à-vontade suficiente para o mandar à merda quando ele o merecia, mas que, em contrapartida, era leal e bem-humorado, e com o seu feitio generoso, conseguia suavizar as asperezas do seu temperamento. Eram abraços, eram palavras. Mas apenas isso. O tempo dele havia passado porque ele e os outros eram formados por substâncias distintas e imiscíveis.

fantasy-western


   - Se não for assim, não há quem os detenha! – comentou a vendedora da praça, louvando-o implicitamente.
   O polícia concordou. Não era bem, ou já não era, um polícia. Demasiados anos como polícia-sinaleiro, a ordenar o trânsito com gestos iniludíveis no cruzamento principal da cidade, haviam-no esvaziado da fibra e da determinação necessárias a um agente da Lei. 
   Ainda assim, tentando lembrar-se daquilo que em tempos aprendera, apertou a cilha do capacete de polícia sinaleiro e, descalçando as elegantes luvas brancas compridas, tomou o peso ao revólver da corporação, preparando-se mentalmente para enfrentar a ofensiva dos insectos gigantescos.

A descida


   Os alpinistas montaram o acampamento-base aos dois mil metros de altitude, e prepararam o assalto à grande montanha. Avançaram seis europeus, com dois guias Aimarás que já haviam acompanhado outras expedições. Optaram pela encosta ocidental, mais suave e com um relevo atractivo que apresentava protuberâncias horizontais que se assemelhavam a socalcos naturais, onde poderiam montar outros acampamentos mais próximos do topo, que serviriam de refúgio providencial caso as condições climatéricas se deteriorassem. Mas as condições mantiveram-se favoráveis. O último acampamento de apoio á escalada foi montado aos quatro mil metros, e aí permaneceram dois dos membros da expedição com um dos guias Aimará, tal como previamente planeado. Seriam o elo de ligação com o acampamento-base se as coisas corressem mal. Nos mil e quinhentos metros que faltavam para alcançar o cume da montanha, tudo ficou deveras complicado, e foram fustigados por um vento intenso e neve que quase impossibilitavam o avanço. Teimaram na subida até ao limite das forças, e acabaram por se deter a uma altitude que os instrumentos diziam situar-se nos cinco mil e duzentos metros. Abrigaram-se numa plataforma sob um rochedo a recuperar forças, e analisaram a situação. Faltavam cerca de trezentos metros na vertical para atingir o vértice e seria um desperdício desistirem naquele momento. Dos cinco, apenas o guia e um dos europeus não se queixavam de dores musculares e sentiam-se com forças para prosseguir. Verificaram os seus equipamentos e roupas, e apenas esses dois prosseguiram, numa luta tenaz contra o vento, e com mil cuidados para não darem um passo em falso porque a neve obnubilava tudo. Cinco mil e trezentos metros. Cinco mil e quatrocentos. O europeu apercebeu-se pelos gestos do seu guia índio que ele ia ficar para trás. Também fazia estranhos gestos para o cume da montanha, que ele interpretou como um incentivo para ele prosseguir até ao fim. Ganhou ânimo e continuou. Cinco mil, quatrocentos e cinquenta, cinco mil e quinhentos. Atingira o topo, um cume alongado com as extremidades arredondadas. Tirou fotos, fez alguns trechos de filme, e lembrou-se da divisa duma escola de alpinismo: “Acima do cume da montanha, apenas o céu nos desafia”. Olhou para o alto, para o céu, e viu algo mais do que o céu: parecia rocha, um cume de rocha invertido, em tudo igual àquele onde os seus pés se fincavam, um cume alongado de extremidades alongadas. Um espelhismo! – racionalizou de imediato, lembrando-se dos gestos do índio Aimará. Mas as imagens reflectidas costumam ser semelhantes ao original, mas aquela não era. Não estava revestida de branco e parecia quieta como uma cratera lunar. O cume absurdo estava apenas a uma vintena de metros acima da sua cabeça. Reuniu a corda da escalada, e atou na extremidade um gancho de escalada. Com aquele vento e àquela distância, achou que seria impossível alcançá-lo, mas tentou á mesma. Volteou obliquamente a ponta da corda com o gancho acima da sua cabeça e arremessou-a com toda a força. Para sua surpresa, o lançamento correu anormalmente bem, como se o peso do gancho metálico tivesse sido atraído por outro centro de gravidade. Viu-o enredar-se numa pequena rocha saliente, puxou pela corda e sentiu-a retesar-se. Cravou um gancho no solo, atou a outra extremidade da corda, e começou a subir com redobrado esforço, com o vento a fazer oscilar perigosamente o seu corpo. Não via nada com o vento e a neve, e resolveu fechar os olhos e continuar a escalada pela corda suspensa, avançando as mãos enluvadas ao longo do corpo, e prendendo a corda com as coxas e pés. Dum instante para o outro, o vento cessou e já não sentia necessidade de fazer força, deslizava para a outra extremidade da corda até tomar contacto com o solo. Tacteou o chão á sua volta, e pôs-se em pé com uma prudente lentidão, tirando os óculos de protecção. Não foi sugado pelo abismo. Acima de si, a uma vintena de metros, conseguia avistar o cume nevado da montanha andina e os despojos do seu equipamento. Olhou em volta. Não havia gelo nem neve, nem qualquer som de qualquer espécie, apenas um silêncio profundo e completo. Encolheu os ombros e começou a descer a montanha.

O tesouro dum "nerd"

    Há umas dezenas de anos, a Biblioteca de Caldas da Rainha não contava com as instalações modernas e actualizadas que hoje possui, e funcionava nos pavilhões Berquó do Parque D.Carlos I, e que devem o seu nome ao autarca-arquitecto de novecentos Rodrigo Berquó; esses pavilhões ainda hoje lá se encontram, a degradarem-se como a ossatura de pedra dum velho dinossauro, e para felicidade dos pombos que têm o seu amplo condomínio privado no desvão sob o telhado dos pavilhões e em muitas salas de vidros partidos.  A Biblioteca não tinha as condições ideais para funcionar, compunha-se apenas de duas salas e um corredor de ligação entre elas, o chão era de sobrado (que vacilava nalguns pontos sob os nossos pés) e as paredes estavam preenchidas por estantes altas repletas de livros, de mais livros dos que seria funcional  e sensato manter aí. Mas possuía o encanto próprio das bibliotecas antigas, um enigmático lugar de luz e penumbra com aquela fragrância a livros velhos que aguça a imaginação e incita à descoberta.
    Por essa altura eu, ainda na adolescência, criei o hábito de ir até à Biblioteca nos tempos que as aulas me deixavam livre, e converti-me durante uns dois anos num aplicado rato-de-biblioteca. E o que é que se pode fazer numa biblioteca antiga? Ler? A resposta pode parecer estranha, mas o que eu fazia aí era, literalmente, explorar, como um Ivens ou um Serpa Pinto de monos e velharias literárias. A Biblioteca tinha livros a mais e, por detrás dos livros que expunham as suas lombadas ao nosso olhar nas estantes, acamavam-se uns em cima de outros na penumbra, outros livros, cujo teor e título só se conseguia descobrir quando os libertávamos do seu resignado degredo. E era isso que eu fazia, apesar da notória desconfiança e estranheza da bibliotecária em funções. Tirava para cima duma das mesas uns quantos livros da frente, e retirava uma pilha de livros esquecidos e folheava-os um a um, abrindo ao calhas e lendo alguns excertos.  Quando algum me parecia de mais interesse, requisitava-o para ler fora dali. Por vezes, sentia-me algo abençoado pelo facto de descobrir algum livro com as páginas ainda coladas, o que era sinal de que ninguém antes o havia lido naquele lugar; e pedia emprestado à bibliotecária um corta-papéis que ali havia e, com extrema satisfação, libertava essas folhas, abrindo-as nas dobras em que estavam coladas. Data desse tempo a minha inclinação pessoal para a economia de tempo na leitura. Como abranger todos os livros esquecidos de todas as estantes parecia-me uma tarefa infindável, comecei a eleger para levar para casa, primeiro os livros mais pequenos, de leitura mais rápida, e depois, os livros de contos, porque poderia ler ali mesmo uma história do princípio ao fim e avaliar se requisitaria ou não o livro para ler o resto, o que se torna mais prático do que ler uns parágrafos duma novela ou dum romance.
   Numa das vezes que pedi para abrir um livro de páginas coladas, o que fazia sempre sob apertada e austera vigilância, a bibliotecária gracejou comigo (coisa que eu nunca a vira fazer com ninguém), dizendo que eu deveria andar à procura dalgum tesouro, e pediu-me sarcasticamente, que eu a avisasse se porventura encontrasse algum. Eu concordei em fazê-lo, aliás, tomei aquele desafio à letra porque acreditava, e ainda acredito, que as Bibliotecas encerram mais tesouros do que as Caraíbas dos corsários. E continuei no meu labor dos tempos livres, assustando ácaros e rasgando folhas para explorar os livros ocultos. E o tesouro surgiu-me umas duas semanas depois dessa conversa com a bibliotecária. Encontrei na sombra de outros livros um pequeno livro de Erskine Caldwell, O Pregador, que requisitei de imediato sem o folhear, porque já conhecia o autor duma antologia de contos seus que havia lido um pouco antes, e que havia sido editada, creio eu, pela Atlântida de Coimbra. A leitura do livro foi uma delícia, uma divertida obra-prima de sátira social e crítica de costumes. Quando o devolvi à Biblioteca, perguntei à dita bibliotecária se ainda se lembrava da nossa conversa sobre o tesouro oculto da Biblioteca. Como ela o confirmasse, apontei-lhe o livro de Caldwell e afirmei com segurança:
   - Encontrei o meu primeiro tesouro, é esse livro!
   Ela arqueou as sobrancelhas, ajeitou os aros dos óculos, como tantas vezes fazia, e considerou:
   - Caldwell!! Tem toda a razão, é uma bela descoberta! Vou arrumá-lo noutro lugar para que outros o leiam. Parabéns! Agora que encontrou o seu tesouro, já está mais rico!
   Agradeci, um pouco na incerteza se ela estava a falar a sério, ou se estava apenas a ironizar com delicadeza. De todas as formas, prossegui as minhas explorações, procurando e descobrindo outros tesouros naquela velha biblioteca. E poderia ter prosseguido pelos anos fora naquele labor de roedor se, pelo caminho, não me tivesse apaixonado perdidamente por uma colega de turma, uma paixão platónica, mas muito exigente. Eram para estar próximo a ela (nem que fosse no passeio do outro lado da rua), todos os meus momentos fora e dentro da sala de aulas, ocupava-me o espírito, alvoraçava-me os sentidos, e nada me parecia mais vital do que poder ouvir as palavras da sua boca perfeita, ler as suas expressões e sorrisos, folhear o seu teor, e ter um pouquinho da sua atenção sem ácaros e sem cheiro a papel velho.
   Foi esse o fim inglório dum rato-de-biblioteca, pelo menos por esses tempos e nesses moldes. Ainda hoje, quando entro numa biblioteca ou numa livraria, olho em redor como olhava na velha Biblioteca, à espera dum palpite ou um sinal sobre o lugar onde se encontra algum tesouro oculto à espera que eu o descubra.



O mester do Dr. Mérmes


           Mérmes, que se auto-intitula de doutor (do quê, nunca esclarece), é um homem habituado a arrepiar caminho por todo o lado, mesmo quando está rodeado de portas fechadas a sete chaves e janelas emparedadas. Por esse motivo, não revelou qualquer vestígio de cansaço ou impaciência durante as duas horas que esteve sentado na antecâmara do gabinete do gerente das Águas Saúde, aguardando por uma entrevista não-agendada. Não foram duas horas de inanição, porque Mérmes aproveitou para borboletear em volta da secretária do gerente, puxando conversa, a trocar banalidades e a pô-la do seu lado com galanteios e piropos envoltos em película inofensiva. Não eram piropos e galanteios mas também não deixavam de o ser, o que o colocavam a salvo dalguma reacção inesperada.
            Por fim, e muito por acção da jovem secretária, o gerente lá se lembrou dele, e mandou-o entrar. Mérmes, com a rapidez duma Fotomaton, tirou-lhe logo o retrato pela pinta. Jovem, ainda na casa dos trinta, ambicioso, devia ser severo para com os subordinados com o mesmo empenho com que seduzia os accionistas da empresa. A maneira como se vestia, como todos os elementos que decoravam a secretária e o gabinete revelavam uma pessoa sofisticada, que tirava partido da sua posição numa simbiose perfeita entre o hedonismo e a confiança dum vencedor.
            - Doutor Mérmes! – cumprimentou, dando-lhe um viril aperto de mão – não sei ao que vem, mas só lhe peço que seja breve, porque tenho uma reunião do conselho de administração antes do almoço.
            - Serei breve. Tenho conhecimento de que vocês possuem, aqui, na sede da empresa um pequeno núcleo museográfico onde se pode admirar antigas máquinas de engarrafamento, fotos da fábrica em outras décadas, e uma exposição das vossas embalagens de água desde os primeiros anos…
            - Sim, com efeito, mas se traz algum item para enriquecer a colecção, devo encaminhá-la para a doutora Ana Novais, que é a pessoa indicada para tratar disso.
            - Tenho um item novo para a colecção, mas penso ser preferível ser confiado ao senhor – é uma garrafa de água das vossas, com a tampa inviolada, e que possui no interior um caracol, não é uma casca seca de caracol, era um caracol ainda vivo quando foi engarrafado com a água. É tão grande que até me espanta como passou pelo gargalo!
            O gerente pareceu retrair-se, mas, na verdade, esperava a jogada, a sua jogada, como um jogador de xadrez que pondera todas as variáveis do jogo.
            - Sondei dois jornais e a uma cadeia de televisão, sem falar em marcas ou nomes, e adiantaram-me quantias em redor dos dez mil euros em troca da garrafa de água. Como nós dois somos pessoas experientes e com sentido de negócio, ambos sabemos que uma notícia destas poderá representar uma quebra de mais de vinte mil euros nas vendas da empresa, e por isso, é essa a quantia que pretendo em troca da garrafa. Há-de convir que seria um facto difícil de explicar aos accionistas da empresa, que colocariam em si toda a responsabilidade.
             Enquanto o gerente digeria as suas palavras, pôs em cima da mesa um saco, e olhando fixamente o seu interlocutor, tirou lá de dentro a garrafa, que era tal como a descrevera. Uma embalagem de trinta e três centilitros de Águas Saúde, intacta, com um nefando caracol a oscilar na água. Concluído o exame fugaz, Mèrmés voltou a guardá-la no saco. Largos segundos depois, o gerente falou finalmente.
            - Como quer o dinheiro?
            - Em notas, um saco com notas. Dá-me o saco e eu deixo-lhe a garrafa consigo.
            O gerente anuiu. Transmitiu instruções á secretária, e ambos esperaram. Mérmes transpirava confiança e, sem ninguém lhe ter dito nada, serviu-se de um uísque puro no pequeno bar de canto, e bebericou-o tranquilamente. Quando o saco com dinheiro foi entregue no gabinete, Mérmes esperou que a secretária saísse, e depois, explicou as regras do jogo.
            - Vou conferir primeiro o dinheiro – disse, abrindo o saco, e despejando as notas em cima da mesa. Quando eu acabar, você vai instruir a sua secretária e ela acompanha-me ao portão da empresa, e só aí eu entregarei a garrafa de água. Não quereria que um par de seguranças me dessem uma tareia á entrada e me tirassem o dinheiro.
            - E como é que você sabe que não o farei na mesma? Ou como é que eu sei que você não me vai enganar, para voltar aqui para repetir a chantagem.
            - Somos ambos cavalheiros, e eu não sonharia sequer em repetir a chantagem, porque vocês, tubarões de gravata, possuem meios, conhecimentos e métodos que fariam inveja a qualquer padrinho da Máfia.
            O trato estava feito. O dinheiro conferia, nem uma notinha a mais ou a menos. A secretária, a mando do gerente, acompanhou-o ao portão, onde ele lhe entregou o saco com a garrafa, rematando a transacção como um beijo na mão da jovem, e um aceno amistoso ao gerente que os observava da janela do gabinete como um gavião enjaulado.
            Sem perder tempo, Mérmes entrou no seu carro, e só parou na porta dum Banco, onde depositou o grosso do dinheiro. Com o dinheiro que manteve consigo, parou numa loja de lingerie e comprou uma camisa de noite, vermelha. Em seguida fez escala num salão de cabeleireiro. A namorada, quando o viu, interrompeu o trabalho e foi ter com ele á porta, de sorriso aberto. Beijaram-se e ele entregou-lhe a prenda.
            - Espera-me logo com isto… – murmurou-lhe ao ouvido.
            Despediram-se e Mérmes voltou ás ruas. Depois de comer um bitoque num snack, entrou no seu carro e saiu da cidade. Acelerador ao fundo, e chegou em menos duma hora a uma outra empresa de águas naturais engarrafadas, a Nascente Viva.
            Repetiu o modo de operar. Pediu para se entrevistar com o gerente, e também desta vez teve de esperar, mas por diferentes motivos. O homem forte da empresa era o próprio dono, Augusto Noronha, que se mantinha á frente dos negócios ao fim de quarenta anos de actividade. Quando Mérmes ali chegou, o director ainda estava a almoçar com a esposa, e a secretária avisou-o que aqueles almoços poderiam demorar bastante. Esse aviso foi, aliás, a única atitude prestável da funcionária, que se remeteu a um mutismo de bibliotecária sisuda, levantando as pontes levadiças da sua fortaleza. Mérmes não viu maneira de atrair a sua simpatia e acabou por desistir. Felizmente, o empresário também demorou pouco, e chegou secundado pela esposa.
            - O doutro Mérmes – apresentou a secretária – diz que quer falar consigo por causa dum assunto de vida ou de morte para a empresa.
            O velhote olhou-o com desconfiança e rosnou para ele o seguir.
            Entrou atrás dele no gabinete, mas desagradou-lhe que a porta do gabinete tivesse ficado entreaberta. Conseguia ouvir a mulher do homem a tagarelar com a secretária, e inquietava-o a possibilidade delas poderem ouvir o teor da conversa.
            - Deixe a porta aberta – troou o velho quando ele a tentava fechar com discrição – o que é que me quer? Tem alguma coisa a ver com o casamento da minha filha? É que eu estou com um pouco de pressa porque eu e a minha mulher andamos á volta dos preparativos para a boda.
            - Não é nada de tão pessoal. É que eu tenho um artigo da vossa empresa, que dois jornais e uma cadeia de televisão se oferecem para mo comprar, mas eu achei justo que ele fosse adquirido pela vossa empresa porque saiu das vossas linhas de produção.
            - E o que é? – perguntou, e novamente num tom de voz próximo do grito.
            - É uma garrafa de água Nascente Viva, com um caracol lá dentro. A garrafa tem a tampa e o rótulo inviolados, por isso não há dúvida de que é vosso. Só queria evitar que caísse nas mãos erradas, e por isso vim ter consigo primeiro.
            - Tretas! Quanto é que lhe ofereceram pelo caracol?
            - Á volta de dez mil, mas nós sabemos que se fosse tornado público, se isso viesse a lume nos jornais ou na televisão, podia causar prejuízos superiores a vinte e cinco mil euros.
            - Dou-lhe cinco mil, e é só para arrumar consigo, porque detesto chantagistas. As pessoas só vêem os noticiários na televisão enquanto esperam pelo futebol ou pelas telenovelas, e o papel de jornal, como é muito áspero para limpar o rabo, só serve para embrulhar o peixe e para os vadios se cobrirem quando dormem na rua. Mas mostre-me a peça!
            Mérmes assim fez, mas com o vagar que se exigia, e sempre olhando fixamente o velho lutador. Pôs o saco em cima da mesa, e desvelou a garrafa de Nascente Viva. O velho suspirou, convencido.
            - Suponho que queira em notas, como qualquer ladrão…
            - Sim, se faz favor…
            - Genoveva – gritou pelo interfone à secretária – vá a Tesouraria e peça para me dispensarem cinco mil euros para eu comprar uma coisa a este senhor, que eu depois explico!
            - Sim, patrão – anuiu a secretária.
            - Deixe a garrafa á vista – ordenou o velho – eu vou lá fora buscar o dinheiro e já venho ter consigo.
            Saiu do gabinete, deixando a porta aberta, e Mérmes, pela primeira vez, sentiu-se preso numa armadilha. Ao fim duns longuíssimos quinze minutos ouviu, à porta do gabinete, a voz de Genoveva e depois, as vozes alteradas do director e da mulher, estavam a discutir, ou a falar, que a diferença devia ser pouca.
            O director voltou a entrar, com o dinheiro num saco, e atirou-o para os seus braços.
            - Confira-o – gritou e desta vez era, indubitavelmente, um grito – e se estiver certo, deixe a garrafa onde está e ponha-se na alheta.
             Mérmes hesitou se deveria conferir ou bater em retirada, mas não quis dar parte de fraco e começou a contar as notas com as mãos trémulas. O nervosismo e a precariedade da situação distraíram-no e quando deu por si, tinha ao seu lado a esposa do Noronha.
            - Augusto! – gritou ela – porque é que estás a pagar uma fortuna por uma garrafa vazia?!

Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...