A volta ao mundo em oitenta sabores

   Ao fim de muitas tentativas e pedidos, a minha mulher convenceu-me a irmos a um novo restaurante, o Trésor Gourmet, que fora inaugurado na cidade. Fui, mas com muitas reservas, porque a minha fasquia gastronómica é muito básica e posiciona-se algures entre o regular bife com batatas fritas, e um peixe assado na grelha acompanhado de batata cozida e salada de pimentos. Mas fui, é preciso que se note, com muita fome e muita coragem. O novo restaurante foi o que se esperava, muita gente e muito tempo de espera. Quando por fim tivemos uma mesa à disposição, começou a nossa viagem à volta do mundo, porque nada era dali perto, e aparentemente, todos os ingredientes eram fornecidos com literatura apensa. Vejamos. O queijo de cabra duma das entradas provinha duma exploração nos montes Apeninos onde as cabras eram ordenhadas apenas nas noites de Lua Nova e eram usados para armazenar o leite, recipientes de vidro que tinham sido feitos à imagem duns vasos que figuravam num tratado alquímico que se conserva num museu de Bolonha. E íamos só nas entradas. O pão devia ter o mesmo fornecedor porque a história era parecida - farinha de quatro cereais diferentes amassados com azeite e cozidos num forno semelhante ao atanor alquímico. Dei por mim a perguntar - um homem tem de dizer alguma coisa - se o azeite com que amassavam a massa era azeite comum, mas a resposta tinha de ser negativa. O azeite provinha dumas oliveiras que haviam sido enxertadas de espécimes antiquíssimas que haviam sido encontrados num vale médio dos Pirenéus e que os geneticistas acreditam terem a sua origem em oliveiras da Idade do Ferro. O vinho que me aconselharam também não era para plebeus, provinha da Turquia, duma vinha excepcional desenvolvida em terrenos onde durante gerações se havia cultivado o sésamo e que, por isso, permitia sentir-se no travo a acidez desse cereal de eleição, e no cheiro, o vigor do vento sobre as searas. Veio a carne, estava lá no prato, comprovo-o, um pedaço de carne do tamanho duma noz guarnecido de legumes salteados e arroz de pinhões. Devorei tudo, em menos tempo do que o nosso guia gourmet precisou para explicar o carácter único de cada um dos ingredientes usados, esgrimindo com belas palavras como se martelasse a cabeça de selvagens com um chapéu colonial. Escusei-me à sobremesa, ao café e aos licores, estava empanturrado de palavras mas continuava com fome. Pedi a conta, paguei com notas e, ante a surpresa do guia gourmet, apressei-me a explicar:
   - Não são notas vulgares, provém dum dos primeiros jogos de Monopólio que circularam no nosso país, são uma antiguidade e mereciam estar num museu como o de Bolonha.

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