acordar

   A luz foi surgindo depois de um longo período de tempo, sentira-a longe como uma cúpula envidraçada onde a luz do sol se derretesse, depois aproximou-se rapidamente e agora era um clarão doloroso do outro lado das pálpebras fechadas. Abriu os olhos a medo, e a luz magoou-lhe as retinas como gelo a queimar. Levantou instintivamente o braço para proteger os olhos, e então viu-o, ao braço. Ficou espantada, olhando o seu próprio braço, magro, de ossos e músculos quase à superfície da pele, agitando-se sobre esta como vermes ou secretas e magras raízes. Com a outra mão, tacteou a pele daquele braço, a pele esticada e velha, mais morta do que enrugada. Também tinha uma cicatriz antiga no antebraço, de costura irregular. Acariciou-a com a ponta dos dedos, como se temesse que ela acordasse numa hemorragia vingativa. As suas mãos também a espantaram, mãos magras de cadáver, ossudas e atrofiadas. Quando deu por ela, todas as pessoas naquele quarto se entreolhavam significativamente, interpretando de uma forma pouco favorável os seus gestos prospectores. Havia um médico aos pés da cama, e uma enfermeira ao seu lado, segurando-lhe diante do rosto uma pasta com papéis. Ao seu lado direito, sentado numa cadeira de metal, uma mulher muito gorda estava chegada para a pontinha do assento, encostava o rosto redondo ao seu cotovelo, e sorria-lhe com os seus lábios grossos e brilhantes de saliva ou gordura. Atrás dela, sobre o seu ombro direito, assomava uma cabeça de criança a espreitar como se pertencesse a um anjo gordo e disforme como os da arte sacra. O médico disse qualquer coisa à enfermeira, e viu-a a preparar uma injecção, a encher o reservatório, e a bater no vidro da seringa com duas unhas. As palavras que o médico pronunciara, agora, tornavam-se nítidas, tomando forma no seu espírito como um eco caprichoso: tem de ser amputada!. Teve um sobressalto, e agitou-se na cama. A enfermeira tentou virá-la para descobrir-lhe uma nádega mas ela ofereceu resistência, fazendo força para as manter pressionadas contra a cama. A senhora gorda ajudou a enfermeira a virá-la, empurrando o seu ombro com tanta força que o sentiu estalar.
    - Tenha calma, tia! - pediu a cara-de-lua, ao mesmo tempo que a injecção era administrada, provocando-lhe uma dor aguda e gelada.
   A enfermeira esfregou a local de injecção com um pouco de algodão, e voltou a soltá-la.
   Sentiu-se a arfar como um cão atropelado. Enquanto os sentidos começavam a ficar toldados, e a força abandonava os membros, conseguiu segurar o braço da mulher sentada na cadeira, e sussurrar-lhe a verdade: Eu não te conheço! Este não é o meu corpo!

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