hábitos

     Ele entra na sala ao mesmo tempo que ela como num encontro cronometrado. Se ela segura o comando da televisão, ele insinua com gestos que era esse o movimento que pretendia fazer, roda o corpo no sofá e movimenta a cabeça e as mãos como um reflexo seu. Está ali, ao seu lado na sala, de um modo asfixiante, de exa-desesperar, copiando-a ao mínimo pormenor como se troçasse dela. Mas é apenas ali, na sala, que a sua presença sobrepuja tudo como uma maré negra porque fora daquelas quatro paredes é como se não existisse, converte-se numa sombra, uma imagem em trânsito, ténue e breve, o eco do murmúrio duma torneira, uma ou duas palavras desconexas que deixa no ar até se desvanecerem, uma peça de roupa que oscila na maçaneta da porta do quarto,o seu vulto desajeitado e desastrado a arranjar espaço dentro dos lençóis da cama, e aquele corpo encostado ao seu, lasso-e-frio-sem-desejo-nem-intenção. Mas ele sempre fora assim. Mesmo em vida.

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