anseio

Vejo em volta, sem olhar, com uma visão só embaraçada pelo agitar tardio de asas e plumas a esvoaçar no ar. Já anoiteceu, e eu vejo em volta, sem olhar. Há um homem bêbedo que nem um cacho deitado nos degraus em baixo, um pouco mais adiante, sob o halo dum candeeiro, uma mulher de mini-saia e cabeleira loura vasculha na carteira, procurando qualquer coisa enquanto espera ser procurada por um cliente. Apenas dois humanos na praça àquela hora da noite. Talvez nenhum dos dois notasse. Podiam tentar. Mas eis que um novo par de humanos pisa o empedrado da praça, duas mulheres que brigam, que gritam uma com a outra, para logo a seguir se abraçarem aos beijos e apalpões, para logo irromperem de novo em protestos e acusações. O pior é que também se sentam nos degraus em baixo, no lado oposto ao do bêbedo. A discussão amaina, os gritos, ficam sentadas, docemente abraçadas, a tentar ver as estrelas para além das luzes da cidade. Estou prestes a desistir, ouço o cavalo resfolegar de desalento dentro do seu silêncio de pedra, eu e ele desiludidos por não podermos saltar do pedestal, e perdermo-nos numa cavalgada louca e desenfreada pelas ruas anoitecidas da cidade.

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