Mensagens

A mostrar mensagens de Abril, 2012

A justa

Imagem
Sentia as mãos tensas e esforçadas de conduzir o seu carro, e fixava a estrada à sua frente quando notou que outro carro o tentava ultrapassar pela direita. Pela direita? Não estavam em Inglaterra ou coisa que o valha! Acelerou o andamento do carro, sabotou a ultrapassagem e desceu a estrada à frente do outro, ganhando-lhe uma ténue vantagem. Quando olhou para trás, viu que o outro se deveria ter picado com a sua manobra, e acelerava também, ultrapassando-o, agora pela esquerda, sem que ele o pudesse evitar, cansado que estava. O outro fulano chegou primeiro que ele ao destino, e quando deteve o seu carro ao lado do dele, teve de resignar-se com o seu sorrisinho de triunfo, e aguentar a palmada forte no ombro. Encolheu os ombros, e ambos descravaram as pás do monte de saibro e começaram a encher os seus carrinhos de mão. A subir a estrada, com os carros carregados, não haveria lugar para corridas.

a odisseia de educar

Ao casal havia nascido um par de gémeos em hora auspiciosa, inaugurando uma felicidade que se prolongou por quatro anos, até um dos gémeos morrer atropelado por um carro. Depois de devidamente chorada a morte e amaldiçoado os céus, seguiram com a vida, mandando embalsamar o filho morto para permanecer com eles e continuar a fazer parte integrante das rotinas diárias. A criança embalsamada era objecto de cuidados idênticos aos dispensados ao irmão, e vestiam-lhe uma roupa diferente quando iam jantar a um restaurante, passear ao fim-de-semana, a uma peça de teatro ou ao futebol, ou quando iam para fora de férias. Além de ser uma presença reconfortante, revelou ser também, um valioso recurso pedagógico. Se o irmão fazia muito barulho pela casa, ou desarrumava os brinquedos todos, os pais apontavam a criança embalsamada e diziam: "Porque é que não consegues ser como o teu irmão? Vê lá se ele desarruma tudo, ou se faz tanto barulho como tu?!". E diziam algo parecido no resta…

ouro enterrado

Um homem comum, com dois braços, duas pernas e uma cabeça com três orelhas, passeava pelo parque da cidade, quando sentiu uma espécie de intuição ou arroubo místico ao descortinar um losango de relva com uma tonalidade diferente da relva em redor (como os outros homens comuns de três orelhas, este também dava muita importância aos sinais). Da forma em losango inferiu o naipe de ouros das cartas de jogar, e deste, a certa certeza de que havia um tesouro enterrado naquele lugar.
   Saiu do parque, a pé, e foi a pé até casa, vencendo a custo uma distância odisseica de quase vinte e cinco metros. Em casa, tirou do armário uma enxada e voltou ao parque (porque é que um homem que vive na cidade e num quarto alugado, há-de ter uma enxada no armário, é coisa que ninguém foi capaz de me explicar até agora). No parque, arregaçou as mangas até aos cotovelos e começou a escavar no centro do losango. Escavou muito e com método, e ao cabo de duas horas havia aberto uma vala funda com o feitio du…

Antonieta

Estava sentado no carro, parara-o na berma da estrada porque se sentia meio agoniado, e agora procurava restabelecer as forças com o corpo pressionado contra o banco e a porta aberta para trás para entrar um pouco mais de ar. Precisava dele, estava branco como se lhe tivesse parado a digestão ou coisa do género. Também podia ser a tensão, ou alguma arritmia cardíaca da qual ainda ninguém havia suspeitado. Estava a precisar de descansar uma temporada numas termas ou nalguma ilha exótica, ou ainda tinha algum AVC.
   - Já te sentes melhor? - perguntou a mulher ao seu lado, interrompendo aquela via sacra de auto-comiseração - respira fundo e vamos lá embora!
   - As coisas não são assim tão simples, sinto-me mesmo muito mal...
   - O teu mal é o mal de todos - pessimismo, pessimismo tosco, cego, adstringente, a comprimir as pessoas e as suas tolas palavras. O barco abana um pouco no mar, e todos entoam em coro - "Ai, que vamos ao fundo! Ai, que não queremos morrer!". O que o…

Uma manhã diferente

A cidade acordou diferente esta manhã, mais alegre e colorida. Por todas as ruas do centro, haviam estado a atar balões de um azul vivo nas antenas dos carros. Foi engraçado e diferente e alegre passear por ali e ver tantos balões a baloiçar na brisa. Pelos dizeres dos balões, apercebi-me de que se tratava duma campanha publicitária a um modelo de automóveis. Isso, eu dispensava, porque me basta o meu carro de estimação, fiável e antigo como um cão leal. Deixei-o estacionado na rua e agora não o encontro. Também devem ter atado a corda dum balão à antena. Talvez o venha a encontrar, se continuar a olhar com atenção para o céu.

Um telefonema

Com algum esforço, não isento de dor, conseguiu passar da cadeira de rodas para o sofá, e acomodou-se nele, reposicionando a almofada nas costas. Olhou em redor. A senhora que lhe servia de enfermeira estava na cozinha, a preparar-lhe o almoço. Podia ouvir o roncar do forno do micro-ondas e o retinir de talheres e pratos. Não gostava nada dela, achava-a sinistra e perturbante. Estava por todo o lado, disponibilizando-lhe ajuda de uma forma sufocante, e inquirindo sobre todos os seus gestos e movimentos. Agora parecia ocupada, e aproveitou para alcançar o telefone pousado na mesinha de centro. Procurou na lista de contactos o nome do irmão e ligou-lhe. Levou algum tempo a atender, e ele sempre com o olhar cravado na porta da cozinha.
   - Sim? Estou? - ouviu do outro lado.
   - João! Sou eu o Augusto. Sabes que a minha vida anda a ficar muito estranha?
   - Não me digas?!
   - É verdade. Primeiro tive aquela intoxicação alimentar no restaurante. Perdi os sentidos e levaram-me para o…

planetas

Quando assinou o contrato como vendedor de imóveis foi-lhe confiado um medidor de distâncias a Laser para exercer o seu trabalho. Leve esse brinquedo para casa este fim-de-semana, para se familiarizar com ele – disseram-lhe.    Levou o aparelhómetro para casa, ainda dentro da embalagem original. No Domingo de manhã, depois de tomar o pequeno-almoço no café e folhear os jornais do dia, aplicou-se a aprender a usar o medidor de distâncias. Começou por medir a distância entre as paredes da sua sala e calcular a área. Apontou os resultados obtidos e comparou-os com uma medição arcaica com um fita métrica e subsequente cálculo da área. Os valores coincidiam, aquele aparelho era mesmo bom.    Leu cuidadosamente o manual. Podia conhecer a distância de qualquer objecto, e obter o resultado em metros ou jardas, e o mesmo medidor podia servir para distâncias maiores desde que aplicasse a placa apropriada, que vinha no estojo. Usou a placa e levou o medidor para o jardim para um novo ensaio.…

Os novos Tempos Modernos

Imagem
Viu-a pela primeira vez a uma Terça-Feira, no átrio do Centro de Emprego para onde todos os dias peregrinava. Sempre tinha que ficar por ali à seca por umas horas e por isso, mais valia fazer algo de agradável. Meteu conversa.    - É nova por aqui…    - Sim, perdi o emprego…    - A fábrica fechou? O patrão deu parte de maluco e transferiu o capital para as Baleares?    - Quase isso. Num dia tinha uma empresa onde trabalhar, no outro dia só lá estava o edifício, com as portas abertas, e esvaziado por artes mágicas.    - Mais ou menos a mesma história de todos, com louváveis variantes porque senão isto parecia uma falésia de ecos. Chamo-me Nuno! – adiantou, beijando-lhe a face.     - Clara! – retribuiu ela, aceitando o cumprimento.    Prolongaram a conversa, naquele dia, e nos que se seguiram nas semanas seguintes (é repetitivo, eu sei). Á Quinta, ela nunca vinha porque ia visitar os ex-sogros, e à Sexta à tarde, era o dia em que ele faltava à função porque apesar dos seus trintas e…

os tempos e as vontades

Imagem
Finalmente, talvez mais tarde do que seria ideal, o engenho humano conseguira criar um engenho mecânico cuja única fonte de combustível era a água, apenas água, H2O sem misturas nem aditivos. A invenção foi recebida com euforia e multiplicaram-se as aplicações da descoberta. Veículos que se deslocavam sobre rodas  no solo ou deslizavam no eixo do monocarril, pequenas aeronaves para passear na exígua atmosfera, escavadoras-perfuradoras que permitiam criar um espaço virgem no subsolo de rocha branda e que os proprietários transformavam depois numa nova moradia subterrânea, para residência ou especulação lucrativa.
   O único senão da grande descoberta é que naquele lugar, o asteróide gigante S-V-3028, a água era um bem muito escasso, que era racionado para todos os habitantes. Mas se perguntassem a qualquer um dos habitantes se estaria disposto a abdicar dos veículos e máquinas movidas a água, a resposta seria maioritariamente negativa; porque havia sempre pequenos recursos e truque…

timing

O homem triste chegou-se ao pé do irmão, abraçou-o com força, e disse-lhe: "Gosto muito de ti! Perdoa-me se alguma vez te aborreci...". Disse - quase - o mesmo, à Leonor, a filha pequena, que sempre lhe aturara os maus modos e os ralhos, e à mulher, Esmeralda, que nunca deixara de gostar dele, mas sempre apesar de; e, finalmente, ao Afonso, o seu amigo vintage, que tinha o à-vontade suficiente para o mandar à merda quando ele o merecia, mas que, em contrapartida, era leal e bem-humorado, e com o seu feitio generoso, conseguia suavizar as asperezas do seu temperamento. Eram abraços, eram palavras. Mas apenas isso. O tempo dele havia passado porque ele e os outros eram formados por substâncias distintas e imiscíveis.

fantasy-western

- Se não for assim, não há quem os detenha! – comentou a vendedora da praça, louvando-o implicitamente.    O polícia concordou. Não era bem, ou já não era, um polícia. Demasiados anos como polícia-sinaleiro, a ordenar o trânsito com gestos iniludíveis no cruzamento principal da cidade, haviam-no esvaziado da fibra e da determinação necessárias a um agente da Lei.     Ainda assim, tentando lembrar-se daquilo que em tempos aprendera, apertou a cilha do capacete de polícia sinaleiro e, descalçando as elegantes luvas brancas compridas, tomou o peso ao revólver da corporação, preparando-se mentalmente para enfrentar a ofensiva dos insectos gigantescos.

A descida

Os alpinistas montaram o acampamento-base aos dois mil metros de altitude, e prepararam o assalto à grande montanha. Avançaram seis europeus, com dois guias Aimarás que já haviam acompanhado outras expedições. Optaram pela encosta ocidental, mais suave e com um relevo atractivo que apresentava protuberâncias horizontais que se assemelhavam a socalcos naturais, onde poderiam montar outros acampamentos mais próximos do topo, que serviriam de refúgio providencial caso as condições climatéricas se deteriorassem. Mas as condições mantiveram-se favoráveis. O último acampamento de apoio á escalada foi montado aos quatro mil metros, e aí permaneceram dois dos membros da expedição com um dos guias Aimará, tal como previamente planeado. Seriam o elo de ligação com o acampamento-base se as coisas corressem mal. Nos mil e quinhentos metros que faltavam para alcançar o cume da montanha, tudo ficou deveras complicado, e foram fustigados por um vento intenso e neve que quase impossibilitavam o a…

O tesouro dum "nerd"

Imagem
Há umas dezenas de anos, a Biblioteca de Caldas da Rainha não contava com as instalações modernas e actualizadas que hoje possui, e funcionava nos pavilhões Berquó do Parque D.Carlos I, e que devem o seu nome ao autarca-arquitecto de novecentos Rodrigo Berquó; esses pavilhões ainda hoje lá se encontram, a degradarem-se como a ossatura de pedra dum velho dinossauro, e para felicidade dos pombos que têm o seu amplo condomínio privado no desvão sob o telhado dos pavilhões e em muitas salas de vidros partidos.  A Biblioteca não tinha as condições ideais para funcionar, compunha-se apenas de duas salas e um corredor de ligação entre elas, o chão era de sobrado (que vacilava nalguns pontos sob os nossos pés) e as paredes estavam preenchidas por estantes altas repletas de livros, de mais livros dos que seria funcional  e sensato manter aí. Mas possuía o encanto próprio das bibliotecas antigas, um enigmático lugar de luz e penumbra com aquela fragrância a livros velhos que aguça a imagina…

O mester do Dr. Mérmes

Mérmes, que se auto-intitula de doutor (do quê, nunca esclarece), é um homem habituado a arrepiar caminho por todo o lado, mesmo quando está rodeado de portas fechadas a sete chaves e janelas emparedadas. Por esse motivo, não revelou qualquer vestígio de cansaço ou impaciência durante as duas horas que esteve sentado na antecâmara do gabinete do gerente das Águas Saúde, aguardando por uma entrevista não-agendada. Não foram duas horas de inanição, porque Mérmes aproveitou para borboletear em volta da secretária do gerente, puxando conversa, a trocar banalidades e a pô-la do seu lado com galanteios e piropos envoltos em película inofensiva. Não eram piropos e galanteios mas também não deixavam de o ser, o que o colocavam a salvo dalguma reacção inesperada.             Por fim, e muito por acção da jovem secretária, o gerente lá se lembrou dele, e mandou-o entrar. Mérmes, com a rapidez duma Fotomaton, tirou-lhe logo o retrato pela pinta. Jovem, ainda na casa dos trinta, ambic…