vida profunda 2

esbracejou dentro de água ao mesmo tempo que batia os pés com força, e enquanto lutava para conseguir vir á tona sem que a pá do remo lhe acertasse na cabeça, tentava ao mesmo tempo não perder a noção de onde estava o barco, o fundo abaulado do barco de madeira, com medo de se afastar dele nessa vertigem de sobrevivência e ver-se só no meio do mar; continuaram nesse jogo mais algum tempo, ele insinuando a cabeça de fora da água para engolir o ar com sôfregas golfadas para logo mergulhar quando a pá se abatia sobre a epiderme salgada, e o seu potencial homicida a tentar acertar-lhe, seguindo nervoso os contorcionismos do seu corpo ágil dentro de água, temendo que ele escapasse de alguma maneira ou que tentasse virar o bote; e por fim desistiram; o frustrado agressor em potência pousou o remo no barco e gritou "Basta, desisto!", cansado que estava dos braços, de todos os músculos dos braços por andar a esgrimir o pesado remo; e quase no mesmo instante, o homem dentro de água também desistia, sem gritos nem sons, o seu corpo a afundar-se nas águas escuras, empurrado pelo cansaço e pelo peso da memória no peito.

Mensagens populares deste blogue

Abril de 1918 - o caminho para uma Primavera de sangue

A viagem