fora dos livros

   No meio de campos maninhos, a enxada daquele homem abriu um quadrilátero de cultivo, revolvendo e despregando a terra. Traçou sulcos paralelos no terreno, e depois, sulcos perpendiculares a estes que conferiram um padrão de xadrez ao conjunto. Por fim, traçou um sulco circular a toda a volta, tocando os quatro ângulos - o quatro dentro do círculo, a terra dentro do céu.
   Deixou a terra repousar durante três dias, três dias e três noites de calor e orvalho, vento e tímidos chuviscos, mas também poalha das estrelas, temperada nas altitudes mais elevadas pelas erupções do Sol e o magnetismo dos corpos planetários. Na noite que coroou o terceiro dia, colocou-se no centro do terreno, e observou a posição da Lua e dos planetas na abóbada celeste. Após esse exame, que considerou favorável, depositou nesse lugar a semente, e em seguida sepultou-a e encheu de terra todos os sulcos que abrira com o cuidado de quem afaga uma cicatriz. E, finalmente, abandonou aquele terreno que, em muito pouco tempo, ninguém conseguiria diferenciar da charneca em redor. Ninguém, é um exagero, porque uma pessoa, apenas uma pessoa, uma mulher, o conseguiria notar, uma mulher com o rosto e o corpo marcados pelas invernias, mas também por paixões madrigais, e que naquele ermo sem nome, no centro sagrado daquele recinto de terra e obedecendo a ritos ancestrais e secretos, se acocoraria sobre o solo, e receberia no seusexo a semente do alquimista que ali a deixara, muitas gerações atrás.

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