50 anos

   O orador bebeu um trago de água, e admirou com complacência a sala cheia. Estudantes universitários, colegas, investigadores, jornalistas, curiosos.
   «Cinquenta anos, meus amigos, é, em História, o período de tempo mínimo e indispensável para se ter uma perspectiva um pouco mais objectiva e descomprometida dum facto, da sua real importância e de todas as suas implicações».
   Em seguida, com o cansaço nos gestos, arrumou e pôs de parte os papéis, e voltou a admirar os seus ouvintes.
   «Completa hoje cinquenta e um anos que nasceu a pessoa que se encontra perante vós, e permitam-me a divagação desenquadrada e fora de contexto, mas devo confessar-vos que me considero uma pessoa que não gosta de outras pessoas, que sente fascínio e devoção pelo conhecimento mas que arrasta a frustrante função de ter de o partilhar e expor a outros, uma frustração que se insere numa frustração em muito maior escala, que é aquela que sinto em cada dia  e em cada minuto por cada tarefa, acção ou gesto que tenha de cumprir. Empurro diante de mim, como a pedra de Sísifo, uma existência que me ameaça esmagar a qualquer momento.
   «Agora sim, e voltando ao tema desta nossa conversa de hoje, posso dizer, com a imparcialidade destes pouco mais de cinquenta anos desde o momento em que fui concebido, que só lastimo que o meu pai, em vez de apontar uma semente apodrecida ao óvulo da minha mãe, não tenha - para o dizer de forma um pouco mais elegante - consagrado essa semente no altar a Onan».

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