(uma espécie de conto infantil)


 O REI DE FAZ-DE-CONTA

Uma certa manhã, todos os animais da savana ficaram muito admirados quando o velho Leão fez saber que já estava cansado de reinar sobre eles. Todos os animais e bichos se reuniram então numa grande planície para escolher um novo rei. Vieram hipopótamos e chitas sarapintadas, rinocerontes e zebras listadas, vieram avestruzes, papa-formigas, gorilas a urrar e todos os que se consiga imaginar, mas também águias e flamingos, formigas e caracóis, borboletas e grilos…Ah! E veio também o bicho-de-conta, que sempre desejara ser rei, porque era muito pequeno e ninguém lhe tinha respeito.
Quando começou a reunião, o bicho-de-conta pediu á girafa para se sentar em cima da sua cabeça, mas ela não deixou porque não lhe achou muita graça; depois pensou em ficar em cima da hiena, mas a hiena cheirava tão mal que até dava pena, e por fim resolveu colocar-se em cima da cabeça do grande elefante, para parecer um animal muito importante.
O Leão tirou a coroa da cabeça e perguntou:
- Quem deseja ser rei e tomar o meu lugar?
O pequenino Bicho-de-conta pôs-se em bicos de pés e gritou com a voz mais forte que tinha:
- Eu quero ser rei! Eu quero! Eu quero!
Os animais, pensando que era o elefante que falava, aceitaram e quiseram entregar-lhe a coroa, mas o elefante protestou:
- Não fui eu que falei, foi este bicharoco pateta que está em cima da minha cabeça!
Todos ficaram muito admirados, mas o bicho-de-conta, pondo-se aos saltos para que todos o vissem melhor, gritava:
- Já me escolheram, já me escolheram, e agora já não podem voltar atrás, agora sou o rei de todos vós. Não quero essa coroa porque é grande demais para mim, vou criar uma nova coroa mas, para começar, vou dar as minhas primeiras ordens como rei dos animais:
«Todos vocês sabem que eu sou muito pequeno e muito fraco, e quando sinto o perigo, enrolo-me numa bola para me proteger. Isso faz-me ficar muito triste, porque os outros animais fazem troça de mim. Agora que sou rei, desejo que vocês sintam como é difícil ser um bicho-de-conta.
«Por isso, a minha primeira ordem como rei dos animais é esta: Amanhã de manhã, quando começar a passear pelo reino, todos os animais á minha passagem devem enrolar-se como os bichos-de-conta porque, senão, mandarei castigá-los.
E dito isto, saltou do elefante, deixando todos os animais a pensar no assunto, muito preocupados.

Durante aquela noite, o bicho-de-conta, inventou uma pequena coroa que modelou em barro vermelho, e uma capa comprida recortada na camisa duma espiga de milho. Na manhã seguinte, o bicho-de-conta saiu muito cedo da covinha onde morava, e começou a inspeccionar o reino. Mas quase todos os animais se tinham escondido ou ido para longe da sua casa para não terem de obedecer á sua ordem disparatada. Mas o bicho-de-conta não desistiu e continuou á procura. Por fim encontrou uma cobra, e disse-lhe:
- Enrola-te como um bicho-de-conta ou serás castigada!
A cobra enrolou-se sem qualquer problema e ficou feita numa bola, dizendo: “Não me escondi de ti porque isto para mim é fácil, eu consigo fazer isto á vontadex”.
O rei continuou e viu um porco-espinho e repetiu a ordem, e o porco-espinho enrolou-se sem dificuldade, e um caracol, que lá se enrolou dentro da casca e lhe lhe fez saber:
- Ó senhor reizinho, a minha casca por dentro é como um túnel em espiral, de cada vez que venho cá para dentro fico enrolado dentro da minha casa.
Aquilo não agradou ao bicho-de-conta porque a sua primeira ordem como rei dos animais não parecia assim tão difícil, e ele queria que os outros animais percebessem como era difícil ser um frágil e assustado bicho-de-conta. Continuou a andar, a andar, e encontrou um elefante a tomar banho num grande charco de água. Era o mesmo elefante que lhe servira de poleiro na grande reunião dos animais. O elefante estava deitado de costas na água do charco com uma das patas pousada na areia da margem. Usando essa pata como ponte, o bicho-de-conta subiu até á sua grande barriga e, apontando a coroa que trazia na cabeça e a majestosa capa atrás de si, falou assim:
- Eu sou o rei de todos os animais, e como rei te ordeno que te enroles como um bicho-de-conta.
O elefante obedeceu, e levantando as patas e a cabeça, fez-se numa bola gigante, prendendo o bicho-de-conta no meio da sua barriga.
- Socorro! – gritou o insecto – estou a sufocar aqui dentro, tens de me libertar!
- Não posso – respondeu o elefante – ordenaste que eu me enrolasse, e eu não quero ser castigado por te desobedecer.
- Eu desfaço a ordem, solta-me!
O elefante voltou a esticar os membros, e enquanto agitava as largas orelhas para ajudar o aflito bicho-de-conta a respirar melhor, usou a tromba para lhe dar uma boa mangueirada de água, a ver se ele se recompunha.
- Irra!! – Exclamou por fim, o bicho-de-conta – isto de ser rei é mais perigoso do que eu pensava. Já não quero ser rei, e a minha última ordem real é que tu vás procurar a coroa que era do leão e a ponhas na tua própria cabeça, porque era a ti que os outros animais a queriam dar.
O elefante assim fez, e tornou-se o novo rei dos animais, mas não se esqueceu do minúsculo bicho-de-conta.
Agora que compreendia como era difícil ser uma criatura tão pequena, não deixou fugir a oportunidade de se tornar amigo dele. O bicho-de-conta foi nomeado conselheiro do rei, e passou a viajar com ele pelo reino, instalado no alto da cabeça, bem no centro da coroa real.

FIM


História escrevinhada para ser lida diante duma (generosa) audiência de alunos do primeiro ciclo.

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