o lugar a que se pertence

   - O seu lugar é mais adiante, naquele espaço no meio da praça!
   Ah, que bom! - pensou consigo mesmo. Finalmente alguém lhe dizia qual era o seu lugar, o lugar onde se encaixava. Seguiu as instruções, e ocupou o seu lugar no meio da praça, depois de passar com muito cuidado por cima das pessoas deitadas no chão empedrado. Parecia pertencer a um puzzle gigante, no qual cada pessoa era uma peça, e ele, a última peça e a última pessoa a chegar ali, é que iria finalizar, completar o puzzle. Sentiu um imenso orgulho. Deitou-se no chão, com o corpo em éle, dobrado pela cintura, e quando estava já encaixado, perfeitamente encaixado no seu lugar e no seu espaço, os militares posicionados no telhado da igreja começaram a disparar as metralhadoras sobre eles.

4 comentários:

  1. Terrível e ótimo.
    até para morrer devemos saber qual o melhor lugar...

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  2. :)

    essa dos militares no telhado da Igreja traz-me uma recordação ligada ao 25 de Abril.

    mas a história está óptima...um fim de parar a respiração.

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  3. As metralhadoras são disparadas do cimo das igrejas quando elas ocupam os lugares mais altos. Calculo que esta sua história seja portanto uma historia "vintage".
    Não pare de escrever, já não dispenso esta "estrada..."

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  4. Obrigado. Este texto é o reflexo duma leitura recente, Os Grandes Cemitérios sob a Lua, uma obra extraordinária de Bernanos sobre a Guerra Civil de Espanha, que tive a sorte de comprar na feira de velharias cá do burgo. Duplamente vintage, na verdade

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