Assimetria

O filho adolescente propôs-lhe subirem ao miradouro da vila. Ficou uns segundos a ponderar o assunto. O miradouro era uma velha ermida que haviam erguido há mais de quatrocentos anos sobre as pedras dum antigo dólmen (assim o informava o folheto turístico que possuíam), e donde estavam, no meio do casario, aquela ermida era apenas um ponto branco no alto duma morro cónico. O filho era adolescente e o desafio aflorou-lhe levemente aos lábios, mas para ele, mais envelhecido e macerado pelas adversidades, aquela empresa parecia-lhe temerária e pouco atractiva. Mas não quis recusar, não quis envelhecer uns poucos anos em poucos segundos aos olhos do filho adolescente. Aceitou. Atestaram as mochilas com água engarrafada, e iniciaram a subida – um escadaria de degraus miudinhos, pautados a espaços por pequenos patamares triangulares, que apareciam de cada vez que o caminho inflectia para dentro, porque o caminho ascendia em espiral pela orla do morro. Para si, e enquanto tentava manter a respiração regularizada para não dar mostras de fraqueza, o progenitor ia contando os degraus – vinte e quatro…Vinte e cinco…Cento e dois…Cento e três…Pararam algumas vezes na subida para os dois, mais ele, se recomporem, sob o pretexto de admirar a vista ou tirar uma fotos com a pequena máquina digital.  Ao fim de muitas paragens e degraus, chegaram ao topo. Quatrocentos e trinta e quatro degraus!
Estavam os dois de rastos, descansaram, beberam água, tiraram fotos e degustaram um pequeno lanche. A vista era magnífica. Campos planos, a perder de vista, com aldeolas dispersas e inúmeras oliveiras. A jusante da vila podia-se admirar o traçado irregular duma vala profunda onde em tempos, ou noutra altura do ano, devia ter corrido um rio, do qual só sobrevivera as areias e pedras arredondadas do leito seco. O filho lembrou-o de que deveriam pensar em regressar, porque a tarde começava a declinar. Concordou, mais tranquilo agora por saber que seria muito mais fácil do que a escalada que haviam vencido. Em todo o caso, e para ter uma noção da progressão da caminhada, contou novamente os degraus a partir do um e, novamente, apenas para si, discretamente…Quinze…Dezasseis…Dezassete…Noventa e cinco…Noventa e seis. Estranhamente, quando alcançaram o tricentésimo degrau parecia que ainda estavam no início da descida, com a paisagem em volta com a mesma beleza e magnitude. Por esse motivo, não estranhou quando chegaram ao quatrocentésimo, trigésimo quarto degrau, e descobriu que ainda estavam a meio da descida. Não se alarmou, não tinha motivos para tal, porque sabia, como qualquer pessoa comum, que os montes também crescem.


Mensagens populares deste blogue

Abril de 1918 - o caminho para uma Primavera de sangue

A viagem