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A mostrar mensagens de Março, 2012

conversa

- De que é que eu me queixo, doutor? Do mesmo. Tenho sempre sede, bebo e bebo mais e continuo com uma sede dos diabos...
- Já tínhamos visto isso da última vez e eu acho que deve ser diabetes, quando se começa a ter diabetes, tem-se muita sede.
- Muita mesmo, doutor, bebo e bebo e a sede é sempre a mesma. Eu fui fazer as análises que você disse, mas o laboratório aqui da aldeia manda os exames para serem feitos fora, e vai e vem e pode levar meses, e a sede não diminui.
-Tinha-o aconselhado a algumas medidas cautelares, para o caso de ser mesmo diabetes. Uma dieta alimentar, por exemplo...
- Correcto, segui-a à letra.
- Folha de eucalipto fervida?
- Sim!
- Cerefólios e tapeinóquilos marinados em conhaque?
- Sim!
- Estames de astromélias e tumbérgias, cozidas em pão de centeio.
- Confere!
- Carne de perdiz com folhas de brovália e dipladénias.
- Confere!
- E diz que não sente melhoras e que a sede se mantém?!
- Certo, doutor, bebo continuamente e não há meio da sede passar...
- Nesse c…

acordar

A luz foi surgindo depois de um longo período de tempo, sentira-a longe como uma cúpula envidraçada onde a luz do sol se derretesse, depois aproximou-se rapidamente e agora era um clarão doloroso do outro lado das pálpebras fechadas. Abriu os olhos a medo, e a luz magoou-lhe as retinas como gelo a queimar. Levantou instintivamente o braço para proteger os olhos, e então viu-o, ao braço. Ficou espantada, olhando o seu próprio braço, magro, de ossos e músculos quase à superfície da pele, agitando-se sobre esta como vermes ou secretas e magras raízes. Com a outra mão, tacteou a pele daquele braço, a pele esticada e velha, mais morta do que enrugada. Também tinha uma cicatriz antiga no antebraço, de costura irregular. Acariciou-a com a ponta dos dedos, como se temesse que ela acordasse numa hemorragia vingativa. As suas mãos também a espantaram, mãos magras de cadáver, ossudas e atrofiadas. Quando deu por ela, todas as pessoas naquele quarto se entreolhavam significativamente, interpre…

o imprevisto

Demétrio era um homem previdente a avisado, que detestava surpresas e gostava de planificar e preparar todas as coisas com muita antecedência, as declarações de impostos ou as roupas quentes para o Inverno que ainda vinha longe. Por isso, quando sentiu a idade converter-se em sintomas da mais variada ordem, comprou, com a concordância da mulher, Odete, um caixão de madeira para o dia em que lhe calhasse descer à terra. Não era nada de mais, e ambos mantiveram um comportamento adequado e normalíssimo para com a nova aquisição. O caixão foi colocado no quarto de hóspedes da casa, e como havia aproveitado uma promoção, Demétrio também teve direito a uma lápide com o seu nome e data de nascimento, faltando apenas, e apenas por inépcia dos vendedores, inscrever a data do óbito.
   Para que a madeira do caixão não ganhasse caruncho, Demétrio tratava-a com bioxene, e polia e envernizava o metal das ferragens. Odete, por seu turno, foi aprendendo que flores deveria comprar, e como fazer um…

anseio

Vejo em volta, sem olhar, com uma visão só embaraçada pelo agitar tardio de asas e plumas a esvoaçar no ar. Já anoiteceu, e eu vejo em volta, sem olhar. Há um homem bêbedo que nem um cacho deitado nos degraus em baixo, um pouco mais adiante, sob o halo dum candeeiro, uma mulher de mini-saia e cabeleira loura vasculha na carteira, procurando qualquer coisa enquanto espera ser procurada por um cliente. Apenas dois humanos na praça àquela hora da noite. Talvez nenhum dos dois notasse. Podiam tentar. Mas eis que um novo par de humanos pisa o empedrado da praça, duas mulheres que brigam, que gritam uma com a outra, para logo a seguir se abraçarem aos beijos e apalpões, para logo irromperem de novo em protestos e acusações. O pior é que também se sentam nos degraus em baixo, no lado oposto ao do bêbedo. A discussão amaina, os gritos, ficam sentadas, docemente abraçadas, a tentar ver as estrelas para além das luzes da cidade. Estou prestes a desistir, ouço o cavalo resfolegar de desalento de…

fora dos livros

No meio de campos maninhos, a enxada daquele homem abriu um quadrilátero de cultivo, revolvendo e despregando a terra. Traçou sulcos paralelos no terreno, e depois, sulcos perpendiculares a estes que conferiram um padrão de xadrez ao conjunto. Por fim, traçou um sulco circular a toda a volta, tocando os quatro ângulos - o quatro dentro do círculo, a terra dentro do céu.
   Deixou a terra repousar durante três dias, três dias e três noites de calor e orvalho, vento e tímidos chuviscos, mas também poalha das estrelas, temperada nas altitudes mais elevadas pelas erupções do Sol e o magnetismo dos corpos planetários. Na noite que coroou o terceiro dia, colocou-se no centro do terreno, e observou a posição da Lua e dos planetas na abóbada celeste. Após esse exame, que considerou favorável, depositou nesse lugar a semente, e em seguida sepultou-a e encheu de terra todos os sulcos que abrira com o cuidado de quem afaga uma cicatriz. E, finalmente, abandonou aquele terreno que, em muito po…

(uma espécie de conto infantil)

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O REI DE FAZ-DE-CONTA
Uma certa manhã, todos os animais da savana ficaram muito admirados quando o velho Leão fez saber que já estava cansado de reinar sobre eles. Todos os animais e bichos se reuniram então numa grande planície para escolher um novo rei. Vieram hipopótamos e chitas sarapintadas, rinocerontes e zebras listadas, vieram avestruzes, papa-formigas, gorilas a urrar e todos os que se consiga imaginar, mas também águias e flamingos, formigas e caracóis, borboletas e grilos…Ah! E veio também o bicho-de-conta, que sempre desejara ser rei, porque era muito pequeno e ninguém lhe tinha respeito. Quando começou a reunião, o bicho-de-conta pediu á girafa para se sentar em cima da sua cabeça, mas ela não deixou porque não lhe achou muita graça; depois pensou em ficar em cima da hiena, mas a hiena cheirava tão mal que até dava pena, e por fim resolveu colocar-se em cima da cabeça do grande elefante, para parecer um animal muito importante. O Leão tirou a coroa da cabeça e perguntou: - Qu…

Assimetria

O filho adolescente propôs-lhe subirem ao miradouro da vila. Ficou uns segundos a ponderar o assunto. O miradouro era uma velha ermida que haviam erguido há mais de quatrocentos anos sobre as pedras dum antigo dólmen (assim o informava o folheto turístico que possuíam), e donde estavam, no meio do casario, aquela ermida era apenas um ponto branco no alto duma morro cónico. O filho era adolescente e o desafio aflorou-lhe levemente aos lábios, mas para ele, mais envelhecido e macerado pelas adversidades, aquela empresa parecia-lhe temerária e pouco atractiva. Mas não quis recusar, não quis envelhecer uns poucos anos em poucos segundos aos olhos do filho adolescente. Aceitou. Atestaram as mochilas com água engarrafada, e iniciaram a subida – um escadaria de degraus miudinhos, pautados a espaços por pequenos patamares triangulares, que apareciam de cada vez que o caminho inflectia para dentro, porque o caminho ascendia em espiral pela orla do morro. Para si, e enquanto tentava manter a re…

ponto de viragem

Era um homem de queixo sumido, não tinha braços, não tinha pernas, o nariz fora-lhe amputado. Ninguém o respeitava e agora, fartara-se, e decidira que devia parar com joguinhos psicológicos e partir para a violência física

o lugar a que se pertence

- O seu lugar é mais adiante, naquele espaço no meio da praça!
   Ah, que bom! - pensou consigo mesmo. Finalmente alguém lhe dizia qual era o seu lugar, o lugar onde se encaixava. Seguiu as instruções, e ocupou o seu lugar no meio da praça, depois de passar com muito cuidado por cima das pessoas deitadas no chão empedrado. Parecia pertencer a um puzzle gigante, no qual cada pessoa era uma peça, e ele, a última peça e a última pessoa a chegar ali, é que iria finalizar, completar o puzzle. Sentiu um imenso orgulho. Deitou-se no chão, com o corpo em éle, dobrado pela cintura, e quando estava já encaixado, perfeitamente encaixado no seu lugar e no seu espaço, os militares posicionados no telhado da igreja começaram a disparar as metralhadoras sobre eles.

longe da verdade

- Queres sinceridade? Pois bem, cheiras mal, toda a pestilência e cheiro a podre do mundo são um eco simpático do cheiro fétido a merda do teu ego e do teu carácter. O que é que dizes da minha sinceridade?
- Que estás a ser insincera, o amor que sentes por mim é que origina esse teu discurso amável e bondoso...

um azar do caraças

"Peço desculpa por ser feliz!", gostava de dizer ás pessoas com um largo e pateta sorriso na cara. Disse-o a todas as pessoas, mesmo ao Manassas, que não gostava de desculpas e patetas e que também não gostava de sorrisos, pelo menos, não gostava tanto de sorrisos como do revólver que trazia sempre no bolso do casaco.

morar e viajar

"Vivo numa casa assombrada habitada por muitos fantasmas e espíritos,mas não tenho medo deles e até os procuro!" - afirmava a bibliotecária.
   As pessoas estranhavam o seu discurso e pensavam que ela estava a ficar xéxé da cabeça, mas não, apenas divergia do comum no uso das palavras. Quando falava em casa, pensava na biblioteca, e quando falava no que uma casa pode conter - quartos, salas, corredores - pensava em livros, cheio de gente e de impressões, e cujas portas franqueava de cada vez que abria um livro.

atravessado na garganta

A dona Rosinda estava muito mal, e os amigos levaram-na de imediato ao Hospital. Ampararam-na até ao guiché, e dali foi remetida para a triagem para se avaliar a gravidade do mal. Só um deles, o Esteves da farmácia, é que a acompanhou quando a atenderam lá dentro.
   - O que é que se passa com a senhora? - perguntaram-lhe.
   - A minha amiga tem um silêncio atravessado na garganta. Foi assim de repente, estava na praça, na sua banca de flores a falar sem parar, e de repente ficou muda e emudecida, e nem mais um pio se ouviu da sua boca.
   - Hah!... Nada de grave, vou atribuir-lhe uma pulseira azul para o atendimento. Ou melhor, mando-a já para a enfermaria, que lá extraem o silêncio e desinfectam a picada.
   Assim fizeram. Anexaram uma nota à ficha de inscrição e  mandaram-na com a Rosinda e o Esteves para a enfermaria. Aquilo lá foi assaz rápido. Uma enfermeira dum louro platinado com um forte hálito de tabaco recebeu-os, observou o pescoço da Rosinda (e lá estava, bem à vista, …

vida profunda

"estou sentado a um canto, e consigo sentir em volta o rumor de máquinas que são menos reais do que estas palavras que escrevo num pequeno bloco, sinto-me em harmonia com o ritmo das marés e das ondas, a sentir o meu coração bater na mesma cadência do aquático alento dos peixes e criaturas bizarras das profundidades, deslizo pela água, sou um com a água, translúcido e despojado como uma medusa o ondear as suas pregas num bailado único".
   Ouve roufenhar o comunicador, e larga o bloco.
   - marinheiro - grita o comandante - o torpedo seis não foi libertado, vê o que se passa porque a caça promete.

vida profunda 2

esbracejou dentro de água ao mesmo tempo que batia os pés com força, e enquanto lutava para conseguir vir á tona sem que a pá do remo lhe acertasse na cabeça, tentava ao mesmo tempo não perder a noção de onde estava o barco, o fundo abaulado do barco de madeira, com medo de se afastar dele nessa vertigem de sobrevivência e ver-se só no meio do mar; continuaram nesse jogo mais algum tempo, ele insinuando a cabeça de fora da água para engolir o ar com sôfregas golfadas para logo mergulhar quando a pá se abatia sobre a epiderme salgada, e o seu potencial homicida a tentar acertar-lhe, seguindo nervoso os contorcionismos do seu corpo ágil dentro de água, temendo que ele escapasse de alguma maneira ou que tentasse virar o bote; e por fim desistiram; o frustrado agressor em potência pousou o remo no barco e gritou "Basta, desisto!", cansado que estava dos braços, de todos os músculos dos braços por andar a esgrimir o pesado remo; e quase no mesmo instante, o homem dentro de água t…

tóxico

- Quero mudar, quero mesmo muito mudar! - afirmou com determinação.
- Isso só depende de si. Terá de alinhar os seus chackras, de modo a abrir o seu espírito para a Consciência Universal.
- Sim, e mais?
- Faremos então uma canalização transpessoal das energias planetárias, experiência que servirá de catalisador para a mudança profunda que a espera.
- E mais, e mais!?
- Primeiro que tudo, temos de estar seguros de que as energias planetárias não são contaminadas e para isso...
- Sim, sim, diga-me o que é necessário fazer!
-...para isso, tem de começar a pensar em tomar um banho.

o aviso e o amigo

No enorme parque de estacionamento do hipermercado, havia um par de mulheres a mendigar. Jorge viu-as, Afonso, ao seu lado, a rever a lista de faltas da loja, também as viu e notou o olhar significativo do amigo.
   - Não vais dizer nada. Temos muito trabalho para fazer, e para isso há os seguranças cá do sítio - avisou.
   Jorge não respondeu, mas as palavras de Afonso não o pareciam ter desarmado. Uma das mulheres saiu-lhes ao caminho.
   - Uma esmolinha p'r favor, vim agora dum país de leste. Muit' guerra no meu país!
   Jorge desarrolhou.
   - E porque é que não vais trabalhar, hã?! Porquê? És nova, não pareces incapacitada, podes muito bem trabalhar!
   A mendiga engalfinhou-se nele, mordeu-lhe o nariz, arranhou-lhe a cara, e trespassou-lhe o ventre com uma navalha que tirara dum bolso da blusa.
   Afonso suspirou, enquanto o amigo se contorcia no chão.
   - Eu bem te disse... - disse.

A volta ao mundo em oitenta sabores

Ao fim de muitas tentativas e pedidos, a minha mulher convenceu-me a irmos a um novo restaurante, o Trésor Gourmet, que fora inaugurado na cidade. Fui, mas com muitas reservas, porque a minha fasquia gastronómica é muito básica e posiciona-se algures entre o regular bife com batatas fritas, e um peixe assado na grelha acompanhado de batata cozida e salada de pimentos. Mas fui, é preciso que se note, com muita fome e muita coragem. O novo restaurante foi o que se esperava, muita gente e muito tempo de espera. Quando por fim tivemos uma mesa à disposição, começou a nossa viagem à volta do mundo, porque nada era dali perto, e aparentemente, todos os ingredientes eram fornecidos com literatura apensa. Vejamos. O queijo de cabra duma das entradas provinha duma exploração nos montes Apeninos onde as cabras eram ordenhadas apenas nas noites de Lua Nova e eram usados para armazenar o leite, recipientes de vidro que tinham sido feitos à imagem duns vasos que figuravam num tratado alquímico …