o imprevisto

   Demétrio era um homem previdente a avisado, que detestava surpresas e gostava de planificar e preparar todas as coisas com muita antecedência, as declarações de impostos ou as roupas quentes para o Inverno que ainda vinha longe. Por isso, quando sentiu a idade converter-se em sintomas da mais variada ordem, comprou, com a concordância da mulher, Odete, um caixão de madeira para o dia em que lhe calhasse descer à terra. Não era nada de mais, e ambos mantiveram um comportamento adequado e normalíssimo para com a nova aquisição. O caixão foi colocado no quarto de hóspedes da casa, e como havia aproveitado uma promoção, Demétrio também teve direito a uma lápide com o seu nome e data de nascimento, faltando apenas, e apenas por inépcia dos vendedores, inscrever a data do óbito.
   Para que a madeira do caixão não ganhasse caruncho, Demétrio tratava-a com bioxene, e polia e envernizava o metal das ferragens. Odete, por seu turno, foi aprendendo que flores deveria comprar, e como fazer um arranjo muito bonito para pôr na sepultura sem gastar uma importância exagerada; e Demétrio aproveitou para ensiná-la a pintar as letras douradas da lápide, e a limpar os excedentes de tinta em redor dos caracteres. A coisa até estava a correr muito bem para os dois finos artigos funerários e os seus felizes possuidores, até ao dia em que Odete começou a fazer contas ao dinheiro, e anunciou a Demétrio que quando fosse a altura, teria de lhe comprar flores de papel ou plástico porque a sua reforma não iria dar para mais. Demétrio exaltou-se e exigiu-lhe que lhe levasse flores verdadeiras, daquelas que as abelhas seguem nos cemitérios, mas Odete manteve a sua decisão, porque não iria morrer à fome para que as abelhas fizessem mel. Demétrio voltou a insistir, mas Odete negou-se outra vez, e andaram uns tempos nisto, até que Demétrio amuou de vez, e entrou pelo seu pé no caixão para nunca mais dali sair.

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