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conversa

- De que é que eu me queixo, doutor? Do mesmo. Tenho sempre sede, bebo e bebo mais e continuo com uma sede dos diabos...
- Já tínhamos visto isso da última vez e eu acho que deve ser diabetes, quando se começa a ter diabetes, tem-se muita sede.
- Muita mesmo, doutor, bebo e bebo e a sede é sempre a mesma. Eu fui fazer as análises que você disse, mas o laboratório aqui da aldeia manda os exames para serem feitos fora, e vai e vem e pode levar meses, e a sede não diminui.
-Tinha-o aconselhado a algumas medidas cautelares, para o caso de ser mesmo diabetes. Uma dieta alimentar, por exemplo...
- Correcto, segui-a à letra.
- Folha de eucalipto fervida?
- Sim!
- Cerefólios e tapeinóquilos marinados em conhaque?
- Sim!
- Estames de astromélias e tumbérgias, cozidas em pão de centeio.
- Confere!
- Carne de perdiz com folhas de brovália e dipladénias.
- Confere!
- E diz que não sente melhoras e que a sede se mantém?!
- Certo, doutor, bebo continuamente e não há meio da sede passar...
- Nesse caso, enquanto as análises não chegam da cidade para tirarmos teimas, acho que deveríamos pensar em optar pelos Alcoólicos Anónimos....

acordar

   A luz foi surgindo depois de um longo período de tempo, sentira-a longe como uma cúpula envidraçada onde a luz do sol se derretesse, depois aproximou-se rapidamente e agora era um clarão doloroso do outro lado das pálpebras fechadas. Abriu os olhos a medo, e a luz magoou-lhe as retinas como gelo a queimar. Levantou instintivamente o braço para proteger os olhos, e então viu-o, ao braço. Ficou espantada, olhando o seu próprio braço, magro, de ossos e músculos quase à superfície da pele, agitando-se sobre esta como vermes ou secretas e magras raízes. Com a outra mão, tacteou a pele daquele braço, a pele esticada e velha, mais morta do que enrugada. Também tinha uma cicatriz antiga no antebraço, de costura irregular. Acariciou-a com a ponta dos dedos, como se temesse que ela acordasse numa hemorragia vingativa. As suas mãos também a espantaram, mãos magras de cadáver, ossudas e atrofiadas. Quando deu por ela, todas as pessoas naquele quarto se entreolhavam significativamente, interpretando de uma forma pouco favorável os seus gestos prospectores. Havia um médico aos pés da cama, e uma enfermeira ao seu lado, segurando-lhe diante do rosto uma pasta com papéis. Ao seu lado direito, sentado numa cadeira de metal, uma mulher muito gorda estava chegada para a pontinha do assento, encostava o rosto redondo ao seu cotovelo, e sorria-lhe com os seus lábios grossos e brilhantes de saliva ou gordura. Atrás dela, sobre o seu ombro direito, assomava uma cabeça de criança a espreitar como se pertencesse a um anjo gordo e disforme como os da arte sacra. O médico disse qualquer coisa à enfermeira, e viu-a a preparar uma injecção, a encher o reservatório, e a bater no vidro da seringa com duas unhas. As palavras que o médico pronunciara, agora, tornavam-se nítidas, tomando forma no seu espírito como um eco caprichoso: tem de ser amputada!. Teve um sobressalto, e agitou-se na cama. A enfermeira tentou virá-la para descobrir-lhe uma nádega mas ela ofereceu resistência, fazendo força para as manter pressionadas contra a cama. A senhora gorda ajudou a enfermeira a virá-la, empurrando o seu ombro com tanta força que o sentiu estalar.
    - Tenha calma, tia! - pediu a cara-de-lua, ao mesmo tempo que a injecção era administrada, provocando-lhe uma dor aguda e gelada.
   A enfermeira esfregou a local de injecção com um pouco de algodão, e voltou a soltá-la.
   Sentiu-se a arfar como um cão atropelado. Enquanto os sentidos começavam a ficar toldados, e a força abandonava os membros, conseguiu segurar o braço da mulher sentada na cadeira, e sussurrar-lhe a verdade: Eu não te conheço! Este não é o meu corpo!

o imprevisto

   Demétrio era um homem previdente a avisado, que detestava surpresas e gostava de planificar e preparar todas as coisas com muita antecedência, as declarações de impostos ou as roupas quentes para o Inverno que ainda vinha longe. Por isso, quando sentiu a idade converter-se em sintomas da mais variada ordem, comprou, com a concordância da mulher, Odete, um caixão de madeira para o dia em que lhe calhasse descer à terra. Não era nada de mais, e ambos mantiveram um comportamento adequado e normalíssimo para com a nova aquisição. O caixão foi colocado no quarto de hóspedes da casa, e como havia aproveitado uma promoção, Demétrio também teve direito a uma lápide com o seu nome e data de nascimento, faltando apenas, e apenas por inépcia dos vendedores, inscrever a data do óbito.
   Para que a madeira do caixão não ganhasse caruncho, Demétrio tratava-a com bioxene, e polia e envernizava o metal das ferragens. Odete, por seu turno, foi aprendendo que flores deveria comprar, e como fazer um arranjo muito bonito para pôr na sepultura sem gastar uma importância exagerada; e Demétrio aproveitou para ensiná-la a pintar as letras douradas da lápide, e a limpar os excedentes de tinta em redor dos caracteres. A coisa até estava a correr muito bem para os dois finos artigos funerários e os seus felizes possuidores, até ao dia em que Odete começou a fazer contas ao dinheiro, e anunciou a Demétrio que quando fosse a altura, teria de lhe comprar flores de papel ou plástico porque a sua reforma não iria dar para mais. Demétrio exaltou-se e exigiu-lhe que lhe levasse flores verdadeiras, daquelas que as abelhas seguem nos cemitérios, mas Odete manteve a sua decisão, porque não iria morrer à fome para que as abelhas fizessem mel. Demétrio voltou a insistir, mas Odete negou-se outra vez, e andaram uns tempos nisto, até que Demétrio amuou de vez, e entrou pelo seu pé no caixão para nunca mais dali sair.

anseio

Vejo em volta, sem olhar, com uma visão só embaraçada pelo agitar tardio de asas e plumas a esvoaçar no ar. Já anoiteceu, e eu vejo em volta, sem olhar. Há um homem bêbedo que nem um cacho deitado nos degraus em baixo, um pouco mais adiante, sob o halo dum candeeiro, uma mulher de mini-saia e cabeleira loura vasculha na carteira, procurando qualquer coisa enquanto espera ser procurada por um cliente. Apenas dois humanos na praça àquela hora da noite. Talvez nenhum dos dois notasse. Podiam tentar. Mas eis que um novo par de humanos pisa o empedrado da praça, duas mulheres que brigam, que gritam uma com a outra, para logo a seguir se abraçarem aos beijos e apalpões, para logo irromperem de novo em protestos e acusações. O pior é que também se sentam nos degraus em baixo, no lado oposto ao do bêbedo. A discussão amaina, os gritos, ficam sentadas, docemente abraçadas, a tentar ver as estrelas para além das luzes da cidade. Estou prestes a desistir, ouço o cavalo resfolegar de desalento dentro do seu silêncio de pedra, eu e ele desiludidos por não podermos saltar do pedestal, e perdermo-nos numa cavalgada louca e desenfreada pelas ruas anoitecidas da cidade.

fora dos livros

   No meio de campos maninhos, a enxada daquele homem abriu um quadrilátero de cultivo, revolvendo e despregando a terra. Traçou sulcos paralelos no terreno, e depois, sulcos perpendiculares a estes que conferiram um padrão de xadrez ao conjunto. Por fim, traçou um sulco circular a toda a volta, tocando os quatro ângulos - o quatro dentro do círculo, a terra dentro do céu.
   Deixou a terra repousar durante três dias, três dias e três noites de calor e orvalho, vento e tímidos chuviscos, mas também poalha das estrelas, temperada nas altitudes mais elevadas pelas erupções do Sol e o magnetismo dos corpos planetários. Na noite que coroou o terceiro dia, colocou-se no centro do terreno, e observou a posição da Lua e dos planetas na abóbada celeste. Após esse exame, que considerou favorável, depositou nesse lugar a semente, e em seguida sepultou-a e encheu de terra todos os sulcos que abrira com o cuidado de quem afaga uma cicatriz. E, finalmente, abandonou aquele terreno que, em muito pouco tempo, ninguém conseguiria diferenciar da charneca em redor. Ninguém, é um exagero, porque uma pessoa, apenas uma pessoa, uma mulher, o conseguiria notar, uma mulher com o rosto e o corpo marcados pelas invernias, mas também por paixões madrigais, e que naquele ermo sem nome, no centro sagrado daquele recinto de terra e obedecendo a ritos ancestrais e secretos, se acocoraria sobre o solo, e receberia no seusexo a semente do alquimista que ali a deixara, muitas gerações atrás.

(uma espécie de conto infantil)


 O REI DE FAZ-DE-CONTA

Uma certa manhã, todos os animais da savana ficaram muito admirados quando o velho Leão fez saber que já estava cansado de reinar sobre eles. Todos os animais e bichos se reuniram então numa grande planície para escolher um novo rei. Vieram hipopótamos e chitas sarapintadas, rinocerontes e zebras listadas, vieram avestruzes, papa-formigas, gorilas a urrar e todos os que se consiga imaginar, mas também águias e flamingos, formigas e caracóis, borboletas e grilos…Ah! E veio também o bicho-de-conta, que sempre desejara ser rei, porque era muito pequeno e ninguém lhe tinha respeito.
Quando começou a reunião, o bicho-de-conta pediu á girafa para se sentar em cima da sua cabeça, mas ela não deixou porque não lhe achou muita graça; depois pensou em ficar em cima da hiena, mas a hiena cheirava tão mal que até dava pena, e por fim resolveu colocar-se em cima da cabeça do grande elefante, para parecer um animal muito importante.
O Leão tirou a coroa da cabeça e perguntou:
- Quem deseja ser rei e tomar o meu lugar?
O pequenino Bicho-de-conta pôs-se em bicos de pés e gritou com a voz mais forte que tinha:
- Eu quero ser rei! Eu quero! Eu quero!
Os animais, pensando que era o elefante que falava, aceitaram e quiseram entregar-lhe a coroa, mas o elefante protestou:
- Não fui eu que falei, foi este bicharoco pateta que está em cima da minha cabeça!
Todos ficaram muito admirados, mas o bicho-de-conta, pondo-se aos saltos para que todos o vissem melhor, gritava:
- Já me escolheram, já me escolheram, e agora já não podem voltar atrás, agora sou o rei de todos vós. Não quero essa coroa porque é grande demais para mim, vou criar uma nova coroa mas, para começar, vou dar as minhas primeiras ordens como rei dos animais:
«Todos vocês sabem que eu sou muito pequeno e muito fraco, e quando sinto o perigo, enrolo-me numa bola para me proteger. Isso faz-me ficar muito triste, porque os outros animais fazem troça de mim. Agora que sou rei, desejo que vocês sintam como é difícil ser um bicho-de-conta.
«Por isso, a minha primeira ordem como rei dos animais é esta: Amanhã de manhã, quando começar a passear pelo reino, todos os animais á minha passagem devem enrolar-se como os bichos-de-conta porque, senão, mandarei castigá-los.
E dito isto, saltou do elefante, deixando todos os animais a pensar no assunto, muito preocupados.

Durante aquela noite, o bicho-de-conta, inventou uma pequena coroa que modelou em barro vermelho, e uma capa comprida recortada na camisa duma espiga de milho. Na manhã seguinte, o bicho-de-conta saiu muito cedo da covinha onde morava, e começou a inspeccionar o reino. Mas quase todos os animais se tinham escondido ou ido para longe da sua casa para não terem de obedecer á sua ordem disparatada. Mas o bicho-de-conta não desistiu e continuou á procura. Por fim encontrou uma cobra, e disse-lhe:
- Enrola-te como um bicho-de-conta ou serás castigada!
A cobra enrolou-se sem qualquer problema e ficou feita numa bola, dizendo: “Não me escondi de ti porque isto para mim é fácil, eu consigo fazer isto á vontadex”.
O rei continuou e viu um porco-espinho e repetiu a ordem, e o porco-espinho enrolou-se sem dificuldade, e um caracol, que lá se enrolou dentro da casca e lhe lhe fez saber:
- Ó senhor reizinho, a minha casca por dentro é como um túnel em espiral, de cada vez que venho cá para dentro fico enrolado dentro da minha casa.
Aquilo não agradou ao bicho-de-conta porque a sua primeira ordem como rei dos animais não parecia assim tão difícil, e ele queria que os outros animais percebessem como era difícil ser um frágil e assustado bicho-de-conta. Continuou a andar, a andar, e encontrou um elefante a tomar banho num grande charco de água. Era o mesmo elefante que lhe servira de poleiro na grande reunião dos animais. O elefante estava deitado de costas na água do charco com uma das patas pousada na areia da margem. Usando essa pata como ponte, o bicho-de-conta subiu até á sua grande barriga e, apontando a coroa que trazia na cabeça e a majestosa capa atrás de si, falou assim:
- Eu sou o rei de todos os animais, e como rei te ordeno que te enroles como um bicho-de-conta.
O elefante obedeceu, e levantando as patas e a cabeça, fez-se numa bola gigante, prendendo o bicho-de-conta no meio da sua barriga.
- Socorro! – gritou o insecto – estou a sufocar aqui dentro, tens de me libertar!
- Não posso – respondeu o elefante – ordenaste que eu me enrolasse, e eu não quero ser castigado por te desobedecer.
- Eu desfaço a ordem, solta-me!
O elefante voltou a esticar os membros, e enquanto agitava as largas orelhas para ajudar o aflito bicho-de-conta a respirar melhor, usou a tromba para lhe dar uma boa mangueirada de água, a ver se ele se recompunha.
- Irra!! – Exclamou por fim, o bicho-de-conta – isto de ser rei é mais perigoso do que eu pensava. Já não quero ser rei, e a minha última ordem real é que tu vás procurar a coroa que era do leão e a ponhas na tua própria cabeça, porque era a ti que os outros animais a queriam dar.
O elefante assim fez, e tornou-se o novo rei dos animais, mas não se esqueceu do minúsculo bicho-de-conta.
Agora que compreendia como era difícil ser uma criatura tão pequena, não deixou fugir a oportunidade de se tornar amigo dele. O bicho-de-conta foi nomeado conselheiro do rei, e passou a viajar com ele pelo reino, instalado no alto da cabeça, bem no centro da coroa real.

FIM


História escrevinhada para ser lida diante duma (generosa) audiência de alunos do primeiro ciclo.

Assimetria

O filho adolescente propôs-lhe subirem ao miradouro da vila. Ficou uns segundos a ponderar o assunto. O miradouro era uma velha ermida que haviam erguido há mais de quatrocentos anos sobre as pedras dum antigo dólmen (assim o informava o folheto turístico que possuíam), e donde estavam, no meio do casario, aquela ermida era apenas um ponto branco no alto duma morro cónico. O filho era adolescente e o desafio aflorou-lhe levemente aos lábios, mas para ele, mais envelhecido e macerado pelas adversidades, aquela empresa parecia-lhe temerária e pouco atractiva. Mas não quis recusar, não quis envelhecer uns poucos anos em poucos segundos aos olhos do filho adolescente. Aceitou. Atestaram as mochilas com água engarrafada, e iniciaram a subida – um escadaria de degraus miudinhos, pautados a espaços por pequenos patamares triangulares, que apareciam de cada vez que o caminho inflectia para dentro, porque o caminho ascendia em espiral pela orla do morro. Para si, e enquanto tentava manter a respiração regularizada para não dar mostras de fraqueza, o progenitor ia contando os degraus – vinte e quatro…Vinte e cinco…Cento e dois…Cento e três…Pararam algumas vezes na subida para os dois, mais ele, se recomporem, sob o pretexto de admirar a vista ou tirar uma fotos com a pequena máquina digital.  Ao fim de muitas paragens e degraus, chegaram ao topo. Quatrocentos e trinta e quatro degraus!
Estavam os dois de rastos, descansaram, beberam água, tiraram fotos e degustaram um pequeno lanche. A vista era magnífica. Campos planos, a perder de vista, com aldeolas dispersas e inúmeras oliveiras. A jusante da vila podia-se admirar o traçado irregular duma vala profunda onde em tempos, ou noutra altura do ano, devia ter corrido um rio, do qual só sobrevivera as areias e pedras arredondadas do leito seco. O filho lembrou-o de que deveriam pensar em regressar, porque a tarde começava a declinar. Concordou, mais tranquilo agora por saber que seria muito mais fácil do que a escalada que haviam vencido. Em todo o caso, e para ter uma noção da progressão da caminhada, contou novamente os degraus a partir do um e, novamente, apenas para si, discretamente…Quinze…Dezasseis…Dezassete…Noventa e cinco…Noventa e seis. Estranhamente, quando alcançaram o tricentésimo degrau parecia que ainda estavam no início da descida, com a paisagem em volta com a mesma beleza e magnitude. Por esse motivo, não estranhou quando chegaram ao quatrocentésimo, trigésimo quarto degrau, e descobriu que ainda estavam a meio da descida. Não se alarmou, não tinha motivos para tal, porque sabia, como qualquer pessoa comum, que os montes também crescem.


ponto de viragem

     Era um homem de queixo sumido, não tinha braços, não tinha pernas, o nariz fora-lhe amputado. Ninguém o respeitava e agora, fartara-se, e decidira que devia parar com joguinhos psicológicos e partir para a violência física

o lugar a que se pertence

   - O seu lugar é mais adiante, naquele espaço no meio da praça!
   Ah, que bom! - pensou consigo mesmo. Finalmente alguém lhe dizia qual era o seu lugar, o lugar onde se encaixava. Seguiu as instruções, e ocupou o seu lugar no meio da praça, depois de passar com muito cuidado por cima das pessoas deitadas no chão empedrado. Parecia pertencer a um puzzle gigante, no qual cada pessoa era uma peça, e ele, a última peça e a última pessoa a chegar ali, é que iria finalizar, completar o puzzle. Sentiu um imenso orgulho. Deitou-se no chão, com o corpo em éle, dobrado pela cintura, e quando estava já encaixado, perfeitamente encaixado no seu lugar e no seu espaço, os militares posicionados no telhado da igreja começaram a disparar as metralhadoras sobre eles.

longe da verdade

- Queres sinceridade? Pois bem, cheiras mal, toda a pestilência e cheiro a podre do mundo são um eco simpático do cheiro fétido a merda do teu ego e do teu carácter. O que é que dizes da minha sinceridade?
- Que estás a ser insincera, o amor que sentes por mim é que origina esse teu discurso amável e bondoso...

um azar do caraças

   "Peço desculpa por ser feliz!", gostava de dizer ás pessoas com um largo e pateta sorriso na cara. Disse-o a todas as pessoas, mesmo ao Manassas, que não gostava de desculpas e patetas e que também não gostava de sorrisos, pelo menos, não gostava tanto de sorrisos como do revólver que trazia sempre no bolso do casaco.

morar e viajar

   "Vivo numa casa assombrada habitada por muitos fantasmas e espíritos,mas não tenho medo deles e até os procuro!" - afirmava a bibliotecária.
   As pessoas estranhavam o seu discurso e pensavam que ela estava a ficar xéxé da cabeça, mas não, apenas divergia do comum no uso das palavras. Quando falava em casa, pensava na biblioteca, e quando falava no que uma casa pode conter - quartos, salas, corredores - pensava em livros, cheio de gente e de impressões, e cujas portas franqueava de cada vez que abria um livro.

atravessado na garganta

   A dona Rosinda estava muito mal, e os amigos levaram-na de imediato ao Hospital. Ampararam-na até ao guiché, e dali foi remetida para a triagem para se avaliar a gravidade do mal. Só um deles, o Esteves da farmácia, é que a acompanhou quando a atenderam lá dentro.
   - O que é que se passa com a senhora? - perguntaram-lhe.
   - A minha amiga tem um silêncio atravessado na garganta. Foi assim de repente, estava na praça, na sua banca de flores a falar sem parar, e de repente ficou muda e emudecida, e nem mais um pio se ouviu da sua boca.
   - Hah!... Nada de grave, vou atribuir-lhe uma pulseira azul para o atendimento. Ou melhor, mando-a já para a enfermaria, que lá extraem o silêncio e desinfectam a picada.
   Assim fizeram. Anexaram uma nota à ficha de inscrição e  mandaram-na com a Rosinda e o Esteves para a enfermaria. Aquilo lá foi assaz rápido. Uma enfermeira dum louro platinado com um forte hálito de tabaco recebeu-os, observou o pescoço da Rosinda (e lá estava, bem à vista, a ponta da farpa de silêncio); aproximou mais a luz do pescoço, muniu-se duma pinça com a qual segurou a ponta da farpa e, num gesto repentino, extraiu o silêncio atravessado na garganta.
   A Rosinda pareceu ter acordado. Deu um pulo na maca, sorriu para o Esteves, abraçou o pescoço da loura, e desenovelou as palavras oprimidas:
   «Já lhe contei da viúva do Antunes, senhor Esteves? Senhor Esteves e menina, que também é filha de Deus e merece saber as novidades. Pois a viúva do Antunes, mulher entradota já, andou meses com uma cara de meter medo, parecia que todos lhe deviam dinheiro, eu até tinha receio de a atender porque com aquela cara parecia que me podia dar duas galhetas na cara a qualquer momento. Pois a viúva, de um momento para o outro ficou doce e sorridente o dia todo, sempre melosa e conversadora, e no outro dia, chamei-a à parte e disse-lhe - Ó dona Maria, a senhora mudou tanto, quem a viu e quem a vê, eu acho que a senhora tem algum netinho novo, ou então, um rapaz novo na cama para lhe aquecer os pés. E a viúva, em vez de me responder,  começou a brincar com um antúrio que eu tinha na banca, não com a flor, mas com o pirilau que o antúrio tem. Olhem-me aquela descarada. E o Morais, aquele emproado que vende seguros, disse-me que a viúva do Antunes...".
   A enfermeira ainda segurava a pinça com a farpa e trocou com o Esteves um olhar cheio de cumplicidade. Que pena, não se poder ajudar uma pobre e inofensiva farpa como aquela...

vida profunda

   "estou sentado a um canto, e consigo sentir em volta o rumor de máquinas que são menos reais do que estas palavras que escrevo num pequeno bloco, sinto-me em harmonia com o ritmo das marés e das ondas, a sentir o meu coração bater na mesma cadência do aquático alento dos peixes e criaturas bizarras das profundidades, deslizo pela água, sou um com a água, translúcido e despojado como uma medusa o ondear as suas pregas num bailado único".
   Ouve roufenhar o comunicador, e larga o bloco.
   - marinheiro - grita o comandante - o torpedo seis não foi libertado, vê o que se passa porque a caça promete.

vida profunda 2

esbracejou dentro de água ao mesmo tempo que batia os pés com força, e enquanto lutava para conseguir vir á tona sem que a pá do remo lhe acertasse na cabeça, tentava ao mesmo tempo não perder a noção de onde estava o barco, o fundo abaulado do barco de madeira, com medo de se afastar dele nessa vertigem de sobrevivência e ver-se só no meio do mar; continuaram nesse jogo mais algum tempo, ele insinuando a cabeça de fora da água para engolir o ar com sôfregas golfadas para logo mergulhar quando a pá se abatia sobre a epiderme salgada, e o seu potencial homicida a tentar acertar-lhe, seguindo nervoso os contorcionismos do seu corpo ágil dentro de água, temendo que ele escapasse de alguma maneira ou que tentasse virar o bote; e por fim desistiram; o frustrado agressor em potência pousou o remo no barco e gritou "Basta, desisto!", cansado que estava dos braços, de todos os músculos dos braços por andar a esgrimir o pesado remo; e quase no mesmo instante, o homem dentro de água também desistia, sem gritos nem sons, o seu corpo a afundar-se nas águas escuras, empurrado pelo cansaço e pelo peso da memória no peito.

tóxico

- Quero mudar, quero mesmo muito mudar! - afirmou com determinação.
- Isso só depende de si. Terá de alinhar os seus chackras, de modo a abrir o seu espírito para a Consciência Universal.
- Sim, e mais?
- Faremos então uma canalização transpessoal das energias planetárias, experiência que servirá de catalisador para a mudança profunda que a espera.
- E mais, e mais!?
- Primeiro que tudo, temos de estar seguros de que as energias planetárias não são contaminadas e para isso...
- Sim, sim, diga-me o que é necessário fazer!
-...para isso, tem de começar a pensar em tomar um banho.

o aviso e o amigo

   No enorme parque de estacionamento do hipermercado, havia um par de mulheres a mendigar. Jorge viu-as, Afonso, ao seu lado, a rever a lista de faltas da loja, também as viu e notou o olhar significativo do amigo.
   - Não vais dizer nada. Temos muito trabalho para fazer, e para isso há os seguranças cá do sítio - avisou.
   Jorge não respondeu, mas as palavras de Afonso não o pareciam ter desarmado. Uma das mulheres saiu-lhes ao caminho.
   - Uma esmolinha p'r favor, vim agora dum país de leste. Muit' guerra no meu país!
   Jorge desarrolhou.
   - E porque é que não vais trabalhar, hã?! Porquê? És nova, não pareces incapacitada, podes muito bem trabalhar!
   A mendiga engalfinhou-se nele, mordeu-lhe o nariz, arranhou-lhe a cara, e trespassou-lhe o ventre com uma navalha que tirara dum bolso da blusa.
   Afonso suspirou, enquanto o amigo se contorcia no chão.
   - Eu bem te disse... - disse.

A volta ao mundo em oitenta sabores

   Ao fim de muitas tentativas e pedidos, a minha mulher convenceu-me a irmos a um novo restaurante, o Trésor Gourmet, que fora inaugurado na cidade. Fui, mas com muitas reservas, porque a minha fasquia gastronómica é muito básica e posiciona-se algures entre o regular bife com batatas fritas, e um peixe assado na grelha acompanhado de batata cozida e salada de pimentos. Mas fui, é preciso que se note, com muita fome e muita coragem. O novo restaurante foi o que se esperava, muita gente e muito tempo de espera. Quando por fim tivemos uma mesa à disposição, começou a nossa viagem à volta do mundo, porque nada era dali perto, e aparentemente, todos os ingredientes eram fornecidos com literatura apensa. Vejamos. O queijo de cabra duma das entradas provinha duma exploração nos montes Apeninos onde as cabras eram ordenhadas apenas nas noites de Lua Nova e eram usados para armazenar o leite, recipientes de vidro que tinham sido feitos à imagem duns vasos que figuravam num tratado alquímico que se conserva num museu de Bolonha. E íamos só nas entradas. O pão devia ter o mesmo fornecedor porque a história era parecida - farinha de quatro cereais diferentes amassados com azeite e cozidos num forno semelhante ao atanor alquímico. Dei por mim a perguntar - um homem tem de dizer alguma coisa - se o azeite com que amassavam a massa era azeite comum, mas a resposta tinha de ser negativa. O azeite provinha dumas oliveiras que haviam sido enxertadas de espécimes antiquíssimas que haviam sido encontrados num vale médio dos Pirenéus e que os geneticistas acreditam terem a sua origem em oliveiras da Idade do Ferro. O vinho que me aconselharam também não era para plebeus, provinha da Turquia, duma vinha excepcional desenvolvida em terrenos onde durante gerações se havia cultivado o sésamo e que, por isso, permitia sentir-se no travo a acidez desse cereal de eleição, e no cheiro, o vigor do vento sobre as searas. Veio a carne, estava lá no prato, comprovo-o, um pedaço de carne do tamanho duma noz guarnecido de legumes salteados e arroz de pinhões. Devorei tudo, em menos tempo do que o nosso guia gourmet precisou para explicar o carácter único de cada um dos ingredientes usados, esgrimindo com belas palavras como se martelasse a cabeça de selvagens com um chapéu colonial. Escusei-me à sobremesa, ao café e aos licores, estava empanturrado de palavras mas continuava com fome. Pedi a conta, paguei com notas e, ante a surpresa do guia gourmet, apressei-me a explicar:
   - Não são notas vulgares, provém dum dos primeiros jogos de Monopólio que circularam no nosso país, são uma antiguidade e mereciam estar num museu como o de Bolonha.

Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...