INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

um poema de Jaime Salazar Sampaio

aquele português valente que encontrei outro dia
em paris, mostrou-me um artigo de jornal
onde todos os problemas portugueses, todos,
se resolviam em francês.
mexi com força o açúcar na chávena e o nosso
compatriota desapareceu.
de que lhe vale ser português (e valente)
se basta eu agitar a colher no café, 
para ele se perder no boulevard saint michel
ou na rua das pretas?
há muitos anos (vinte? trinta?) vivemos nós todos 
num país que não existe. Somos nove milhões,
quase, e não damos pela coisa.
alimentamo-nos de raiva, caruncho, montes
de anedotas e um vago amor à humanidade
que, pelo seu lado, talvez também não exista
(o amor? a humanidade?... como quiserem, é sempre duvidoso).


Poema retirado de "O Viajante Imóvel" (Plátano Editora, 1979).
Mais textos de Jaime Salazar Sampaio, no Micro-Leituras.

Geena

                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma ...